Carolina Pessoni
Goiânia – Há quase sete décadas, quatro gameleiras fazem sombra na Praça Mestre Maria Henriqueta Péclat, no Setor Oeste, conhecida pelos goianienses como Praça da Cirrose, na região central de Goiânia. As árvores cresceram junto com a cidade e se tornaram parte da paisagem de uma das regiões mais tradicionais da capital. Hoje, suas copas fazem parte do cotidiano de quem passa, trabalha ou permanece no local.
A história dessas árvores ajuda a contar também a história da arborização de Goiânia. Desde a criação da cidade, na década de 1930, praças, avenidas e espaços públicos foram pensados em diálogo com a vegetação. Ao longo das décadas, porém, a expansão urbana modificou a paisagem e tornou cada exemplar adulto ainda mais significativo para o ambiente construído.
A arborização urbana exerce funções ambientais importantes. As árvores ajudam a reduzir a incidência direta do sol, amenizam o calor, contribuem para o conforto térmico e participam da regulação do microclima. Também favorecem a infiltração da água da chuva, a qualidade do ar e a presença de biodiversidade nos espaços urbanos. O Ministério do Meio Ambiente destaca ainda a relação entre áreas verdes, bem-estar, convivência social e redução dos efeitos das ondas de calor.

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
Na Praça da Cirrose, esses benefícios podem ser percebidos na experiência cotidiana. Marcos Mateus trabalha em frente às gameleiras há mais de 20 anos e acompanhou boa parte dessa história. Para ele, a convivência com as árvores representa uma presença positiva no dia a dia. “A sombra, o ar puro, o frescor da natureza, a oxigenação é uma coisa muito boa”, afirma.
A relação construída ao longo dos anos também transformou as gameleiras em referências daquele trecho do Setor Oeste. Árvores de grande porte ajudam a criar identidade para praças e ruas, tornando determinados espaços imediatamente reconhecíveis. O próprio conceito de arborização urbana contempla essa dimensão histórica, cultural e paisagística das árvores, que passam a integrar a memória coletiva das cidades.
Preservar árvores adultas também significa considerar o tempo necessário para que uma nova arborização alcance porte semelhante. Uma muda plantada hoje precisará de muitos anos para desenvolver uma copa capaz de oferecer sombra e os demais benefícios ambientais de um exemplar maduro. Por isso, o manejo adequado e a avaliação técnica individualizada são fundamentais para a permanência de árvores antigas em áreas urbanas.

Marcos Mateus trabalha em frente às gameleiras há 20 anos (Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
No caso das gameleiras da Praça Mestre Maria Henriqueta Péclat, a história recente trouxe justamente essa discussão. Avaliações apontaram riscos relacionados à queda de galhos e a possíveis danos materiais e físicos, além de análise das condições dos exemplares.
Marcos conta que, ao longo do tempo, também presenciou episódios envolvendo quedas de galhos e danos materiais. Segundo ele, telhados do estabelecimento precisaram ser substituídos algumas vezes. É justamente nessa convivência entre os benefícios de uma árvore adulta e os cuidados necessários para mantê-la em ambiente urbano que está o desafio atual. “Então, a gente está lutando para trazer uma solução”, afirma.
Em agosto de 2026, o Ministério Público de Goiás recomendou a suspensão imediata do corte das gameleiras e a realização de nova avaliação, diante de divergências encontradas em documentos técnicos anteriores. A recomendação também considera a análise de alternativas, como podas e tratamentos, antes de uma eventual supressão.
Em nota, a Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) informou que foi notificada da recomendação do Ministério Público sobre a recomendação de suspensão de corte das gameleiras e a realização de nova avaliação. A agência afirmou, ainda, que atenderá à recomendação e fornecerá todas as informações solicitadas
Enquanto o futuro das quatro árvores é discutido, elas continuam cumprindo um papel que construíram ao longo de quase 70 anos: sombrear a praça, marcar a paisagem e acompanhar a vida de Goiânia. Em uma cidade que cresce e se transforma, preservar a memória também pode significar reconhecer o valor das árvores que cresceram junto com ela.
