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(Foto: Roberta Rodrigues)

Deus é a Natureza

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02.08.2026 - 08:40:38

O título pode até parecer uma provocação se, antes disso, Descartes, Spinoza, Hegel e Nietzsche já não tivessem adotado essa vertente filosófica há séculos atrás.

Admitir que somos apenas um grãozinho de areia num vasto universo em expansão, à deriva dos fenômenos naturais, é o começo de uma tomada de consciência sobre nossa própria espécie, gênero e classe. Embora alguns indivíduos acreditem que são espécies e gêneros diferenciados, ou superiores, estes continuarão sendo insignificantes grãos de areia como os outros. Uns até mais privilegiados, como os existentes nas paradisíacas praias da Bahia, Indonésia, Caribe, Mykonos ou Nova Zelândia, no entanto, ainda assim, grão de areia.

Ao transitar entre a filosofia, história, geografia e mitologia, percebi o quanto ainda faz muito sentido assistir a “A Odisseia” (2026) nos dias de hoje. Deixando de lado os mimimis, memes e críticas alheias, o filme de Christopher Nolan ganhou meu respeito e a minha honesta admiração.

O exaustivo disparo de discursos tendenciosos ao filme, implicando com a falta de protagonismo feminino, a inversão cronológica da trajetória de Odisseu, a ocultação de tantos outros episódios da epopéia, ou a escolha de atrizes negras para interpretar Helena e a deusa Athena, são picuinhas, polêmicas e fagulhas perigosas para que se deem holofotes sob a desesperada pré-campanha eleitoral, há tempos desgastada e polarizada, de um país que, novamente, fracassou na Copa.

Conduzido pela ‘natureza’ ou pelos ‘deuses’ e ‘deusas’, Odisseu se tornou a personificação do homem obstinado, ambíguo, astuto e multiversátil: um polytropo. Apesar das preces, clamações e toda sorte de sacrifícios conjurados, o que lhe resultou desta épica jornada foi o desdobramento de longas esperas, batalhas, vitórias e desilusões. A ‘natureza’ conspirou, proporcionalmente, às ações e reações do protagonista, em perfeita sintonia.
A passagem pela fatídica ilha das sereias é o ponto crucial desse conflito humano representado pelo sofrimento de Odisseu:

“O canto das sereias era tudo aquilo que você um dia quis ser e, depois, tudo aquilo que passou a desejar nunca ter desejado. Era como uma coceira deliciosa que está por baixo da pele, num lugar que não consegue alcançar. Então o que parecia prazeroso se torna insuportável. O canto dizia que aquilo que você mais deseja é justamente aquilo que não pode ter, e aquilo que mais deseja e não pode ter é o que um dia já teve e perdeu. Era uma canção feita de todas as promessas que não consegui cumprir. E dizia que, no fundo, eu não queria voltar para casa.”

A beleza dramática do filme é revelada nas cenas finais (contém spoiler), quando Odisseu confessa à Penélope o grande remorso por ter destruído Tróia e a vergonhosa dor de retomar ao lar quando foi ele o responsável por destruir os lares de outrem. Sobretudo, a ‘natureza’, por si só, lhe responde à sua sincera redenção.

A fúria ‘divina’, dantes apresentada pelas destemperadas tempestades, inconstantes correntes marítimas, redemoinhos e feras monstruosas, enfim se aquieta quando Odisseu se entrega aos braços da correnteza do mar.

Mais uma vez, conduzido pelos ventos, ele chega à Ítaca, se revela à sua rainha, é anunciado pelos estrondos dos trovões antes de derrotar seus adversários e, finalmente, assume seu lugar no trono, retornando ao mar para cumprir sua promessa às almas desencarnadas da guerra.

Há um célebre pensamento estóico do filósofo romano Sêneca sobre o poder da força da ‘natureza’ a respeito dos nossos mais profundos ideais de vida: “Não existe vento favorável para o marinheiro que não sabe em qual porto quer chegar.”

O vento é o movimento natural do elemento ar, originado pelas diferenças da pressão atmosférica e do aquecimento solar.

Água, terra, fogo, ar e éter são os elementos clássicos propostos para explicar a ‘Natureza’ e a complexidade de toda matéria em termos de substâncias mais simples: ‘Deus’.

Mas isso é continuação para o texto do próximo domingo.

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por Tatiana Potrich

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