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Pelo fim das luzes de Natal

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07.11.2011 - 11:33:19

O ano voou como nunca e já estamos em período natalino. Supermercados, lojas e ruas ganham ares do hemisfério setentrional, com muita neve fake, renas de nariz vermelho e o bom velhinho batuta todo agasalhado, suando feito um pernil no forno enquanto panfleta na Avenida Anhanguera. Todo mundo feliz, pensando no que vai gastar o décimo terceiro. Ou se vai mesmo gastar, pois reservar para comprar os materiais escolares e pagar o IPTU é uma alternativa mais que válida. Até aí, tudo bem! Não entro muito nesse astral, mas também não me torra a paciência. Cada um, cada um. O que mata de verdade é a iluminação que orna tudo quanto é canto até o mês de janeiro. E o ápice da minha revolta, só para me torturar mais ainda, fica perto da minha casa é minha rota frequente: a Praça Tamandaré.

Todo momento em que penso no sacrifício que vivemos imposto pelo horário de verão (que inegavelmente tem um fim nobre, mas também é um transtorno inconteste), a imagem da Assis Chateaubriand iluminada de fora a fora vem à mente tal qual os quatro cavaleiros do apocalipse, em um cenário de horror e fúria. Meu pâncreas começa a doer na hora. É batata. Para que diabos entramos nessa de economia de energia elétrica se é para meter luzinha de Natal piscando até dentro de bueiro? Sinceramente, não me parece nada racional.

E não me venha com a balela de que elas gastam pouco e são econômicas. Se existe algo que aprendi com comerciantes que têm padaria é que de grão em grão, a galinha enche o papo. Então é de cada luzinha natalina que o nosso sono matinal se esvai. E, por conseguinte, o mau humor na sociedade brasileira atinge níveis insalubres nesse período.

Brigar contra as luzes de Natal só não é tarefa mais inglória do que questionar a Lei da Gravidade. Parece que as pessoas ficam inebriadas com as luzes em seus olhos e a parte racional dos cérebros fica encoberta. Esse efeito narcotizante das luzes tem a ver com nossa memória afetiva, quando esperávamos o Natal para ganhar presentes, rever os parentes distantes, comer aquele tanto de coisa gostosa e diferente. A instalação das luzes pela cidade é o prenúncio de que aquele dia fantástico para uma criança estava chegando. Tudo certo um garotinho ser iludido por isso, nada certo um adulto se guiar pela mesma lógica.

Outra falácia repetida à exaustão é de que as luzes de Natal colaborariam para o aumento de vendas do comércio. Bobagem. O que faz aumentar a movimentação é justamente uma maior circulação de grana devido ao décimo terceiro que enche o bolso da galera em dezembro. Façamos o teste: entupimos a cidade de luzes de Natal como nunca fizemos e cortamos do décimo terceiro. Aí, vejamos se as vendas subiram ou caíram no período. Nem precisa fazer o teste para saber o resultado, né…

Uma decoração de Natal inteligente, criativa, sustentável e que não gaste energia elétrica a rodo é o mínimo que se espera de pessoas racionais. Mas o Natal mexe com o sensível, o afetivo, e aí não é seara para reflexões e debates calcados na razão. Por isso, vamos ali enrolar aquela árvore gigante de luzinhas para entrar mais no clima natalino…

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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