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Fragmentos de luz

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24.05.2026 - 10:24:33

Motivada por um certo “pensamento insubordinado”, permiti-me observar a cena artística goiana através de um estudo que emerge do academicismo nortista e desvela uma falácia na arte contemporânea que é acobertada por uma excessiva conceituação e/ou contextualização teórica prescindível.

“Uma obra de arte não precisa ser virtuosa nos moldes acadêmicos e tradicionais, mas precisa revelar densidade de investigação. Nem toda ideia se sustenta apenas por ser bem verbalizada”, como sugere, Eduardo Bruno Ferndandes Freitas, Doutor pela ICA/Universidade Federal do Pará.

A propagação de muitas das ideias que hoje implodem nas paredes de galerias, salões, feiras e espaços de arte parece reverberar mais no ar, no éter ou no vácuo do que realmente no materializado, no pictórico ou no objeto realizado.

Percebo um emaranhado de informações rebuscadas, turvas, sombrias, escatológicas e artificiais que se proliferam numa entorpecida e afetada comunidade disfarçada de genialidade. A confusão visual começa pela própria terminologia. Confunde-se: pornográfico com o erótico, manifestos de ideologias afins com argumentos científicos, terapias ocupacionais com produção de arte, natureza morta com art naif, releituras de obras-primas com apropriações indébitas.

O mais impressionante é que o padrão estético parece atravessar um ponto de mutação, um desvio para o soturno, um limbo suspenso entre o bizarro e o pândego. Perambulamos agora numa espécie de intervalo entre sonho/pesadelo versus real/verdadeiro.
Minha insubordinação vai mais além e encontra sentido nos versos do pernambucano Lenine:

“Que a gente vai, a gente vai
E fica a obra
Mas eu persigo o que falta
Não o que sobra
Eu quero tudo
Que dá e passa
Quero tudo que se despe
Se despede e despedaça
O que é bonito…”

Contudo, a subordinação do circuito artístico reside justamente no oposto, no perseguir o que há em excesso, no acompanhar o fluxo da manada, na obediência cega à tendência, no artista pseudocelebridade que domina o algoritmo, na verborragia amadora, na incapacidade inventiva e na precarização plástica da obra.

Se isso é bom ou ruim, feio ou bonito, ainda não distanciamos suficientemente da ilha* para uma percepção mais sóbria da ética atual.
No entanto, acredito que uma minoria que “persegue o que falta” já se permitiu entrar num barquinho e remar um pouco mais longe desta entorpecência coletiva, distanciando-se, despindo-se, despedindo-se e despedaçando o que é superficial e obscuro para tomar consciência e colecionar ideias e/ou ideais brilhantes, lúcidos e profundos.

Ideias e ideais que, em algum momento propício, se disseminaram em pequenos, perenes e persistentes fragmentos de luz.

*A frase exata do autor é: “É necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós”. A citação é do clássico “O Conto da Ilha Desconhecida” (1997), de José Saramago.

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por Tatiana Potrich

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