Carolina Pessoni
Goiânia – Antes de Goiânia existir como cidade, ela já existia como desenho. E, nesse desenho, havia um ponto destinado a concentrar o poder, organizar os caminhos e criar um lugar de encontro. Era a Praça Cívica, concebida pelo urbanista Attilio Corrêa Lima como o centro administrativo da nova capital.
A ideia, segundo o engenheiro e estudioso da história de Goiânia Wolney Unes, ia além de simplesmente reunir os prédios públicos. Attilio pensou o espaço “em uma espécie de arena, uma ágora grega, circundada pelos edifícios, onde os cidadãos podem viver a cidade”. A referência ajuda a entender a escala simbólica atribuída à praça desde o início: ela deveria ser, ao mesmo tempo, cenário do poder público e espaço de convivência.
O desenho das avenidas reforçava essa intenção. Goiás, Araguaia e Tocantins convergem para a praça, criando perspectivas que ainda hoje fazem dela um dos principais pontos de leitura do projeto original de Goiânia. A solução urbanística, observa Wolney, dialogava com uma tradição que remonta a grandes projetos europeus, como Versalhes, baseada na organização monumental das vias a partir de um ponto central. E havia também uma diferença deliberada em relação à antiga capital, Cidade de Goiás: Goiânia nascia sob outra lógica urbana, com a modernidade como parte de sua própria razão de existir.

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
A paisagem construída ao redor da praça completava essa composição. Os edifícios públicos formavam o cenário arquitetônico pensado para o centro da nova capital, e muitos deles incorporaram a linguagem art déco que marcaria a primeira fase de Goiânia. “Os edifícios como cenário são os principais elementos que representam as características da concepção original”, explica Wolney.
No ponto de encontro das três grandes avenidas, outro elemento ganhou papel fundamental na construção simbólica da cidade. O Monumento às Três Raças, criado pela artista plástica Neusa Moraes e inaugurado em 1967, tornou-se uma das imagens mais conhecidas de Goiânia. Para Wolney, sua localização não é casual: “É justamente o vértice do encontro das três avenidas”. A obra passou a representar, no coração da capital, uma ideia de formação da identidade goiana que ultrapassa a função administrativa originalmente atribuída à praça.
Outros elementos foram se incorporando ao conjunto ao longo do tempo. O Coreto e a Torre do Relógio passaram a conversar com a estética dos primeiros edifícios e hoje também fazem parte da memória visual do lugar. O relógio, instalado posteriormente ao projeto original, estabelece uma relação particularmente forte com a Avenida Goiás. Já o Centro Administrativo, observa Wolney, não fazia parte da concepção inicial da praça, uma lembrança de que a paisagem urbana também é resultado das necessidades e decisões de cada período.

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
E a Praça Cívica mudou. Teve pontos de ônibus, alterações de circulação e, durante muitos anos, chegou a ser utilizada como estacionamento. “A praça teve adaptações para as necessidades de cada época”, resume Wolney. As transformações revelam uma cidade que cresceu muito além da escala imaginada na década de 1930 e passou a exigir novas funções daquele espaço.
É justamente aí que surge uma das observações mais interessantes do estudioso. A concepção original, baseada na ideia de uma ágora, perdeu parte de sua percepção com a transformação da escala urbana. “Como mudou a escala dos edifícios, se perdeu um pouco isso”, afirma. A verticalização e o crescimento de Goiânia alteraram a relação entre o vazio da praça e os edifícios que originalmente o circundavam.
Ainda assim, a essência permaneceu. Para Wolney, a Praça Cívica poderia ser compreendida como “a Copacabana de Goiânia”: um lugar que concentra uma dimensão simbólica que ultrapassa sua função prática e se torna referência para a própria população. É também por isso que, para ele, a praça tem um papel tão importante na construção da identidade da capital.

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
Há ainda uma história que amplia essa influência para além de Goiânia. O desenho da Praça Cívica foi referência para o projeto urbano de Boa Vista, capital de Roraima, elaborado pelo arquiteto Darcy Aleixo Derenusson, que foi aluno de Attilio Corrêa Lima. A inspiração mostra como o projeto concebido para a nova capital de Goiás ultrapassou seus próprios limites e passou a fazer parte de uma tradição de planejamento urbano no Brasil.
Quase um século depois da criação de Goiânia, a Praça Cívica continua sendo um lugar de passagem, encontro, manifestações, cerimônias e memória. Oficialmente Praça Dr. Pedro Ludovico Teixeira, ela permanece cercada por edifícios que ajudam a contar a história da cidade e marcada por eixos que ainda conduzem o olhar para o seu centro.
A escala, os usos mudaram, novos edifícios chegaram e antigas funções desapareceram. Mas o desenho continua dizendo alguma coisa. As avenidas continuam encontrando a praça. Os edifícios continuam formando seu cenário. E, no meio deles, Goiânia continua reconhecendo um dos lugares em que começou a imaginar a si mesma.
