Logo

Os aeroportos e o sentido da vida

25.07.2023 - 11:17:52
WhatsAppFacebookLinkedInX
 
O pensador inglês G. K. Chesterton define a felicidade, em seu Ortodoxia, por meio da parábola de um navegador solitário que parte da Grã-Bretanha, perde o rumo no mar e retorna à própria terra natal acreditando todavia encontrar-se em uma ilha selvagem. Desse desnorteamento, resulta para esse marujo uma condição única e paradoxal: ele está, ao mesmo tempo, em casa e num lugar estrangeiro.
 
Esse inusitado aventureiro da própria terra ilustra o estranho equilíbrio que, para Chesterton, devemos buscar na vida – entre o conforto e o pertencimento a um lar e a aspereza e a liberdade oferecidas por aquilo que nos é estranho.
 
É óbvio que Chesterton fala da busca de um lugar interior, de um estado de alma e postura no mundo que nos façam sentir simultaneamente em casa e vivendo uma grande aventura, como verdadeiros Indiana Jones de nossos cotidianos.
 
Não obstante, existe também um lugar físico abominado pela maioria das pessoas, mas que eu adoro justamente por me permitir viver essa condição quântica de ser duas coisas opostas simultaneamente: o aeroporto.
 
É quase um clichê do ser humano moderno certo desprezo enfadado pelos aeroportos. Enfrentamos as viagens aéreas, e sobretudo esses lugares que nos permitem embarcar e desembarcar dos aviões, com tédio e resignação. Reviramos os olhos, queixando-nos das intermináveis esperas, das filas de embarque, da comida insípida, dos abusos das companhias aéreas, do valor extorsivo para despachar bagagens e da lentidão dos procedimentos de segurança – sem contar a falta de modos das massas ignaras que invadiram os saguões anódinos com a popularização dos preços.
 
Os aeroportos parecem ser, portanto, um alto preço a pagar para que possamos viajar, um pedágio oneroso para o exercício dessa alteridade essencial ao homem moderno e bem pensante que só o estrangeiro propicia, um purgatório incontornável para desfrutar das delícias do ócio ofertado pelas paisagens exóticas.
 
Não para mim, entretanto. Amo, desde pequeno, os aeroportos, pequenos ou grandes, e não me importo com as horas de espera, a comida ruim e os bárbaros que ouvem suas mensagens de zap no alto-falante do celular e desvirtuaram o conceito da sala VIP.
 
Há o fascínio infantil que o frenesi e a complexidade das operações me provocam, com a sabedoria e responsabilidade necessárias para que milhares de malas cheguem a seus destinos, para que os aviões recebam combustível e comida, saiam na hora e não colidam uns com os outros.
 
Adulto, entretanto, demorei a entender e superar a vergonha desse amor que, durante muito tempo, pareceu-me um gosto perverso e masoquista. Por que eu me divertia tanto com uma experiência que, para todo o mundo, de forma tão clara, se igualava ao inferno?
 
Pois descobri que os aeroportos me traziam precisamente essa sensação, tão bem iluminada pelo pensador inglês, de estar ao mesmo tempo em casa e em terra desconhecida. Eles são, na verdade, esse terceiro lugar, onde já não estou em casa, mas tampouco cheguei à selva, ou onde já sou estrangeiro, mas ainda sem deixar o lar.
 
Estrangeiro em casa, posso já experimentar o gosto da aventura sem ainda me expor a seus riscos. Como o Gato de Schrodinger, vivo e morto ao mesmo tempo, sinto-me seguro e exposto, e vivo a iminência de grandes perigos como se estivesse no sofá de minha casa. No aeroporto, já estou na estrada sem me sujeitar às intempéries.
 
Pode-se argumentar, talvez com razão, que isso é uma grande ilusão, pois ninguém mora em aeroportos – apenas passamos por eles; apontar também que não se fazem omeletes sem quebrar os ovos e que verdadeiras experiências de alteridade e amadurecimento só acontecem quando realmente nos expomos aos riscos do real.
 
É verdade. Nada substitui o embate com o mundo. Por outro lado, entretanto, a liberdade da estrada só resulta em sentido, como diz Chesterton, se contrabalançada pelas raízes sólidas de algum tipo de pertencimento. O mundo, por si só, é basicamente caos.
 
Enfrentar terras estranhas e se expor a riscos é, em realidade, mais fácil do que manter a sensação de estranheza e aventura naquilo que constitui nossa vida real: o cotidiano.
 
Para isso, é preciso encontrar a chave para atender ao convite de Júlio Cortázar: “quando abrir a porta e assomar à escada, saberei que lá embaixo começa a rua; não a norma já aceita, não as casas já conhecidas, não o hotel em frente; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se em cima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar todo com os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta do tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina.”
 
Enquanto não descubro esse segredo, sigo vivendo minhas pequenas aventuras em aeroportos, um pouco como Ryan Bingham, o personagem de George Clooney no genial Amor sem Escalas. No filme, de forma irônica, o mundo convida o herói a se apaixonar, deixar sua vida desenraizada de viagens constantes e encarar os riscos da realidade, apenas para decepcioná-lo e fazê-lo voltar ao cotidiano de saguões de aeroportos, hotéis sem personalidade e voos sem fim.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Joias do Centro
24.04.2026
Vinillândia transforma o Martim Cererê em ponto de encontro da cultura do vinil

Carolina Pessoni Goiânia – Na contramão da lógica do streaming, um movimento silencioso — e cada vez mais barulhento — vem ocupando o Centro de Goiânia. A Vinillândia, feira dedicada aos discos de vinil, encontrou no Centro Cultural Martim Cererê um endereço fixo para reunir colecionadores, curiosos e novas gerações que redescobrem a música em […]

Joias do Centro
24.04.2026
Balé “Giselle” abre temporada 2026 da Cia Jovem Basileu França; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cia Jovem Basileu França abriu, nesta quinta-feira (23/4), a temporada 2026 com a apresentação de um dos balés mais emblemáticos do repertório romântico: “Giselle”. A montagem contou com a participação da Orquestra Filarmônica de Goiás e foi apresentada no Teatro Escola Basileu França. Considerada um dos maiores clássicos do balé […]

Noite e Dia
22.04.2026
Exposição de arte contemporânea apresenta novos artistas do segmento em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A galeria da FAV – Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás – em Goiânia, abriu, nesta terça-feira (21/4), a exposição “Mapas em brasa”. Com a curadoria de Lucas Dilacerda, a mostra apresenta quase 40 artistas que discutem temas como território e ficção, entre eles Dalton Paula, Lucélia Maciel […]

Meia Palavra
22.04.2026
Documentário “Meus Amigos Indesejáveis” revela a face sutil do autoritarismo na era digital

“Na Alemanha nazista, as pessoas também sentaram e esperaram que as coisas fossem melhorar”, diz casualmente uma das mulheres que protagonizam o documentário “Meus Amigos Indesejáveis: Parte 1 – O Último Ar em Moscou”, primeiro capítulo de uma trilogia da cineasta russo-americana Julia Loktev sobre a perseguição a jornalistas e o crescente autoritarismo na Rússia […]

Noite e Dia
20.04.2026
No Pelo 360 anima público em tarde de sertanejo em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O festival No Pelo 360 briu oficialmente a turnê nacional 2026 no último sábado (18/4), em Goiânia. O evento foi realizado no Estádio Serra Dourada, e repetiu o sucesso das edições anteriores, marcadas por grande público e ingressos esgotados. Idealizado por Hugo & Guilherme, o projeto se consolidou como uma das […]

CURADORIA AFETIVA
19.04.2026
Alguns andam entre estrelas

O balanço do primeiro trimestre do ano está como a conjunção em Áries, alinhado aos sete planetas em pleno elemento fogo que é, ao que tudo indica, a deixa para a ação, o fazer e acontecer. Direito ou esquerdo, escuro ou claro, seco ou molhado, todos os lados estão dando os seus pulos. Héteros, viados, […]

Noite e Dia
17.04.2026
Grupos sinfônicos da EFG Basileu França fazem concerto gratuito com obras clássicas; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Os grupos sinfônicos da Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França realizam nesta semana uma sequência de apresentações abertas ao público no Teatro Escola, no setor Leste Universitário, em Goiânia. Na terça-feira (14/4), foi a vez das crianças e jovens das Orquestras Mozart e Pedro Ludovico Teixeira encantar […]

Noite e Dia
15.04.2026
Oficina reúne arte, filosofia e prática criativa no Jardim Potrich; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich realizou, no último sábado (11/4), a exposição e oficina “Moldando Expressões”, uma proposta que misturou arte, filosofia e prática criativa em uma experiência sensorial. A programação reuniu exposição artística e vivência prática com máscaras em cerâmica. A exposição apresenta cerca de dez obras produzidas pelos artistas José Luiz […]