“O homem não vive só de pão”
— Evangelho de Mateus 4: 4
“Nada foi tão insuportável para o homem e para a sociedade humana como a liberdade.”
— Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov
Ato 1
O Inquisidor que tenta o Mundo
No deserto da alma, onde a pedra é pão,
ouve-se o passo do Antigo Inquisidor.
Não vem com coroa, nem traz dragão,
mas o peso atilado da dúvida e da dor.
Disse ao Senhor que jejuava quarenta dias:
— Se és o Filho, faze destas ruínas festa.
Mas o Messias, entre agonias e ais:
— Nem só de pão viverá o homem — resta
a Palavra que o vento não doma jamais.
O Inquisidor, cáustico, ávido, retoma:
— Atira-Te do pináculo do templo,
pois aos anjos mandou que Te guardassem.
Assim o povo veria o teu exemplo
antes que as correntes da dúvida se quebrassem.
O Filho diz: — Não tentarás o Senhor teu Deus —
e desceu ao vale onde o Leão uiva.
O Inquisidor, porém, tece os seus véus:
— Tu recusaste o pão, o milagre e o poder.
Preferiste a liberdade que apavora e faz sofrer?
Deixaste o homem livre para não crer,
e eu lhe darei o milagre a cada hora.
Pois mais ama o escravo o pão que lhe dão
do que a verdade nua sobre o vão.
E Cristo cala. Não responde ao Vulto.
Pois no Getsêmani, sem espelho ou espada,
seu silêncio foi mais fundo que o insulto.
Sabia Jesus: muitos trocam o céu por ouro inculto.
O sagaz Enganador beija-lhe a face fria
e o manda embora. Mas a noite ainda é dia.
E o Evangelho decreta, na tenda do poente:
— Vai, Satanás! — Mas o tentador, no tempo, mente.
Cada pedra que o mundo dá ao crente
é o pão que a liberdade torna triste.
Ó homem, ó alma que indaga
entre o estandarte e o beijo que se apaga:
Qual dos dois reina sobre a multidão?
Aquele que jejua ou o que dá prisão?
O homem teme a luz que o chamaria?
E o Verbo segue em silêncio, e passa a mão
sobre a cinza de todas as utopias.
Ato 2
O Inquisidor Insistente
O Inquisidor prossegue, e o calor do deserto geme:
— Eis que o pó da estrada sobe como um grito incontido.
O Grande Ilusionista não dorme — nunca dorme, não.
Sua túnica arrasta séculos de cinza e razão.
Olho para Ti, Cristo, e meu peito é punhal em desforra.
Tu jejuaste quarenta dias. Quarenta séculos depois,
muitos ainda jejuam de Ti desde a aurora.
Porque vi o que viste: que o homem, quando acorda,
treme mais diante da liberdade que da fome e se dobra.
Tu disseste ao mundo, no alto do pináculo:
“Não tentarás o Senhor teu Deus.”
Ah, mas o homem tenta e tenta! Em cada espetáculo,
em cada praça, em cada trono, em cada ventre que anseia
por uma fé que não pese mais que os seus anéis que incendeia.
Dá-me o pão, Senhor! — não para mim,
para a multidão que me olha com olhos de cão apedrejado.
Transforma estes seixos em pães, já que o Evangelho é mais
pesado que todas as correntes que forjam os réus.
Sê Tu o milagre que o mundo carece, embora em si mesmo jaz.
E chama a Igreja. Chama à Guerra. Chama à Paz.
Ainda continua o Inquisidor, agora com ódio e fel:
— E o povo beijará minhas mãos cheias de cobre.
E dirá que sou bom, porque lhes tirei o espanto de escolher.
Ó Cristo, Tu vieste dar o beijo na face que paga.
Eu vim dar a algema colorida que afaga.
E eles me amam mais. Amam mais a algema que acorrenta
do que a chave que liberta.
Tu andaste sobre as águas? Eu ando sobre o medo.
E esse terror é mais fundo que o mar da Galileia.
Tu disseste: “Vende o que tens e segue-Me.”
Eu digo: “Tem o que não tens e adora-Me.”
E eles me adoram. Ah, como adoram!
Com a mesma boca que um dia Te beijou.
Judas que há em todos — trai por receio de ser livre — mas
esse mesmo Judas me constrói catedrais com seu suor.
O que Tu trouxeste, Rabi, foi pesado demais.
A liberdade não se come, não se toca, não se vê.
E o homem, que é ao mesmo tempo criança e fera,
prefere o jugo pintado de arco-íris — crê
mais no embuste que brilha do que na verdade austera.
Por isso Te prendo. Por isso Te olho nos olhos
e sinto uma lágrima de ferro escorrer por dentro.
Porque sei, Tu sabes, que és Tu o Inocente que se doou,
e eu o anjo caído que por orgulho Te deixou.
Deixar-Te, agora, é soltar o homem no abismo.
E o abismo tem um outro nome: livre-arbítrio.
Mas olha: se Tu quisesses, uma só palavra
e eu cairia como castelo de areia.
Por que não falas? Por que esse silêncio corrói a memória,
maior que todos os açoites que Te dei na história?
Ah, porque falar seria dar-lhes de novo a opção.
E Tu não tiras do servo o espinho que o faz livre.
Pois teu jejum além de tudo propõe ao homem:
o valor da alma é maior que seu quinhão.
Então vai. Vai embora, Rabi. Ninguém pode conter-Te!
E não voltes. Ou volta sempre, pois Te moves pelo Espírito.
Mas não tires da minha mão esta tecla falsa — vê:
é com ela que abro as celas onde os homens pensam que são livres.
Ato 3
Sob a estepe infinita
E Cristo, ainda em silêncio, toca-lhe a boca ressequida.
O toque queima mais que todos os autos da fé e da dúvida.
O velho diabo treme. Abre a porta. Sussurra:
— Não me salves ainda, não me prendas nem me firas.
Deixa-me ter por um pouco esta glória:
a de saber que sou indigno e mesmo assim Te quis,
à minha maneira, com o engodo do meu próprio plano.
Mentira é o meu nome: te quis, nunca te amei — foi engano.
E, assim, a noite desaba sobre os dois
como um manto que não cobre nenhuma ferida,
mas aquece o frio de sermos o que somos:
deuses que desistiram de ser deuses — e agora a vida
é este restolho humano que arde sem o perdão, a remissão.
Homens que tentam, com as mãos sujas,
levantar o manto que a própria liberdade
em seus corações por amor Jesus teceu,
e a ambição lhes turva as vistas — pelo seu luto:
o jugo frio da falsa alforria por trás do Vulto.
E lá fora, bem longe, na estepe infinita,
O Leão uiva junto Ao Cordeiro bendito.
E o seu uivo não é o mais belo. É antes uma oração.
Mui forte, mui humana — apenas uma canção.
E a canção é esta, que o vento leva e traz:
Só ao Senhor teu Deus adorarás,
Só a Ele servirás.
Edemundo Dias é pastor Evangélico e autor de ‘O Verbo Canta’, poemas cristãos