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(Fotos: Sabrina Schreiner e Rodrigo Obeid/A Redação)

Goiânia em nove capítulos: marcas que ajudam a contar a história da capital

De avenidas e monumentos a espaços culturais, lugares que revelam diferentes camadas da cidade que completa 93 anos.

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23.10.2026 - 09:00:58

Carolina Pessoni

Goiânia – Goiânia nasceu de um projeto de modernização, ganhou forma entre avenidas largas e edifícios de linhas geométricas e, ao longo de nove décadas, construiu uma identidade que ultrapassa os limites de seu plano original. A capital que completa 93 anos neste sábado (24/10) guarda, em suas ruas, praças, monumentos e instituições, vestígios de diferentes épocas e histórias que ajudam a compreender como a cidade se transformou.

A pedra fundamental foi lançada em 24 de outubro de 1933, no local escolhido para a construção da nova capital de Goiás. O projeto urbanístico ficou sob a responsabilidade do arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, e a transferência oficial da capital, antes instalada na Cidade de Goiás, ocorreu em 1937. A inauguração oficial veio em 1942, com o chamado Batismo Cultural, que reuniu solenidades e eventos entre os dias 1º e 11 de julho. São marcos distintos de uma mesma trajetória: a concepção, a consolidação administrativa e a apresentação da nova cidade ao país.

A coluna Joias do Centro percorreu lugares que ajudam a reconstituir essa história. Reunidas nesta edição especial, nove marcas da capital formam um percurso por sua arquitetura, seus símbolos, sua produção cultural e os espaços que seguem presentes na vida dos moradores.

 

1. Praça Cívica: o ponto de partida

A Praça Cívica ocupa um lugar central na história de Goiânia porque concentra, em seu desenho, parte das ideias que orientaram a construção da nova capital. Concebida por Attilio Corrêa Lima como espaço de articulação dos edifícios públicos, a praça foi planejada para reunir funções administrativas e constituir um lugar de convivência na cidade que começava a ser erguida.

 

Praça Cívica (Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)

 

A escolha do local também está ligada ao nascimento de Goiânia. Foi na área em que hoje se encontra o Palácio das Esmeraldas que Pedro Ludovico Teixeira lançou a pedra fundamental da capital, em 24 de outubro de 1933. A partir dali, o traçado urbano se desenvolveu com avenidas que conectavam a praça a diferentes regiões.

Ao longo do tempo, o espaço passou por mudanças de uso e de configuração, acompanhando as transformações do Centro. Ainda assim, permanece como referência para compreender o projeto original da cidade e a relação entre urbanismo, poder público e vida urbana.

A história da praça é também a história de uma ambição: construir uma capital planejada para representar um novo momento político e econômico de Goiás.

Leia também: Praça Cívica preserva a ideia de ágora onde Goiânia encontrou sua identidade

 

2. Avenida Goiás: a linha que desenhou o Centro

Entre as primeiras grandes vias da capital, a Avenida Goiás ajuda a entender como o plano urbano ganhou expressão na paisagem. Seu traçado estabelece uma ligação direta com a Praça Cívica e participa da organização do Centro, onde se concentraram atividades administrativas, comerciais e de convivência.

 

Avenida Goiás (Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)

 

A avenida atravessou décadas de mudanças na ocupação da cidade. O crescimento urbano, as transformações no comércio e as alterações na circulação modificaram sua dinâmica, mas ela continua sendo uma das referências mais reconhecíveis de Goiânia.

Seu valor histórico está ligado tanto à concepção urbanística quanto às experiências acumuladas ao longo do tempo. Caminhar pela avenida é atravessar diferentes camadas da capital: a cidade planejada, o Centro comercial, os edifícios históricos e os espaços que continuam recebendo quem trabalha, circula ou vive na região.

Leia também: Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

 

3. Torre do Relógio: o tempo inscrito na paisagem

Na Avenida Goiás, a Torre do Relógio é um dos elementos mais conhecidos do conjunto arquitetônico histórico de Goiânia. Inaugurada em 1942, durante o Batismo Cultural da capital, a estrutura reúne a função prática de marcar as horas e a dimensão simbólica de um monumento incorporado à paisagem urbana.

 

Torre do Relógio (Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)

 

Projetada por Américo Vespúcio Pontes, a torre apresenta características do estilo Art Déco, com formas geométricas, composição vertical e ornamentos que dialogam com a arquitetura dos primeiros anos da cidade. O relógio pode ser visto nos quatro lados da estrutura, que marca o início da avenida e integra o conjunto de referências históricas do Centro.

A Torre do Relógio também recorda um momento importante da trajetória goianiense: o Batismo Cultural, em julho de 1942, quando a capital foi oficialmente inaugurada em uma programação de solenidades, encontros e atividades culturais.

Leia também: Torre do Relógio marca o encontro entre a história e a modernidade de Goiânia

 

4. Monumentos: as imagens que a cidade escolhe preservar

Os monumentos instalados nos espaços públicos ajudam a contar como Goiânia representa sua própria história. Suas formas, seus materiais e as ideias que carregam revelam escolhas sobre o que merece ser lembrado e como determinados acontecimentos e personagens passam a integrar a memória coletiva.

 

Monumento à Paz Mundial, Monumento às 3 Raças e Monumento à Todos Nós (Fotos: Sabrina Schreiner e Rodrigo Obeid / A Redação)

 

Na Praça Cívica, o Monumento às Três Raças, obra da artista Neusa Morais inaugurada em 1967, tornou-se uma das imagens mais conhecidas da capital. A escultura representa três figuras humanas que sustentam um marco e simboliza a contribuição de diferentes grupos étnicos para a formação da população goiana.

A praça também abriga a obra de Siron Franco Monumento a Todos Nós, que propõe uma reflexão sobre as relações entre passado, presente e futuro. Em outro ponto da cidade, no Bosque dos Buritis, o Monumento à Paz Mundial, também assinado por Siron, reúne amostras de terra de diferentes países e foi concebido como uma mensagem de união entre os povos.

Leia também: Monumento às Três Raças ergue história de Goiânia nas mãos
Como um espelho, obra de Siron Franco reflete passado, presente e futuro de Goiânia
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

 

5. Centro Cultural Marietta Telles Machado: edifícios que ganham novos sentidos

Na Praça Cívica, o Centro Cultural Marietta Telles Machado reúne diferentes capítulos da história administrativa e cultural de Goiás. O edifício foi construído na década de 1930, com projeto associado a Attilio Corrêa Lima, e teve funções ligadas à estruturação do poder público na nova capital. Ao longo de sua trajetória, abrigou a Secretaria Geral do Estado, o Fórum e a Secretaria da Fazenda.

 

Centro Cultura Marietta Telles Machado (Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)

 

A ocupação cultural começou em 1988, quando a Secretaria de Cultura passou a funcionar no local. A mudança abriu espaço para outras formas de relação com a população e consolidou uma nova etapa na história do prédio.

Atualmente, o complexo abriga o Museu da Imagem e do Som (MIS), a Biblioteca Estadual Pio Vargas, a Biblioteca Braille José Álvares de Azevedo, a Gibiteca Jorge Braga e o Cine Cultura, além de setores administrativos da Secretaria de Estado da Cultura. No anexo, funciona o Arquivo Histórico Estadual.

O conjunto integra o acervo arquitetônico art déco protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Sua trajetória demonstra como a preservação de um edifício pode estar associada à continuidade de seu uso público e à ampliação das atividades que ele oferece à cidade.

Leia também: Centro Cultural Marietta Telles Machado reúne memória, arte e novos planos para o futuro

 

6. Beco da Codorna: a arte que transforma os espaços

No Centro, entre a Avenida Anhanguera, a Rua 9 e a Avenida Tocantins, o Beco da Codorna mostra outra dimensão da paisagem urbana. Conhecido também como Viela Miguel Rassi, o espaço passou por diferentes usos até se consolidar como referência da arte urbana em Goiânia.

 

Beco da Codorna (Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)

 

Na década de 1980, a viela era ponto de encontro para o happy hour de trabalhadores e frequentadores dos cinemas da região. Um dos bares que funcionavam ali, o Bar do Oliveira, tinha a codorna ensopada como especialidade, uma das explicações registradas para a origem do nome pelo qual o lugar ficou conhecido.

Décadas depois, o beco chegou a ser usado principalmente como estacionamento durante o horário comercial. A mudança de perspectiva ganhou força em 2014, com o projeto Cena Urbana, ligado a estudantes de Publicidade e Propaganda da PUC Goiás, que reuniu grafite, música e skate. A participação de artistas e integrantes da Associação dos Grafiteiros de Goiás contribuiu para transformar os muros em espaços de expressão artística.

Desde então, a viela recebeu exposições, apresentações musicais, feiras, atividades circenses e outras iniciativas culturais. Os grafites deram novas cores ao espaço e ajudaram a aproximar o público de uma área que poderia passar despercebida na rotina do Centro.

Leia também: Beco da Codorna: quando a arte encontrou um lugar no coração de Goiânia

 

7. As gameleiras do Setor Oeste: árvores que cresceram com Goiânia

A memória de uma cidade também pode estar inscrita em sua paisagem natural. No Setor Oeste, região central de Goiânia, as gameleiras que cresceram ao longo de quase sete décadas acompanham transformações urbanas e permanecem como referências para quem circula pelo bairro.

 

Gameleira da Praça da Cirrose (Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)

 

Árvores antigas ajudam a contar histórias que nem sempre aparecem nos documentos oficiais. Seu crescimento atravessa mudanças na ocupação dos lotes, na construção de edifícios, no fluxo de veículos e nos hábitos dos moradores. A permanência dessas árvores permite observar a passagem do tempo em uma escala diferente daquela dos prédios e das avenidas.

Em Goiânia, cuja expansão modificou profundamente a paisagem desde os primeiros anos, as árvores antigas também convidam a pensar sobre a relação entre urbanização, arborização e qualidade dos espaços públicos.

As gameleiras do Setor Oeste fazem parte desse patrimônio vivo. Sua história está ligada ao ambiente em que cresceram e às pessoas que passaram a reconhecê-las como parte da identidade do bairro.

Leia também: Gameleiras de quase 70 anos resistem às transformações de Goiânia e viram parte da memória do Setor Oeste

 

8. Estádio Olímpico: um palco de esporte e de memória coletiva

Fundado em 1941, o Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira ocupa um lugar importante na história esportiva de Goiânia. Localizado na Avenida Paranaíba, no Centro, foi o primeiro campo esportivo oficial da capital e permaneceu como seu principal estádio até a inauguração do Serra Dourada, em 1975.

 

Estádio Olímpico (Foto: SEEL Goiás)

 

O espaço recebeu partidas que marcaram o futebol goiano e nacional. Por seu gramado passaram jogadores como Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos e outros nomes históricos do esporte brasileiro. Para torcedores, atletas e trabalhadores, o Olímpico acumulou lembranças que ultrapassam os resultados das partidas.

O estádio também teve um papel doloroso na história da cidade. Em 1987, após o acidente radiológico com o césio-137, foi utilizado como centro de triagem para avaliar pessoas que poderiam ter sido expostas à radiação. A estrutura recebeu milhares de moradores em busca de avaliação e orientação durante a emergência.

O antigo estádio foi demolido a partir de 2006, após problemas estruturais, e o complexo esportivo atual foi reinaugurado em 2016. A transformação preservou a função esportiva do local, embora tenha alterado a estrutura física que tantas gerações conheceram.

Leia também: Estádio Olímpico: há 85 anos palco de celebrações do esporte em Goiânia

 

9. Museu da Imagem e do Som: a cidade que se lembra de si

Instalado no Centro Cultural Marietta Telles Machado, o Museu da Imagem e do Som de Goiás (MIS-GO) preserva registros que ajudam a compreender a história cultural e social do Estado. Fotografias, documentos, gravações e outros materiais audiovisuais permitem observar diferentes épocas e recuperar imagens, vozes e acontecimentos que fazem parte da memória coletiva.

O acervo do museu é especialmente importante para uma cidade relativamente jovem como Goiânia. Os registros visuais permitem acompanhar a transformação da paisagem urbana, a construção de edifícios, as mudanças nas formas de circulação e os modos de vida de diferentes gerações.

 

Acervo MIS (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

 

A fotografia de uma avenida décadas atrás, por exemplo, oferece outra perspectiva sobre o espaço que hoje é atravessado diariamente por milhares de pessoas. Uma gravação ou um documento pode recuperar vozes e acontecimentos que não estão mais presentes no cotidiano, mas permanecem relevantes para compreender o passado.

Ao lado de instituições como bibliotecas e arquivos públicos, o MIS contribui para que a história seja pesquisada, consultada e compartilhada. Seu trabalho conecta a preservação documental ao acesso da população à própria memória.

Leia mais: Entre discos raros e memórias, Museu da Imagem e do Som de Goiás preserva história que se escuta

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por Carolina Pessoni

*Jornalista formada pela UFG, especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing também pela UFG

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