Carolina Pessoni
Goiânia – Há monumentos que ocupam uma praça. Outros parecem fazer parte dela desde sempre. No centro da Praça Cívica, em Goiânia, o Monumento às Três Raças tornou-se tão integrado à paisagem que é difícil imaginar o coração da capital sem as três figuras de bronze que, há quase seis décadas, sustentam um bloco de granito.
Oficialmente chamado de Monumento à Goiânia, o conjunto foi criado pela escultora goiana Neusa Rodrigues Moraes e inaugurado em 3 de novembro de 1967. A obra tem sete metros de altura e reúne três figuras humanas que erguem uma estrutura de granito de aproximadamente 300 quilos. A composição representa, segundo a concepção da artista e a documentação histórica, as matrizes indígena, negra e branca associadas à formação de Goiás e à construção da nova capital.
A escolha do lugar também carrega significado. A Praça Cívica, que tem o nome oficial de Praça Doutor Pedro Ludovico Teixeira, foi concebida por Attilio Corrêa Lima como núcleo central do projeto de Goiânia. Dela partem algumas das principais avenidas da cidade, entre elas Goiás, Araguaia e Tocantins. O espaço foi pensado para concentrar as funções administrativas e também para receber manifestações de caráter cívico e monumental.

(Foto: Divulgação)
Quando a cidade ainda estava sendo desenhada, Attilio já previa a instalação de um monumento naquele ponto. Em relatório encaminhado ao governo em 1935, o urbanista indicava para o cruzamento dos eixos da praça um futuro monumento comemorativo das bandeiras, das descobertas e das riquezas de Goiás, com destaque para a figura de Anhanguera. A história, porém, reservou outro personagem para ocupar o centro daquele espaço: a própria Goiânia.
Por muitos anos, o local foi ocupado por um dos três obeliscos que integravam o conjunto da Praça Cívica. O maior deles, situado na região central, acabou demolido para dar lugar ao novo monumento. Estudos sobre a praça mostram que essa substituição foi motivo de questionamentos à época, justamente porque o obelisco fazia parte da paisagem original da capital.
A ideia do Monumento à Goiânia partiu do Rotary Club, que pretendia homenagear a capital por ocasião das comemorações do jubileu de prata de seu Batismo Cultural. A proposta inicial era destacar o imigrante. Neusa Moraes, porém, ampliou a concepção. Para ela, também deveriam estar representados o indígena e o negro, incorporando à obra diferentes grupos associados à formação do povo goiano. A sugestão foi aceita e passou a orientar a composição definitiva.

(Foto: Divulgação)
A própria artista definiu a obra como uma homenagem ao trabalhador e às pessoas relacionadas à construção da capital. Na interpretação registrada pela pesquisa de Maria Madalena Roberto Cabral e Maria Elizia Borges, no artigo “Monumento à Goiânia: outro olhar sobre sua trajetória”, a figura branca representaria o imigrante que veio para Goiás estabelecer um novo lar; o indígena, os povos que já ocupavam essas terras; e o negro, cuja presença também integra a narrativa histórica e cultural brasileira.
Antes de chegar ao bronze, entretanto, o monumento passou por um longo processo de criação. Neusa trabalhou em desenhos, esboços e maquete, construiu armações de ferro, utilizou palha e gesso na modelagem e, posteriormente, levou o trabalho à fundição em bronze, em São Paulo. A pesquisa de Maria Madalena e Maria Elizia registra ainda que fotografias foram utilizadas para estudar posições, movimentos e musculatura das figuras.
Nesse ponto a história do monumento ganha rostos. Entre os modelos que serviram de referência para a escultora estava José Gonzaga Ribeiro, professor aposentado da Escola Técnica Federal de Goiás. Negro, ele posou para a artista e serviu de inspiração para uma das figuras que compõem a escultura. Gonzaga morreu em novembro de 2025, aos 87 anos, e sua história voltou a ser lembrada justamente pela relação com uma das obras mais conhecidas de Goiânia.

(Foto: Galeno Martins de Araújo)
A pesquisa de Neusa, contudo, não buscava reproduzir fielmente uma pessoa específica. Segundo relato da própria escultora recuperado no artigo das pesquisadoras, as fotografias serviram como referência para a marcação das posições e para o estudo da musculatura que ela desejava representar. Outros professores da Escola Técnica Federal e familiares da artista também participaram das sessões de fotografia que antecederam a modelagem.
A história da instalação também teve seus imprevistos. A data inicialmente prevista para a inauguração era 6 de julho de 1967, durante as comemorações do Batismo Cultural. Um atraso na entrega das peças pela fundição paulista fez com que apenas duas das três figuras — a branca e a indígena — chegassem inicialmente a Goiânia. Elas foram instaladas em julho, enquanto a terceira aguardava a conclusão da fundição.
A inauguração completa aconteceu meses depois, em 3 de novembro de 1967, já com as três figuras reunidas. A solenidade contou com autoridades estaduais e municipais, representantes do Rotary, convidados e a própria Neusa Moraes. O monumento passou então a ocupar definitivamente o centro da Praça Cívica, onde se transformaria em um dos símbolos mais conhecidos da capital.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Ao longo das décadas, a escultura também enfrentou marcas do tempo e atos de vandalismo. Em 1978, as figuras foram danificadas com uma mistura de cola e tinta. Em 1997, o conjunto foi retirado temporariamente da praça para restauração no ateliê da artista e retornou ao espaço em outubro daquele mesmo ano.
Desde 1991, o Monumento às Três Raças é protegido pelo município como patrimônio cultural, por meio da Lei nº 6.962. O registro patrimonial reconhece sua importância para a cidade e o localiza no coração da Praça Cívica.
Hoje, fotografado diariamente por moradores e visitantes, o monumento integra o imaginário visual de Goiânia. O bronze escurecido pelo tempo, a pedra erguida no alto e os três corpos em esforço compõem uma imagem que se tornou familiar a várias gerações.
No centro da praça planejada para representar a nova capital, três homens continuam erguendo uma pedra. E, desde 1967, essa imagem também ajuda Goiânia a contar a própria história.
