Carolina Pessoni
Goiânia – Quem percorre a Avenida Goiás, no Centro de Goiânia, encontra no caminho um dos elementos mais reconhecíveis da paisagem da cidade. Erguida no início da década de 1940, a Torre do Relógio acompanha há mais de oito décadas a transformação da capital e permanece como uma espécie de marco visual entre a Praça Cívica e a antiga Estação Ferroviária.
O monumento foi inaugurado em 5 de julho de 1942, durante o chamado Batismo Cultural de Goiânia, mesma data em que também foi inaugurado o Coreto da Praça Cívica. A ocasião marcou oficialmente a apresentação da nova capital ao país e à população goiana.
Projetada por Américo Vespúcio Pontes, a Torre do Relógio foi concebida como um equipamento urbano funcional, mas também como parte do projeto de construção da imagem de uma cidade moderna. Segundo informações da Coordenação Técnica do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em Goiás, a obra teve início em 1940, na extremidade sul da Avenida Goiás, junto à Avenida 82.

Avenida Goiás e, ao fundo, a Torre do Relógio (Foto: IBGE)
A escolha do local não foi casual. A Avenida Goiás constitui um dos principais eixos do traçado original de Goiânia, ligando a Praça Cívica à Estação Ferroviária. Dentro desse desenho urbano, a avenida assumia um caráter monumental, e a Torre do Relógio, instalada no canteiro central, ajudava a concluir visualmente a transição entre a praça e a avenida.
O próprio Iphan identifica a Torre como parte do conjunto de elementos arquitetônicos e urbanos que materializam o projeto da nova capital. O órgão destaca que os primeiros edifícios e equipamentos públicos de Goiânia incorporaram referências do art déco, linguagem associada naquele período às ideias de modernidade, velocidade, geometria e racionalidade.
Na Torre, essa linguagem aparece de maneira especialmente evidente. O monumento possui quatro faces quadradas e recortadas, composição volumétrica escalonada, simetria axial e uma série de elementos geométricos distribuídos pelas fachadas. Sobre o mostrador do relógio, um elemento vazado de curvas sinuosas contrasta com as linhas retas predominantes. No coroamento, frisos e ornamentos geométricos completam a composição.
Aparência que conta história
Outro aspecto particular da Torre está em seu revestimento. Conforme informações da Coordenação Técnica do Iphan em Goiás, as fachadas receberam revestimento de pó de pedra com malacacheta, na cor cinza. O material produz uma superfície de tonalidade e textura características e foi utilizado em diferentes construções a partir das primeiras décadas do século XX.

(Foto: Reprodução)
Esse tipo de revestimento era composto por cimento, mica e material pétreo, que podia incluir granito, mármore ou basalto. Na Torre do Relógio, o revestimento se tornou um dos elementos que ajudam a reconhecer a obra. Entre os bens tombados pela União em Goiânia que apresentaram esse tipo de acabamento, a Torre é o único que ainda o conserva aparente em todas as suas superfícies.
A preservação desse material esteve entre os desafios das intervenções realizadas no monumento ao longo dos últimos anos. Em 2019 e 2020, o Iphan realizou uma obra de conservação que incluiu estudos técnicos e ensaios laboratoriais. Durante as avaliações, foram identificados problemas estruturais e fragilidades no revestimento das fachadas.
O diagnóstico levou a uma nova etapa de intervenção. Entre 2020 e 2021, a Torre passou por uma obra de restauração destinada a aprofundar o conhecimento sobre suas condições construtivas e orientar tecnicamente os trabalhos. A restauração foi coordenada pelo instituto e recebeu recursos da Caixa de Assistência dos Advogados de Goiás (Casag), que passou a ser responsável por manter o patrimônio.

(Foto: Reprodução)
A restauração incluiu reforços estruturais nas lajes internas e externas, nos elementos decorativos e no revestimento de pó de pedra das fachadas. Também foram recuperadas áreas que apresentavam fissuras e desprendimento de reboco, além dos elementos geométricos característicos da arquitetura da torre.
Quando o relógio voltou a marcar a cidade
A história da Torre também passa pelo funcionamento do próprio relógio. Em 1998, uma intervenção no monumento incluiu pintura das ferragens, recuperação da iluminação interna e manutenção do mecanismo, que voltou a funcionar naquele momento.
Anos depois, durante a restauração concluída em 2021, o relógio foi novamente reativado. O maquinário recebeu restauração especializada e voltou a marcar as horas e a tocar os sinos, recuperando uma função para a qual a torre foi concebida desde o início.
A máquina do relógio foi fabricada pela empresa paulista Michelini e Filho. Os quatro mostradores permitem que as horas sejam observadas de diferentes pontos da avenida, reforçando a função urbana do monumento.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Hoje, a Torre integra oficialmente o Conjunto Arquitetônico art déco e Urbanístico de Goiânia, reconhecido pelo Iphan como Patrimônio Cultural Brasileiro. O tombamento federal do conjunto ocorreu em 2003 e reúne 22 edifícios e monumentos públicos, concentrados principalmente no Centro e no núcleo pioneiro de Campinas.
A Torre também possui tombamento estadual pelo Despacho nº 1.096/1982 e pelo Decreto nº 4.943/1998, além do tombamento federal pela Portaria nº 507/2003, publicada no Diário Oficial da União em 24 de novembro daquele ano.
Mais de 80 anos depois de sua inauguração, o monumento continua cumprindo uma função que vai além de indicar as horas. Vertical em meio ao desenho horizontal da Avenida Goiás, ele registra na própria matéria de suas paredes um momento em que Goiânia ainda estava sendo construída física e simbolicamente.
É uma presença discreta e, ao mesmo tempo, impossível de ignorar. Um relógio que mede o tempo de Goiânia e, há décadas, também ajuda a contar a sua história.
