“Na Alemanha nazista, as pessoas também sentaram e esperaram que as coisas fossem melhorar”, diz casualmente uma das mulheres que protagonizam o documentário “Meus Amigos Indesejáveis: Parte 1 – O Último Ar em Moscou”, primeiro capítulo de uma trilogia da cineasta russo-americana Julia Loktev sobre a perseguição a jornalistas e o crescente autoritarismo na Rússia de Vladimir Putin.
No Brasil, o filme está disponível na plataforma de streaming Mubi como se fosse uma minissérie: dos episódios 1 ao 3 em uma parte, com cerca de três horas, e o 4º e o 5º em outra, com cerca de duas horas. O documentário é em estilo câmera na mão, todo filmado e editado pela própria Loktev, que foi para a Rússia em 2021 para registrar o fato de que jornalistas de oposição, além de estarem sendo presos, terem mídias bloqueadas e perderem fontes e patrocinadores, também estavam sendo declarados “agentes estrangeiros”, conforme as tensões cresciam com a Ucrânia.
O que era para ser apenas um documentário sobre esse cenário específico acabou virando um relógio do juízo final em tempo real, conforme a cineasta pôde acompanhar, em poucos meses, a situação tiquetaquear da perseguição para o exílio e das tensões na fronteira para a invasão e a guerra em larga escala. Pela lente de Loktev, tudo ganha uma camada de urgência e intimidade ao posicionar a audiência bem perto das personagens e de suas vidas, conforme as coisas vão piorando. Elas se divertem, fazem bolos, bebem, comentam sobre Harry Potter (todas são grandes fãs), ao mesmo tempo em que começam a se organizar para a possibilidade do exílio.
A parte mais marcante do documentário é como funciona a nova face do autoritarismo e de regimes totalitários no século XXI. Pelas ruas de Moscou, nos bares, nas lojas, tudo parece igualmente normal ao mesmo tempo em que pessoas fogem do país ou desaparecem das suas casas; na internet, as dancinhas continuam no TikTok lado a lado com denúncias de encarceramento em massa e envenenamentos que só podem ser acessadas via VPN. Na TV e no cinema os lançamentos mais recentes são transmitidos em meio à propaganda governamental massiva sobre como jornalistas são terroristas e os ucranianos são todos nazistas que precisam ser resgatados pela Rússia.
É surreal e absurdo de um jeito que George Orwell nem poderia imaginar e ao mesmo tempo é vida real banal: as pessoas ainda têm contas pra pagar e problemas para resolver enquanto seu próprio país bombardeia o vizinho e ameaça usar armas nucleares. O filme também mostra como as coisas não dão errado da noite pro dia: Putin foi eleito a primeira vez em 2000 e foi uma longa jornada de 26 anos até aqui.
Em meio ao crescente clima de desespero e impotência destilado pelo filme, as personagens repetem sempre o motivo de tanto esforço: que fique registrado. Se o papel do jornalismo foi totalmente destruído e esvaziado de valor, as personagens ao menos conseguem uma prova documental do que aconteceu na esperança de que essa história não seja apagada, o que é, em grande parte, o papel do próprio filme.
Ao final desta primeira parte, fica registrado que mais de um milhão de russos já deixaram o país desde o início da guerra por causa da perseguição e que centenas estão na lista negra de “agentes estrangeiros”. Citando novamente Orwell, outro aspecto fascinante do filme é mostrar como as novas ditaduras não são, no papel e na apresentação, ditaduras.
Putin foi eleito cinco vezes para mandatos de seis anos, ele mesmo argumenta, apesar de todos na oposição estarem presos ou mortos e qualquer partido que se destaque vire um grupo terrorista e seja destruído. Tecnicamente, há uma república democrática, com Constituição e tudo. Tecnicamente não há gulags nem pogroms, mas as pessoas continuam sumindo sem deixar rastros. Tecnicamente não há polícia secreta, mas o FSB tem autonomia e autoridade de causar invejar à antiga KGB. Supostamente não tem censura, mas qualquer programa que faça uma crítica mínima que seja ao governo é tirado do ar.
É uma ditadura na época da internet: as aparências são de um país comum e as coisas funcionam como sempre. Há até uma novilíngua, citando novamente Orwell, conforme palavras deixam de ter sentido, como “democracia”, e outras são inteiramente proibidas, como “guerra”: sujeito a multa e até cadeia.
Enfim, “Meus Amigos Indesejáveis” é um retrato triste e cru sobre a Rússia de Putin e que nos informa muito sobre o que pode estar acontecendo bem no nosso quintal conforme regimes autoritários disfarçados de democracia e patriotismo esmagam a sociedade civil e se empoleiram no poder. Dando uma olhada na situação do mundo, em particular no autoritarismo crescente de Israel e EUA, é impossível não pensar que a tirania se tornou mundana.
