A metáfora da pirâmide de quatro faces é frequentemente utilizada na filosofia da linguagem, psicanálise ou na sociologia crítica para ilustrar a busca pela verdade através de quatro modos fundamentais de estruturar a experiência humana.
Nessa alegoria, a Filosofia não é uma das faces da pirâmide, mas sim a estrutura de sua sustentação, um fio invisível que a contorna de fora a fora.
Uma de suas faces é a Religião, que denomina, em seu repertório, como sendo as experiências humanas e sagradas: o corpo e o espírito.
A Psicanálise é outra face, mas que difere na denominação dessa dualidade adotando: o consciente e inconsciente.
A face seguinte é a Política, que assegura (ou deveria assegurar) a ética: seja a temporal, seja a atemporal.
E, finalmente a face da Arte, que coloca em prática a intuição e a ação, a emoção e a razão.
Nessa perspectiva geométrica, enxergamos um todo, porém, separado em faces distintas, que se complementam, isto é, uma face não pode se equilibrar sem a outra.
Desse modo, para ilustrar essas estruturas das experiências humanas, uma recente, porém antiga land art em construção, do artista americano Charles Ross, “Star Axis” (1971 em progresso), fará todo sentido.
Há mais de cinco décadas construindo um faraônico observatório estelar, uma pirâmide solar localizada no deserto do Novo México/EUA, que vem se concretizando num experimento cósmico de extrema precisão e ousadia arquitetônica, convida o espectador a observar o movimento da estrela fixa de nossa Via Lactea: a Polaris ou Estrela do Norte.
Em documentário disponível no Youtube, a companheira do artista Jill O’ Brien, faz seu relato pessoal sobre a trajetória da criação do projeto: “Eu creio que ele está profundamente conectado com outras consciências e intuições que lhe permitem ouvir seus sonhos. Para ele é realmente um ‘chamado’.”
Nos depoimentos de Charles Ross, há uma curiosa citação dele por uma tal Ansel law: “o artista criativo está constantemente percorrendo mundos externos e criando mundos internos”, que seria o “olho da mente”, ideia propagada pelo fotógrafo, Ansel Adams (1902-1984). Ross confessa: “Eu estou apenas manifestando as formas, tornando a forma invisível em visível. O que me parece ser o papel da arte, neste sentido”.
A consolidação dessa ambiciosa land art ressignifica a incansável busca do homem para obter respostas às mais misteriosas questões de nossa existência. A trajetória estelar comprova que pertencemos à um ciclo de tempo, que atravessa anos, décadas, séculos e milênios percorrendo um eixo, o ápice de uma pirâmide de quatro faces que ora oculta um lado, ora revela, ora segue, ora recua, ora permanece, ora alterna. Como é a própria dualidade humana: ora visível, ora invisível.
Experimentar o mistério da vida e seus dilemas é estar atendo ao ‘chamado’ e também ao que pode ser chamado de espírito, inconsciente, ética atemporal, intuição, ou Ser Interior, como é expresso na filosofia. Pois é somente no interior da pirâmide, que se consegue, enfim, enxergar suas quatro faces, ao mesmo tempo.
