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“Cupinzeiro", escultura em cerâmica por José Luiz Lopes, da Barro Pintado

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06.09.2026 - 09:00:23

Ultimamente, poucas futilidades me surpreenderam, no entanto, duas delas, ganharam minha atenção.

A primeira foi a recuada, da rainha da bateria da escola de samba Grande Rio, de seu posto, após o desastroso desfile na Sapucaí.
A segunda, foi o cancelamento pelo controverso John Galliano, à sua própria homenagem, no Met Gala deste ano.
Decisões, supostamente em benefício próprio, mas que, de certa forma, beneficiaram o público em geral. É como clama a oração: “Livrai-nos de todo mal e de todo sujeito, ruim da cabeça e doente do pé”.
Haja visto e, como seria bom, se todas as decisões beneficiassem o coletivo de uma maneira assim, tão naturalmente, eficaz. Afinal, o não fazer, o não produzir, o não agir também é uma ação. Manter a pausa, o repouso, o silêncio e o anonimato é considerado um ato virtuoso, pelo menos no estoicismo e em algumas filosofias orientais.
A infelicidade de fazer, ou produzir futilidades fica maior quando o ato é uma cópia ou sub-cópia barata. Já cantava a canção: “A arte ainda se mostra primeiro” (ORappa), pois ela precede a investigação pelo artista do encoberto, do que não foi dito, não foi feito e não foi percebido antes.
Renomados artistas foram percursores de obras que os consgraram e que consagraram momentos históricos.
Nossa região cerradense, composta por um bioma único, precioso e fundamental para o equilíbrio do ecossistema no mundo, teve sua fauna esteticamente explorada pelo artista goiano Siron Franco, que deu vida pictórica às ‘figuras com antas’, na década de 70 e, posteriormente as produziu em fibra de vidro, na escala real, em meados dos anos 80, assim como o emblemático lobo guará, cristalizado num bloco de acrílico, no Setor Sul, décadas seguintes.
A ironia é que, ao longo dessas décadas, múltiplas alternativas para investigação de recursos, matérias-primas e novas possibilidades de criação manifestaram-se, contudo há ainda uma insistência para permanecer num erro, numa insensatez, numa infeliz decisão em sub-copiar ideias vanguadistas, já superadas, para mascará-las em caridade.
Inúmeros artistas visualizaram, à frente de seu tempo, coerentes processos criativos contestando o rumo da produção sintética e artificial no circuito cultural. Frans Kracjberg, Artur Bispo do Rosário, Francisco Brennand, Amélia Toledo, Véi, Ernesto Neto, Sonia Gomes, M’barek Bouhchichi, Marlene Almeida, Cassio Vasconcelos, Maria Guilhermina, Hugo França, Eva Jospin, Salisa Rosa e Luana Vitra são algumas referências do empreendedorismo artístico rumo à consciência ecológica e do meio ambiente, principamente pela escolha de suas matérias-primas.
Se utilizar da fauna do Cerrado para adequá-la à um espetáculo circense, que beira o ridículo da ostentação, comprova o quanto o senso crítico estético da sociedade está afetado ou atrasado.
O fazer por fazer para aparecer, parece que acaba por perder o seu sentido primordial de criação e o verdadeiro propósito da causa, em questão.
Decidir em não produzir é também produzir. Produzir respeito à natureza, evitando o desperdício, a propagação da cafonice, do anti-estético, do anti-ético, do anti politicamente correto.
Afinal, diz o ditado: “a caridade deve ser anônima, caso contrário é vaidade”. Em verdade, é fogueira das vaidades mesmo. É acalourar holofotes em causa própria. É subir a temperatura dos termômetros para causar o degelo das geleiras. É consumir sem moderação e nutrir a futilidade como recurso, usando a filantropia para justificar o caos.
“A visão sem ação é um sonho
A ação sem visão é o caos” (Provébio japonês)

Como seria bom se mais decisões fossem pelo não fazer.

“Toda a infelicidade dos homens provém de uma só coisa: não saberem permanecer em repouso, num quarto.” (Blaise Pascal)
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por Tatiana Potrich

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