Logo

O que resta do Grande Sertão?

12.09.2023 - 07:47:11
WhatsAppFacebookLinkedInX

Comemoramos esta semana, no 11 de setembro, o Dia do Cerrado. O que dizer sobre o bioma que não seja lamentar de forma impotente sua destruição e denunciar a insanidade do projeto econômico que já fez desaparecer metade de sua vegetação original?
 
Talvez valha olhar para a savana mais biodiversa do planeta, que abriga um terço das espécies existentes no país e 5% da diversidade da vida na Terra, por meio das palavras daquele que é considerado um dos maiores romances da língua portuguesa e que tem o Cerrado como palco: o Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
 
"Lhe mostrar os altos claros das Almas: rio despenha de lá, num afã, espuma próspero, gruge; cada cachoeira, só tombos. O cio da tigre preta na Serra do Tatu – já ouviu o senhor gargaragem de onça? A garoa rebrilhante da dos-Confins, madrugada quando o céu embranquece – neblim que chamam de xererém. Quem me ensinou a apreciar essas as belezas sem dono foi Diadorim… A da-Raizama, onde até os pássaros calculam o giro da lua – se diz – e cangussú monstra pisa em volta. Lua de com ela se cunhar dinheiro. Quando o senhor sonhar, sonhe com aquilo." 
 
Os números do desmatamento no Cerrado, monitorados desde 2001 pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – o INPE -, tiveram seu pico entre 2001 e 2004, quando derrubamos em média quase 28 mil km2 de vegetação nativa, ou um estado de Alagoas, por ano. A partir de 2005, esses números caem consistentemente até 2012, quando foram removidos quase 9 mil km2 de Cerrado. O desmatamento torna a crescer abruptamente em 2013, atingindo 13,4 mil km2, para então entrar em nova tendência de queda até 2018, quando começa novamente a subir, chegando a 10.688 km2 em 2022. 
 
 
Desmatamento anual no bioma Cerrado 
(Fonte: Prodes/INPE – Plataforma TerraBrasilis)
 
"Cheiro de campos com flores, forte, em abril: a ciganinha, roxa, e a nhiíca e a escova, amarelinhas… Isto – no Saririnhém. Cigarras dão bando. Debaixo de um tamarindo sombroso… Eh, frio! Lá gêia até em costas de boi, até nos telhados das casas. Ou no Meãomeão – depois dali tem uma terra quase azul. Que não que o céu: esse é céu-azul vivoso, igual um ovo de macuco. Ventos de não deixar se formar orvalho… Um punhado quente de vento, passante entre duas palmas, de palmeira… Lembro, deslembro. Ou – o senhor vai – no soposo: de chuva-chuva. Vê um córrego com má passagem, ou um rio em turvação. No Buriti-Mirim, Angical, Extrema-de-Santa-Maria… Senhor caça? Tem lá mais perdiz do que no Chapadão das Vertentes… Caçar anta no Cabeça-de-Negro ou no Buriti-Comprido – aquelas que comem um capim diferente e roem cascas de muitas outras árvores: a carne de gostosa, diversêia. Por esses longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem."
 
Os dados de 2023 do Deter, o sistema do INPE que gera alertas de desmatamento e serve para orientar as ações de fiscalização, são preocupantes. Enquanto nos cinco primeiros meses do ano, na Amazônia, observou-se uma queda importante no desmatamento, no Cerrado, em direção contrária, as áreas convertidas estão aumentando assustadoramente. Foram 6.359 km² de derrubadas entre agosto de 2022 e julho deste ano, o pior resultado desde que o sistema foi implantado em 2017.
 
“Assim pois foi, como conforme, que avançamos rompidas marchas, duramente no varo das chapadas, calcando o sapê brabão ou areias de cor em cimento formadas, e cruzando somente com gado transeunte ou com algum boi sozinho caminhador. E como cada vereda, quando beirávamos, por seu resfriado, acenava para a gente um fino sossego sem notícia – todo buritizal e florestal: ramagem e amar em água. E que, com nosso cansaço, em seguir, sem eu nem saber, o roteiro de Deus nas serras dos Gerais”.
 
Dos 20 municípios campeões do desmatamento no Cerrado, entre janeiro e maio deste ano, ainda segundo os dados do Deter, apenas um não faz parte do chamado "Matopiba", essa grande região no encontro das divisas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que é atualmente a principal fronteira econômica no bioma. 
 
Se, no início do século 21, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso lideravam o ranking da devastação, já em meados da década de 2000, a fronteira avançava ferozmente para o norte, com os estados do Tocantins e Maranhão assumindo a frente dos números, onde permanecem até hoje. A velocidade desse avanço da atividade agropecuária foi tão intensa nesses últimos 20 anos que o Tocantins já é hoje o estado com maior fatia da área total convertida de vegetação nativa no Cerrado: 48.293 km2 ou 16,08% do total.
 
Goiás, até por falta de novas áreas úteis para o agronegócio, está hoje distante dos números assombrosos do início do século, quando chegamos a desmatar 6.670 km2 em 2001 – maior área registrada em um ano para um mesmo estado desde que o INPE iniciou seus registros. Ainda assim, seguimos consistentemente desmatando, e os números vêm crescendo, com um aumento de 47,3% entre 2019 e 2022, passando de 668,24 km2 para 984,79 km2. 
 
“Ao pé das chapadas, no entremeio do se encher de rios tantos, ou aí subindo e descendo solaus, recebendo o empapo da chuva, a gente se fervia… O chapadão é sozinho – a largueza. O sol. O deu de não se querer ver. O verde carteado do gramal. As duras areias. As arvorezinhas ruim-inhas de minhas. A diversos que passavam abandoados de araras – araral – conversantes. Aviavam vir os periquitos, com o canto-clim. Ali chovia? Chove – e não encharca poça, não rola enxurrada, não produz lama: a chuva inteira se soverte em minuto terra a fundo, feito um azeitezinho entrador. O chão endurecia cedo, esse rareamento de águas. O fevereiro feito. Chapadão, chapadão, chapadão”.
 
Não é claro o quanto desse desmatamento é feito de forma ilegal. Ainda assim, mesmo que sua maior parte aconteça dentro da lei, faz sentido seguirmos abrindo novas áreas para a atividade agropecuária? Estudos mostram que poderíamos expandir a produção em áreas já abertas a custos menores investindo sobretudo na recuperação de pastagens degradadas. E dados do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento da Universidade Federal de Goiás, o Lapig, mostravam que, em 2018, quase 40% das pastagens no Cerrado apresentavam algum grau de degradação e portanto operavam a níveis baixos de produtividade.
 
Faz sentido continuar desmatando quando o mundo, diante da urgência trazida pelas mudanças climáticas, volta seus olhos para o Brasil e seu papel fundamental na regulação do clima, e quando o próprio Governo Federal estabeleceu, de forma sensata, o compromisso de zerar o desmatamento até 2030?
 
"A chapada é para aqueles casais de antas, que toram trilhas largas no cerradão por aonde, e sem saber de ninguém assopram sua bruta força. Aqui e aqui, os tucanos senhoreantes, enchendo as árvores, de mim a um tiro de pistola – isto resumo mal. Ou o zabelê choco, chamando seus pintos, pra esgravatar terra e com eles os bichinhos comíveis catar. A fim, o birro e o garrixo sigritando. Ah, e o sabiá-preto canta bem. Veredas”.
 
Como costumava dizer o célebre entomologista e ambientalista Angelo Machado, falecido em 2020, referindo-se a uma das passagens mais icônicas do Grande Sertão: Veredas: "Hoje, o julgamento de Zé Bebelo aconteceria em meio a uma plantação de soja".
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Joias do Centro
24.04.2026
Vinillândia transforma o Martim Cererê em ponto de encontro da cultura do vinil

Carolina Pessoni Goiânia – Na contramão da lógica do streaming, um movimento silencioso — e cada vez mais barulhento — vem ocupando o Centro de Goiânia. A Vinillândia, feira dedicada aos discos de vinil, encontrou no Centro Cultural Martim Cererê um endereço fixo para reunir colecionadores, curiosos e novas gerações que redescobrem a música em […]

Joias do Centro
24.04.2026
Balé “Giselle” abre temporada 2026 da Cia Jovem Basileu França; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cia Jovem Basileu França abriu, nesta quinta-feira (23/4), a temporada 2026 com a apresentação de um dos balés mais emblemáticos do repertório romântico: “Giselle”. A montagem contou com a participação da Orquestra Filarmônica de Goiás e foi apresentada no Teatro Escola Basileu França. Considerada um dos maiores clássicos do balé […]

Noite e Dia
22.04.2026
Exposição de arte contemporânea apresenta novos artistas do segmento em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A galeria da FAV – Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás – em Goiânia, abriu, nesta terça-feira (21/4), a exposição “Mapas em brasa”. Com a curadoria de Lucas Dilacerda, a mostra apresenta quase 40 artistas que discutem temas como território e ficção, entre eles Dalton Paula, Lucélia Maciel […]

Meia Palavra
22.04.2026
Documentário “Meus Amigos Indesejáveis” revela a face sutil do autoritarismo na era digital

“Na Alemanha nazista, as pessoas também sentaram e esperaram que as coisas fossem melhorar”, diz casualmente uma das mulheres que protagonizam o documentário “Meus Amigos Indesejáveis: Parte 1 – O Último Ar em Moscou”, primeiro capítulo de uma trilogia da cineasta russo-americana Julia Loktev sobre a perseguição a jornalistas e o crescente autoritarismo na Rússia […]

Noite e Dia
20.04.2026
No Pelo 360 anima público em tarde de sertanejo em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O festival No Pelo 360 briu oficialmente a turnê nacional 2026 no último sábado (18/4), em Goiânia. O evento foi realizado no Estádio Serra Dourada, e repetiu o sucesso das edições anteriores, marcadas por grande público e ingressos esgotados. Idealizado por Hugo & Guilherme, o projeto se consolidou como uma das […]

CURADORIA AFETIVA
19.04.2026
Alguns andam entre estrelas

O balanço do primeiro trimestre do ano está como a conjunção em Áries, alinhado aos sete planetas em pleno elemento fogo que é, ao que tudo indica, a deixa para a ação, o fazer e acontecer. Direito ou esquerdo, escuro ou claro, seco ou molhado, todos os lados estão dando os seus pulos. Héteros, viados, […]

Noite e Dia
17.04.2026
Grupos sinfônicos da EFG Basileu França fazem concerto gratuito com obras clássicas; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Os grupos sinfônicos da Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França realizam nesta semana uma sequência de apresentações abertas ao público no Teatro Escola, no setor Leste Universitário, em Goiânia. Na terça-feira (14/4), foi a vez das crianças e jovens das Orquestras Mozart e Pedro Ludovico Teixeira encantar […]

Noite e Dia
15.04.2026
Oficina reúne arte, filosofia e prática criativa no Jardim Potrich; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich realizou, no último sábado (11/4), a exposição e oficina “Moldando Expressões”, uma proposta que misturou arte, filosofia e prática criativa em uma experiência sensorial. A programação reuniu exposição artística e vivência prática com máscaras em cerâmica. A exposição apresenta cerca de dez obras produzidas pelos artistas José Luiz […]