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Obrigada por me sacanear

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07.11.2011 - 11:32:46
Abro a caixa de e-mails e vejo um convite de casamento. É de uma amiga querida, que mora em Brasília e está muito feliz. Se brincar, estou mais que a noiva. Felicidade merecidíssima, para quem levou uma bela rasteira da vida e fez do limão uma limonada. Suíça e com muito, muito gelo.
Minha amiga é advogada e filha de família bastante humilde. Moça de valor, ralou para se formar, conseguir o primeiro emprego e se destacar na profissão. Há três anos, trabalhava o dia todo num escritório de advocacia, fazia pós à noite e namorava um rapaz. Ele tinha apenas o ensino médio, odiava estudar e vivia de bicos.
Com um ciúme doentio, o moço privava minha amiga da companhia da turma e até da família. Um belo dia, ela recebe um telefonema. Do outro lado, uma jovem diz que está grávida do namorado dela e pede para ela não procurá-lo nunca mais. Diz que os dois vão se casar e que ela agora é carta fora do baralho. 
Na hora, além do choque da traição, minha amiga pensou na conta conjunta que tinha com o namorado no banco. Correu para o caixa eletrônico e não deu outra: ele havia sacado os R$ 40 mil que ela, com o suor de muitos dias de trabalho, havia depositado para dar entrada num apartamento para os dois.
Sem namorado, sem dinheiro e com a autoestima no chão, minha amiga respirou fundo. Juntou os cacos, vendeu o carro e foi embora para Brasília. Decidiu que ia estudar para concurso até passar. Depois de dois anos, passou. Hoje é funcionária pública federal e ganha um salário de R$ 15 mil por mês.
Pouco tempo depois de assumir o cargo, ela se apaixonou pelo chefe. Homem fino, culto, inteligente e íntegro. Paixão recíproca, namoro iniciado, noivado desejado e casamento dos sonhos. Mais madura e, ao lado dele, hoje ela sabe o que é uma relação feita de respeito, cuidado e amor de verdade.
No final do e-mail, minha amiga escreve: “P.S – E de pensar que nada disso teria acontecido se meu ex não tivesse me sacaneado, hein?! Amiga, você pode até achar que eu sou doida, mas hoje é sou é muito grata a ele”. Sábias palavras. De louca ela não tem nada. 
Toda mulher já teve um traste que passou por sua vida e fez estragos. A única coisa que as difere é a maneira como lidam com isso. Se, ao chegar ao fundo do poço, a mulher tem complexo de vítima, encontra um ralo. Por outro lado, se percebe que as pessoas só fazem com a gente o que gente deixa, encontra uma mola.
O amor acolhe, aquece e estimula. Mas é a dor que a tira a gente da zona de conforto. É a humilhação, a tristeza de ser enganada e ter os sentimentos tão pisoteados que nos fazem ter autocrítica suficiente para olhar no espelho e dizer: “Muito prazer, meu lado negro. Nunca imaginei que eu fosse tão boba e precisasse crescer tanto”. 
No começo, você quer mudar por vingança e orgulho ferido. Quer que o traste te veja feliz e vitoriosa, para sentir na pele o que perdeu. Mas, com o passar do tempo, uma estranha alquimia acontece, e você passa a querer ficar bem para agradar uma pessoa muito mais importante: você mesma.
A dor do abandono e das mentiras te obriga a ter mais autoestima, a querer ficar bonita, ter foco na profissão, valorizar quem gosta de você de verdade. A dor de se ver tão pequena e insignificante diante de alguém que você amava tanto te obriga a tirar forças lá do fundo e buscar o seu (grande) valor.
Eu poderia usar a máxima do Nietzsche, que diz que tudo aquilo que não mata, fortalece. Mas prefiro algo menos óbvio. Uso, então, o tema de uma linda crônica do autor Rubem Alves, e que deu origem ao livro de mesmo título, chamada “Ostra feliz não dá pérola”.
Rubem Alves explica que as ostras só produzem pérolas porque são atormentadas por uma imensa dor, provocada por grãos de areia que se infiltram no seu interior. E, numa metáfora interessante, compara as ostras aos humanos, mostrando que podemos fazer coisas belas e raras com a nossa própria dor.
Longe de mim promover apologia ao sofrimento e querer que você coloque num altar a foto do traste da sua vida. Entretanto, acredito que, para quem quer entender de verdade as lições da vida, um pingo é letra. E, mesmo se tiver sido pintado por aquele seu ex muito sacana, não pode deixar de ser lido e compreendido.
Se colocar a dor para trabalhar a seu favor e decidir dar o pulo do gato (aquele, que você vinha adiando há meses ou anos), você verá que as pessoas só pisam na gente quando a gente se faz de tapete. E como você não nasceu para ficar no chão, vai se levantar pelas próprias pernas e aprender a ser apreciada, não pisada. 
Agora que você já deu a volta por cima e encontrou o grande amor da sua vida (essa carinha linda, que se reflete a cada instante que você olha no espelho), que descobriu que dignidade não tem preço nem idade, feche os olhos. Pense no traste da sua vida e repita baixinho, com um sorriso nos lábios: “Obrigada por me sacanear”.  
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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