Logo

Sobre dramas e tempestades

21.11.2011 - 17:42:43
WhatsAppFacebookLinkedInX


Depois de assistir à entrevista concedida pelo ator Reynaldo Gianecchini ontem, à Patrícia Poeta, no Fantástico, fiquei morrendo de vergonha. Não dele, mas de mim mesma. Ver aquele homem sereno e sorrindo, apesar de todos os efeitos colaterais trazidos pelo tratamento do câncer e da perda recente do pai, foi um tapa na cara.

Até ontem, achei que eu tivesse tido uma semana difícil. Aliás, uma semana do cão. De segunda a sábado, me peguei praguejando dezenas de vezes, resmungando e me sentindo injustiçada por Deus. Orçamento apertado, rotina insana de trabalho e desencontros familiares e afetivos eram a causa do meu “sofrimento”.

Quando vi o ator que sempre considerei um dos mais lindos do Brasil totalmente careca e fragilizado, com a carreira interrompida e a ferida da morte do pai – ironicamente também acometido pelo câncer – ainda aberta e pulsante, afirmar que não se queixava da vida porque havia problemas piores que os dele, eu quis sumir.

Graças à sua serenidade e maturidade, Gianecchini conseguiu perceber que, de fato, há gente mais sofrida que ele. Gente que também tem doenças graves, mas não possui dinheiro para se tratar. Gente que descobre o câncer num estágio mais avançado e agressivo e dispõe de poucas chances de cura. Gente que não tem fé nem esperança.

Graças ao seu equilíbrio, o ator se deu conta de que tudo na vida tem dois lados, e que a mesma doença que o privou da beleza, do vigor físico e do trabalho que ele tanto adora, também mostrou como ele é amado e respeitado pelo público; como milhares de pessoas em todo o País torcem por sua recuperação.

A única vez que o ator chorou durante a entrevista não foi de tristeza, mas de alegria. Ele não segurou a emoção ao se lembrar da quantidade de gente que tem lhe coberto de mensagens positivas, de carinho e desejos de melhora. E sussurrou, com a voz embargada: “Um dia eu ainda vou conseguir retribuir tudo isso”.

Saí de perto da TV morta de constrangimento. Me senti tão pequena e tão medíocre… Comecei a pensar como somos egoístas e, principalmente, como saímos totalmente do eixo por tão pouco. Pensei no quanto coisas tão passageiras e banais conseguem nos fazer desgostar da vida e nós mesmos. 

Quando o dinheiro falta e as contas sobram, infelizmente o nome vai para o SPC. Não é a melhor coisa do mundo, mas nunca vi ninguém morrer por isso. Se levamos um fora e a relação acaba, ficamos mal alguns dias, mas reagimos, porque ninguém nasceu grudado com ninguém e relacionamentos não têm certificado de garantia. 

 Se a gente bate o carro ou leva uma fechada no trânsito, fica com raiva, mas segue em frente. Quando brigamos com o pai, a mãe, o irmão, o marido, o namorado ou os filhos nos desgastamos, mas escapamos vivinhos da silva, porque não há quem consiga conviver proximamente sem atrito. Faz parte.

Na verdade, enquanto estamos reclamando e xingando é porque a coisa não é séria. Quando fazemos tempestade num copo d’água, é sinal de que é bobagem. Pela simples razão de que as tempestades verdadeiras – e nesse caso incluo as perdas irreparáveis, os sofrimentos intensos – não cabem num copo d’água.

Quando a tempestade se abate sobre nós, ela é tão imperativa, tão absoluta, que não dá tempo para lamentos. Obriga a gente a tirar lá do fundo o instinto de sobrevivência e agir rápido. Nos leva a reavaliar a vida sob uma outra perspectiva e a ver, o que de fato e, em essência, realmente importa.

Não se trata de reprimir o sofrimento ou ficar alienado. Trata-se de dar a cada problema a sua real proporção, a sua devida (ou falta de) importância. Porque a gente faz drama demais por coisas de menos. Amplificamos nossa tempestade num tal nível, que ela acaba se transformando num tsunami.

Uma amiga muito querida me ensinou um truque legal para dimensionar os “dramas” diários. “Sempre que você se aborrecer, pergunte que diferença isso fará na sua vida daqui a dez anos. Se a resposta for nenhuma, então pare de ficar chateada, porque você está sofrendo por bobagem”. 

O câncer raro de Gianecchini fará enorme diferença na vida dele em dez anos. O tratamento de agora é crucial, inclusive, para determinar se ele estará aqui na próxima década para contar essa história de superação. Mas enquanto a cura não vem, ele se transforma, muda seus valores e afirma que está aprendendo a valorizar o presente.

Lembro de um trecho do livro Kafka à beira mar, do escritor Haruki Murakami, que diz: “(…) E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.”

Sofrer sim, mas pelo que é inevitável e irremediável. E deixar-se transformar pelo sofrimento, enxergando o que ele gerou de perdas, mas também de ganhos. Porque descobrir que as pessoas te amam mesmo doente, sem cabelo, sem força e sem glamour é um prêmio e tanto. Gianecchini, quando eu crescer quero ser igual a você.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Joias do Centro
24.04.2026
Vinillândia transforma o Martim Cererê em ponto de encontro da cultura do vinil

Carolina Pessoni Goiânia – Na contramão da lógica do streaming, um movimento silencioso — e cada vez mais barulhento — vem ocupando o Centro de Goiânia. A Vinillândia, feira dedicada aos discos de vinil, encontrou no Centro Cultural Martim Cererê um endereço fixo para reunir colecionadores, curiosos e novas gerações que redescobrem a música em […]

Joias do Centro
24.04.2026
Balé “Giselle” abre temporada 2026 da Cia Jovem Basileu França; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cia Jovem Basileu França abriu, nesta quinta-feira (23/4), a temporada 2026 com a apresentação de um dos balés mais emblemáticos do repertório romântico: “Giselle”. A montagem contou com a participação da Orquestra Filarmônica de Goiás e foi apresentada no Teatro Escola Basileu França. Considerada um dos maiores clássicos do balé […]

Noite e Dia
22.04.2026
Exposição de arte contemporânea apresenta novos artistas do segmento em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A galeria da FAV – Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás – em Goiânia, abriu, nesta terça-feira (21/4), a exposição “Mapas em brasa”. Com a curadoria de Lucas Dilacerda, a mostra apresenta quase 40 artistas que discutem temas como território e ficção, entre eles Dalton Paula, Lucélia Maciel […]

Meia Palavra
22.04.2026
Documentário “Meus Amigos Indesejáveis” revela a face sutil do autoritarismo na era digital

“Na Alemanha nazista, as pessoas também sentaram e esperaram que as coisas fossem melhorar”, diz casualmente uma das mulheres que protagonizam o documentário “Meus Amigos Indesejáveis: Parte 1 – O Último Ar em Moscou”, primeiro capítulo de uma trilogia da cineasta russo-americana Julia Loktev sobre a perseguição a jornalistas e o crescente autoritarismo na Rússia […]

Noite e Dia
20.04.2026
No Pelo 360 anima público em tarde de sertanejo em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O festival No Pelo 360 briu oficialmente a turnê nacional 2026 no último sábado (18/4), em Goiânia. O evento foi realizado no Estádio Serra Dourada, e repetiu o sucesso das edições anteriores, marcadas por grande público e ingressos esgotados. Idealizado por Hugo & Guilherme, o projeto se consolidou como uma das […]

CURADORIA AFETIVA
19.04.2026
Alguns andam entre estrelas

O balanço do primeiro trimestre do ano está como a conjunção em Áries, alinhado aos sete planetas em pleno elemento fogo que é, ao que tudo indica, a deixa para a ação, o fazer e acontecer. Direito ou esquerdo, escuro ou claro, seco ou molhado, todos os lados estão dando os seus pulos. Héteros, viados, […]

Noite e Dia
17.04.2026
Grupos sinfônicos da EFG Basileu França fazem concerto gratuito com obras clássicas; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Os grupos sinfônicos da Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França realizam nesta semana uma sequência de apresentações abertas ao público no Teatro Escola, no setor Leste Universitário, em Goiânia. Na terça-feira (14/4), foi a vez das crianças e jovens das Orquestras Mozart e Pedro Ludovico Teixeira encantar […]

Noite e Dia
15.04.2026
Oficina reúne arte, filosofia e prática criativa no Jardim Potrich; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich realizou, no último sábado (11/4), a exposição e oficina “Moldando Expressões”, uma proposta que misturou arte, filosofia e prática criativa em uma experiência sensorial. A programação reuniu exposição artística e vivência prática com máscaras em cerâmica. A exposição apresenta cerca de dez obras produzidas pelos artistas José Luiz […]