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Prazer em conhecê-lo

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14.11.2011 - 10:43:55
A revista Marie Claire desse mês traz uma entrevista interessante com a psicanalista Regina Navarro Lins. Em certa altura, a repórter pergunta se ela já fingiu orgasmo. Regina responde que sim – quando tinha 20 e poucos anos, era mais ansiosa e insegura. E diz que não aconselha esse tipo de comportamento.
“Sempre digo para minhas pacientes não fingirem, senão elas vão viciar o homem em um modelo errado, acostumá-lo a achar que orgasmo é algo fácil e corriqueiro. E não é! É uma maravilha que custa para ser alcançada. Isso está diretamente ligado à autoestima”, observa a psicanalista.
Segundo Regina, “a mulher que gosta de si não tem problemas em fazer o homem trabalhar mais e melhor para fazê-la gozar. Agora, a que sofre de baixa autoestima se sente constrangida e finge para acabar logo com isso”.
Que atire a primeira pedra a mulher que nunca fingiu orgasmo. Subir pelas paredes de tesão todos os dias, religiosamente, mesmo com enxaqueca, cólica pré-menstrual, filho doente, bebê querendo mamar de três em três horas, chefe azucrinando a paciência e contas que não batem por falta de dinheiro é dose para leão.
Nessas horas, seja para não desapontar o parceiro e, como bem disse a psicanalista, “acabar logo com isso”, a mulher geme loucamente e diz que foi ótimo. O problema é que há quem finja sempre. Mesmo quanto está tudo tranquilo, quando existe calma e – aparentemente — tesão. E é aí que mora o perigo.
Conversando com amigas casadas há anos ou que têm namoros longos, descobri que muitas nunca sentiram prazer verdadeiro com os companheiros e — o que é pior — já desistiram de fazê-lo. Para elas, o orgasmo é algo inacessível, uma ilusão que a sociedade atual inventou.
Uma dessas amigas casou com o namorado com quem perdeu a virgindade. Está com ele há mais de 15 anos e tem três filhos. “Nunca tive orgasmo. Também não consigo dizer para ele que não é bom. Como nunca reclamei antes, meu marido vai achar que sou esquisita ou que estou de rolo, e pedir a separação”.
A outra namora há quatro anos e também não sente nada durante a transa. Finge orgasmo para agradar o parceiro, que é adepto de sexo rápido e violento. “Ele me acha moderna e sexy por aceitar e nunca reclamar. Se eu disser que não gosto assim, nosso relacionamento vai esfriar e vou me sentir muito mal”, justifica.
As conversas foram encerradas com olhos vermelhos e um nó na garganta. Uma sensação imensa de angústia e impotência. A triste constatação de que, embora tenhamos caminhado tanto, lutando tanto, queimado sutiãs, ainda somos absolutamente dependentes do olhar e da aprovação masculinos.
Carentes de autoestima, muitas mulheres acham um verdadeiro abuso ousar ter prazer. Conformam-se com um sexo insosso, quando não incômodo. Vão se privando de uma das melhores coisas da vida, em nome de dois sentimentos dos quais não se libertaram: o medo do abandono e a culpa.
Vivemos um teatro massacrante durante o dia. Precisamos fingir que somos uma fortaleza e acolher parceiro e filhos. Fingimos que não estamos exaustas e trabalhamos feito loucas, com competência e dedicação máximas. Se não pudermos ser nós mesmas pelo menos na cama, a vida se torna insuportável. 
Como pontuou a psicanalista, o orgasmo feminino não é fácil nem óbvio. É mais complexo, tanto do ponto de vista fisiológico, quanto do aspecto emocional. Mas está longe de ser inalcançável. O triste é perceber que muitas mulheres já entregaram os pontos e desistiram de si mesmas, abrindo mão do próprio prazer. 
Se está complicado e você não sente nada na cama, não se acomode. Não se acovarde. Peça ajuda – terapeutas e sexólogos competentes é o que não falta – e, principalmente, não se culpe. Essa é uma busca muito pessoal e, que, às vezes, pode levar tempo. 
O pior abandono é que pode acontecer é o de si mesma, dos próprios desejos e sonhos. O olhar do parceiro é importante, mas não pode determinar sozinho a sua vida. O sexo acontece a dois, o que significa que a sua vontade e a sua maneira de encarar as coisas também são fundamentais.
Tão independentes, tão fortes e tão aprisionadas… Como diria um trecho da música do Tears for fears: “Trades her soul as skin and bone/ Sells the only thing she owns/ Woman in chains…” (Negocia sua alma como pele e osso/ Vende a única coisa que ela tem/ Mulher acorrentada…).
Liberte-se dessa prisão. Converse com o parceiro, lute por você. Não fuja do orgasmo como se ele fosse um vilão. Permita-se descobrir o que lhe agrada e vá em busca disso. O orgasmo é um aliado. É o protagonista de alguns dos melhores momentos da sua vida. Acredite: você ainda terá muito prazer em conhecê-lo.
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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