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Coluna Pedro Novaes (foto: reprodução)
Coluna Pedro Novaes (foto: reprodução)

Votemos, então

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13.10.2026 - 09:00:51

A vida me proporcionou exercer ofícios muito diferentes até aqui, ocupar portanto lugares e perspectivas distintas na sociedade. Por isso, me sinto numa responsabilidade múltipla diante do segundo turno da eleição presidencial.

Primeiro, antes do trabalho, por caminhos tortuosos, a vida me tornou radicalmente democrata. Isso é, em grande medida, herança do meu pai, Washington Novaes, cuja religião sempre foi o jornalismo. Antes e acima de ideologias, é preciso haver democracia para que todas as ideias possam se expressar, serem criticadas e testadas. Democracia significa necessariamente reservar espaço para o outro e para sua legítima divergência, conservando sempre saudável dose de dúvida sobre as próprias certezas.

Não é segredo para ninguém que os regimes democráticos sofrem fortes ameaças, não apenas no Brasil. Tornou-se lugar comum dizer que essas ameaças têm a ver com “promessas não cumpridas” da democracia. Creio que isso em parte tem seu sentido. Resulta da característica inata aos seres humanos que torna nossas expectativas incrementais — tomamos o que já é garantido como direito e buscamos direitos prometidos ou imaginados que ainda não chegaram. O futuro vale mais do que o passado em nossa matemática. Não adianta saber que o Sistema Único de Saúde é uma grande conquista e que poucos países têm sistemas tão abrangentes. O SUS já é fato dado. Queremos o SUS sem todos os seus problemas.

Além disso, a memória encurta e se torna mais difusa com cada nova geração e a distância crescente de determinados acontecimentos. Quem não viveu a ditadura não sabe o quão nociva foi. Quem nasceu na democracia toma-a como fato dado e não como conquista a ser defendida.

Cabe lembrar, entretanto, especialmente aos mais jovens, que foram a democracia e a Constituição de 1988 por ela legada que tornaram possível muito do que hoje tomamos como assegurado — o SUS, a educação pública universal, um sistema de previdência para todos, mesmo com os defeitos que têm. Foi a democracia que nos deu o Plano Real, estabilidade monetária e inflação em níveis civilizados que a ditadura nunca conseguiu proporcionar. Foi a democracia que tornou possível tirar o país do mapa da fome e reduzir drasticamente a pobreza com esse mesmo Plano Real seguido pelas políticas sociais de governos que se sucederam. E assim por diante.

Se a democracia nos deu tudo isso e um ambiente de ampla liberdade religiosa e de expressão capaz de acomodar o Brasil em toda a sua diversidade, por lógica, não será matando essa democracia por seus supostos defeitos que asseguraremos futuro melhor e ampliação de direitos. Ao contrário, corremos o risco de perder muito do que conquistamos. 

A corrupção não é defeito da democracia que um ditador resolverá. Ao contrário, é sintoma de democracia incompleta predada, sugada e debilitada por grupos econômicos e políticos. Precisamos fortalecê-la. Não há registro na história de ditaduras, à esquerda ou à direita, que tenham sido capazes de trazer prosperidade duradoura a países — no máximo, voos de galinha ao custo de muita opressão e violência. Quase sempre pobreza duradoura, estagnação e mais corrupção.

O que está em jogo nessas eleições é uma ameaça real a nossa democracia. Flávio Bolsonaro já falou com todas as letras que deseja mudar a Constituição — fora as ameaças de desmonte de elementos do Estado brasileiro que sustentam muitas de nossas conquistas —, a exemplo da ideia de privatização do Banco do Brasil, de que justamente depende uma parte enorme do próprio agronegócio que quase unanimemente apoia Flávio. É o Banco, com o subsídio do Governo Federal, que oferece juros sustentáveis a uma atividade cujos riscos afastam os bancos privados, exceto de uma minoria de produtores altamente tecnificados e profissionalizados.

Ainda que setores da esquerda tenham com frequência posturas antidemocráticas, Lula e o PT nunca colocaram em xeque a democracia brasileira. Portanto, não há escolha difícil para quem é democrata.

Segundo, como já dito, filho de jornalistas, tenho como parte essencial do meu ofício hoje trabalho de caráter jornalístico: não sei viver sem escrever, publicar o que escrevo e emitir minhas opiniões. 

O que vimos no governo de Jair Bolsonaro, com ataques constantes e tentativas de censura à imprensa, foi apenas um ensaio para o que está por vir numa eventual presidência de Flávio Bolsonaro. Basta olhar para os Estados Unidos e o que Trump tem feito com a imprensa. Mesmo com todos os defeitos que possa ter, por seus elos com o poder, a imprensa tem sido parte fundamental do que nossa democracia tem de bom, investigando e criticando governos e políticos de todas as cores políticas.

Lula e o PT nunca foram ameaça real à imprensa livre. Flávio Bolsonaro é.

Em terceiro lugar, sou cientista e tenho enorme orgulho de conviver com cientistas brilhantes em uma universidade federal que produz conhecimento de altíssimo nível com impactos reais sobre a qualidade de vida das pessoas. 

A ciência não existe no vácuo — o trabalho dos cientistas depende da política e tem efeitos políticos na medida em que afeta nossa vida em comum. Para que esses efeitos possam ser maximizados e para que continue sendo base do desenvolvimento de um país, a ciência depende de um sistema nacional de ciência e tecnologia, uma gigantesca rede de instituições públicas e privadas conectadas por uma estratégia comum e incentivos adequados — e depende de investimento público. 

Todas as grandes instituições de base da ciência são públicas ou financiadas pelo Estado: no Brasil, o INPE, a Embrapa, o Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Instituto de Pesquisas da Amazônia, a Fiocruz, todo o conjunto de universidades federais e estaduais, entre tantas outras. Nos Estados Unidos, a Nasa, os Institutos Nacionais de Saúde, a Fundação Nacional de Ciência, a Administração da Atmosfera e Oceanos, o Serviço Geológico, os laboratórios nacionais de Los Alamos e Oak Ridge, etc. — todos sob forte ataque.

O problema da ciência é que candidatos a ditadores não gostam de sua autoridade quando ela os contraria. Os ataques às universidades e o trágico desmonte que Donald Trump vem promovendo no sistema de ciência e tecnologia americano têm como raiz o fato de que, durante a pandemia, cientistas se contrapuseram à sua gestão temerária do Covid-19, como aqui a Jair Bolsonaro. Embora o negacionismo tenha raízes mais profundas que não cabe aqui discutirmos, ele se tornou veículo conveniente para autoritários enfrentarem a ciência que teima em contradizê-los. 

Lula investiu no sistema brasileiro de ciência e tecnologia em todos os seus governos e não é adepto de nenhum tipo de negacionismo. Flávio Bolsonaro vai desmontar esse sistema e, como seu pai e Trump, abraçar, se preciso, obscurantismos. Para quem valoriza a ciência, não há escolha difícil. Basta lembrar da desastrosa gestão da pandemia por Bolsonaro pai, dos mais de 600 mil mortos — um dos avós dos meus filhos entre eles — e de um presidente que fez troça de pessoas com falta de ar.

Em quarto lugar, sou cientista ambiental e sei que um Brasil melhor, mais próspero e mais igualitário depende de aproveitarmos nossas riquezas naturais como nosso maior trunfo — não como algo a ser queimado para produzir no curto prazo. Nosso diferencial, que pode nos colocar adiante de outros países, reside justamente em nossa riqueza de ecossistemas, na diversidade de espécies, na abundância de água, no clima tropical e num povo igualmente diverso que vem inventivamente se apropriando desses recursos de muitas maneiras inteligentes.

Mas, infelizmente, apesar de muitas conquistas boas nessa direção, uma parte significativa de nossa produção econômica ainda se enraíza no uso espúrio desses recursos naturais, gerando lucros para poucos e distribuindo ônus sobre muitos.

Não sou um radical da preservação a qualquer preço. Ao contrário, sempre acreditei no diálogo e na convergência. Trabalho hoje inclusive em um projeto focado na melhoria de pastagens, principal oportunidade de ganha-ganha para o meio ambiente, o clima e para o agronegócio no Brasil. Pequenos aumentos de produtividade na pecuária brasileira, possíveis com conhecimentos já disponíveis, podem permitir sua expansão, atendendo o crescimento da demanda por carne e aumentando  os lucros dos produtores sem desmatar mais nenhum hectare de vegetação nativa. Para isso, é preciso diálogo direto e estreita parceria com o agronegócio. Flávio não quer esse tipo de convergência, pois depende da polarização e dessa oposição falsa e envelhecida entre economia e meio ambiente para ampliar e manter seu poder. 

Os Bolsonaro nos legaram, em termos ambientais e humanos, os cenários de horror da Terra Indígena Yanomami invadida pelos garimpos e das mortes resultantes. Esse cenário resume, para mim, a visão dos Bolsonaro para o país como um todo: lógica de garimpo, da exploração da natureza e das pessoas até a exaustão, como se tudo fosse descartável. 

A escolha, portanto, a meu ver, é também essa: entre o Brasil encarado como uma grande Serra Pelada ou como país em construção com perspectiva de futuro e alguma humanidade.

Por fim, a vida também me permitiu ser artista, tentando me expressar por meio dos filmes. A despeito de minhas discordância com o mainstream artístico, pelas quais já fui inclusive criticado e ameaçado de cancelamento, a arte, em outro front, funciona como a ciência: tem autoridade para dizer o que os poderosos não querem ouvir, e obrigação de questionar consensos e unanimidades estúpidas que são o esteio de todo autoritarismo. 

E não existe igualmente país civilizado que prescinda de um sistema e de políticas públicas de cultura, porque cultura nem sempre é atividade econômica, embora também seja em alguns de seus aspectos. 

Não é preciso dizer nada sobre os Bolsonaro e sua visão da cultura. Eles o dizem o tempo todo. Não há escolha difícil. 

Há, por fim, uma pequena história, de que gosto muito, que ilumina outro aspecto relevante da escolha que temos diante de nós.

Em O Sentido da Vida, seu livro póstumo, o falecido psicanalista Contardo Calligaris relata uma história ao mesmo tempo singela e reveladora sobre seu pai e sobre a política. O velho médico nunca fora um sujeito ideológico, de opiniões políticas fortes. Sempre estivera muito mais próximo de um liberal democrata do que de um socialista ou de um comunista. Por isso, jovem e politizado, Contardo perguntou-lhe certa vez por que apoiara a resistência italiana durante a Segunda Guerra, a um alto risco pessoal, se não tinha grandes ideias políticas. Depois de refletir, o pai lhe respondeu que o fizera “porque os fascistas eram vulgares”.

Há na escolha do dia 25 de outubro também uma opção estética. Não entre a vulgaridade e o bom gosto, mas entre a vulgaridade e a possibilidade de um Brasil um pouco menos feio — menos violento, mais gentil e cuidadoso e menos desigual. 

Não é Lula quem trará isso, mas a possibilidade de uma democracia fortalecida, o que não existirá com Flávio Bolsonaro.

Votemos, pois.



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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

2 comentários

  1. Pedro, somos vizinhos ecovileiros
    eu sou apenas uma cidadã , arquiteta, aposentada, que acompanha o que acontece neste pais desde a UDN, o PSDB, Juscelino e toda a reviravolta que foi a mudança da capital pra Brasilia.
    gosto do que vc escreve ,sempre com uma abertura, um novo olhar questionador mas sempre presente.
    Hoje venho questionar um pequeno trecho dessa publicação…”Antes e acima de ideologias é preciso democracia para que todas as ideias possam se expressar, serem criticadas e testadas. Democracia significa necessariamente reservar espaço para o outro e sua legitima divergencia…saudável dose de dúvida sobre as proprias certezas.
    Vou tentar ser breve nas minhas ponderações sobre porque apoiar uma mudança ,
    Como praticar democracia em um unico partido, que revoga pra si estar fazendo tudo pelo social sem incluir o outro?
    Pq só a esquerda sabe o que é certo? só ela pode levar o país no rumo do desenvolvimento legitimo e sustentavel?
    Como ser democrata sem diálogo?
    Está impossivel ser socialmente justa e não ser de esquerda?
    como não gostar do agro qdo vemos tanta producao, tanta riqueza tirada da terra,qto trabalho, qto emprego?
    o correto na democracia não seria o dialogo, o questionamento porque não pode ser sustentável? menos lucro imediato e mais lucro fituro com um mundo melhor?
    temos tecnologia e estudos maravilhosos que não vão pras escolas, são deixados de lado pq não interessa a um ou outro.
    porque tantas leis se o que mais fazem é burlar a lei?
    aprendi que trabalho dignifica o homem mas a realidade mostra os pobres sem ambição e os ricos com ganância demais.
    É preciso corrigir os rumos
    democraticamente, sem terrorismo, sem ditadura de esquerda ou de direita

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