Carolina Pessoni
Goiânia – Há lugares que parecem existir à margem da cidade, escondidos entre fachadas, galerias e grandes avenidas. No Centro de Goiânia, alguns deles são os becos. Espaços estreitos, muitas vezes destinados originalmente a serviços e circulação, que ao longo das décadas ganharam diferentes usos e, em alguns casos, passaram a integrar a própria memória cultural da capital. Entre eles, o Beco da Codorna ocupa um lugar singular.
Localizado na Avenida Anhanguera, na altura do número 5.331, entre a Rua 9 e a Avenida Tocantins, o espaço também é conhecido como Viela Miguel Rassi. A passagem fica nos fundos do Centro Cultural Goiânia Ouro e integra uma quadra que também é delimitada pela Rua 3. O local foi inaugurado como espaço de arte urbana em 2014 e, no ano seguinte, ganhou popularidade como uma galeria a céu aberto dedicada ao grafite.
A história do beco, porém, começou antes das pinturas que hoje cobrem seus muros. Pesquisa acadêmica desenvolvida na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) registra que, na década de 1980, o espaço era ponto de encontro para o happy hour depois do expediente e também recebia frequentadores dos cinemas que funcionavam na região, entre eles o Cine Capri, o Cine Ástor e o Cine Ouro. Havia bares no interior da viela, e um deles, o Bar do Oliveira, tinha como especialidade a codorna ensopada. Segundo o relato registrado na pesquisa, foi daí que teria surgido o nome pelo qual o lugar ficou conhecido.

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
Com o passar dos anos, a dinâmica mudou. O beco chegou a ser utilizado principalmente como estacionamento durante o horário comercial. A transformação começou a ganhar forma em 2014, quando uma proposta ligada ao curso de Publicidade e Propaganda da PUC Goiás reuniu grafite, música e skate no projeto Cena Urbana. A iniciativa aproximou estudantes, artistas e moradores e encontrou no espaço uma possibilidade de requalificação por meio da arte urbana.
O projeto coletivo ganhou força com a participação de artistas goianos, moradores e integrantes da Associação dos Grafiteiros de Goiás (AGG). Os muros passaram a funcionar como grandes telas e o beco assumiu uma nova identidade. A própria Prefeitura de Goiânia descreve o espaço como uma verdadeira galeria a céu aberto, formada por inúmeros desenhos e intervenções que carregam diferentes mensagens e linguagens.
A arte também abriu espaço para outras manifestações. Ao longo dos anos, o Beco da Codorna recebeu exposições, apresentações musicais, feiras, atividades circenses, exibições de filmes e diferentes iniciativas ligadas à produção cultural. Em 2023, por exemplo, a programação do projeto Viva o Centro levou ao local feira de publicações independentes, oficina de brinquedos populares, espetáculo circense e shows. A Secretaria Municipal de Cultura chegou a formalizar a contratação de serviços artísticos para atividades do projeto no espaço.

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
Eduardo Aiog, que já presidiu a Associação dos Grafiteiros de Goiás, também acompanhou parte dessa trajetória. Ele relata que, durante o período em que a entidade esteve instalada no beco, o espaço recebeu exposições, murais e atividades circenses. A associação funcionava como ponto de apoio para artistas e, segundo Aiog, ações realizadas pelos grafiteiros contribuíram para revitalizar mais de 20 pontos de Goiânia.
A designer, fotógrafa e professora Camila Gomides fez seu ensaio de pré-wedding no Beco da Codorna em 2017. Ela conta que ela e marido, o fotógrafo Victor Mileo, escolheram o local por gostarem de arte urbana. “O beco tem a ver com nosso estilo. Optamos por lá por ser um local aberto, colorido e cheio de arte”, diz.
Para ela, essa ocupação do Centro é uma forma de chamar os goianienses para a origem da cidade. “Ao mesmo tempo, é possível modernizar o que ficou defasado pelo tempo e pela falta de cuidado”.
Camila diz ainda que as intervenções artísticas trazem mais colorido à localidade, o que pode atrair as pessoas para conhecerem mais sobre a região. “Os grafites e pinturas tiram um pouco do cinza da cidade, chamam a atenção e, ao mesmo tempo, homenageiam elementos. Isso tudo alegra o dia a dia, nos faz observar melhor o espaço que vivemos e moderniza a cidade”, pontua.

(Foto: Sabrina Schreiner/A Redação)
O jornalista Sérgio Areda mora no Centro há cinco anos e admira as artes estampadas pelos becos. “Muitos deles poderiam ser apenas locais cinzentos e sem graça, que passariam despercebidos por qualquer pessoa, mas a arte, em forma de grafismo, chama atenção e desperta a curiosidade. No meu caso, gosto das cores, do ‘movimento’ que os desenhos dão aos muros e a história, impressora nos grafites”, afirma.
Para ele, a ocupação do centro da cidade é uma forma de inclusão e que merecem incentivo, porque os artistas que usam os grafismos como forma de expressão encontram nos paredões telas onde podem colocar sua arte. “E não é só isso! Quando a gente aprende a analisar o grafite, a gente percebe que sempre há uma história por trás dos traços. Seja em forma de protesto ou simplesmente retratar uma situação cotidiana, esses desenhos aqui no centro sempre têm algo a dizer, cabe ao cidadão ter a percepção e entender a mensagem”, ressalta Sérgio.
Hoje, o Beco da Codorna continua integrado ao circuito cultural do Centro. A própria Agência Municipal de Turismo e Eventos o inclui no roteiro “Goiânia Alternativa”, classificando o espaço como galeria a céu aberto e destacando sua programação cultural. Outros becos também passaram a receber intervenções artísticas, como os dois becos da Rua do Lazer, que reúnem trabalhos de 145 artistas de Goiânia, Anápolis e Brasília.
