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Questão de delicadeza

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18.10.2011 - 08:49:17



Experimente segurar um punhado de água com a mão bem fechada. Você verá que é impossível, pois, quanto mais aperta, mais ela escorre entre os dedos. Só se pode fazer isso fechando a palma da mão bem devagar, com muita delicadeza. Vale para a água e também para o amor.

Tem gente que, quando descobre que está amando, quer aprisionar o outro, para garantir que ele não fugirá. Quer moldá-lo à força, para que ele caiba dentro das suas expectativas. Passa por cima feito um trator de esteira, sem o menor cuidado, Afinal, é “tudo em nome do amor”.

O amor é justificativa para um sentimento louco de possessividade, que maltrata e, às vezes, até exclui a família e os amigos do par — mesmo sabendo que eles chegaram antes, e, portanto, têm a prerrogativa de fazer parte da vida do outro. Ninguém entra e ninguém sai sem permissão do dono da situação. 

Coisa parecida acontece com os sonhos alheios. Há quem se apaixone e queira construir um futuro junto da figura física da pessoa amada. Sim, apenas da figura, pois os desejos do outro viram tema secundário. Se ele ousa lutar pelo que acredita, é ridicularizado. As aspirações do par podem esperar, são bobagens menosprezadas.

As limitações do outro também sofrem com a falta de tato. Se o tempo que ele leva para processar uma perda ou situação é maior que o imaginado; se ele vacila, quando o que esperava era coragem e decisão; se teme algo que para o parceiro é banal, é obrigado a engolir o medo a seco e seguir em frente. Os cacos a gente junta depois.

Uma sucessão de pressões, cobranças e intolerância. Uma mão pesada, que oprime e exige perfeição a todo o tempo. A mesma mão que faz a água escorrer por entre dedos também esmaga e espanta o amor. Porque mantê-lo é, sobretudo, uma questão de delicadeza.      
Quando falo de delicadeza, refiro-me a algo mais que modos brandos e educados. Falo da capacidade de entender que, por mais eu ame o outro, não posso deixar de respeitar seu espaço nem ignorar seus sentimentos. E da capacidade de fazer isso com sem mágoa, de coração aberto.

É verdade que o amor muito suporta, tem grande capacidade de superação. Entretanto, tudo o que é dito e feito em relação a quem se ama é elevado à décima potência e atua de forma muito mais intensa do que seria em relação a um estranho. Por isso, toda delicadeza é necessária. Sempre.

Afetos, sonhos, fragilidades. Tudo tão abstrato, tão subjetivo… Mas é justamente dessas subjetividades que somos feitos. Se vistas de maneira dura e seca, elas perdem a importância. Se observadas de forma delicada, nos dão outras perspectivas sobre a vida, sobre nós mesmos e sobre as relações.

Numa época em que o bom é ter atitude, objetividade e resultados imediatos, o amor pode perder muito. É que ele não obedece às regras dos humanos rudes e afoitos. Ele precisa de tempo, espaço, calma e cuidado para florescer. Como dizia o grande Chico, “o amor não tem pressa, ele pode esperar”.

Talvez seja por isso que tanta gente esteja deixando que ele escorra pelas mãos. A cada gesto de possessividade, intolerância, indiferença e humilhação, mais fluido e intangível ele se torna. Enquanto o coração morre de sede, as mãos vazias e molhadas lembram que, um dia, algo importante passou por ali.

Pouca gente nasce com o dom da delicadeza. Na maioria das vezes, ela precisa ser aprendida, treinada com afinco, praticada incessantemente. Mas a causa é nobre. A pessoa que a gente ama vale o sacrifício. O relacionamento pleno e respeitoso que a gente quer merece isso.

“Aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes para despertar a suavidade alheia, e, mesmo assim, insisto.” A frase de Caio Fernando Abreu deveria ecoar sobre nossas cabeças todos os dias. Todas as horas. Para que não cheguemos ao fim da jornada com as mãos vazias e o coração amargurado.

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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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