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O peso das gerações

16.01.2024 - 08:11:28
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Meus bisavós, Ramona e Anastácio Rodrigues,
e sua filha Amélia, por volta de 1920 

Você já parou para pensar que, 20 gerações atrás, cada um de nós tem 1.048.576 ancestrais? E que, considerando as expectativas de vida médias ao longo das épocas, isso não nos leva tão longe assim no passado? Esses seus e meus mais de um milhão de tataravós viveram por volta do século XV.
 
Pense bem: se apenas um desses 1.048.576 mulheres e homens tivesse morrido um pouco antes de reproduzir ou se, por qualquer motivo, tivesse escolhido outra pessoa como seu par, você e eu não existiríamos.
 
E isso se agrava muito a cada geração à medida que voltamos, em progressão geométrica para o passado. Trinta gerações atrás, são mais de 1 bilhão de ancestrais para cada um de nós – e estamos apenas por volta do ano 1200. Independentemente de sobreposições e consanguinidades, é um número assombroso, sobretudo pelo quanto evidencia a bizarra probabilidade atrelada à existência de cada um de nós.
 
Ao mesmo tempo, é impossível negar a sobredeterminação que essa cadeia genética e familiar tem sobre quem somos. Cada um de nós dá continuidade e briga contra sua herança. Somos o que nos é passado ao mesmo tempo em que lutamos para nos livrarmos desse legado na tentativa de expressar aquilo que julgamos ter de próprio e único. 
 
Essa é a essência do drama humano: o impulso para se separar daquilo que nos constitui, sabendo-nos desde sempre fadados ao fracasso. Somos inseparáveis dessa teia que nos une a todos os seres da mesma espécie que jamais existiram, desde seu surgimento, em algum ponto da África, cerca de 300 mil anos atrás.
 
Por isso, não há nada mais fascinante que tentar compreender a história de nossa espécie, em termos coletivos, e o caminho pretérito individual de nossas heranças rumo às névoas do passado. Mas a memória é nossa inimiga. Rapidamente, os vestígios dessa cadeia se perdem rumo ao anonimato e à indiferenciação. 
 
Quando penso em minha herança pessoal, é extraordinário refletir sobre a alucinante velocidade do século XX. Nascido em 1974, me dei por gente no alvorecer da Nova República. Minha geração cresceu tomando as liberdades e garantias da Constituição de 1988 como naturais, e não como fruto de muitos conflitos violentos ou produto de condições históricas bastantes específicas, que não necessariamente sustentariam seus frutos para sempre. Para os que, além do mais, como eu, nasceram em famílias privilegiadas, o natural é uma vida relativamente protegida e de riscos incomparavelmente menores em relação àqueles que nossos pais – e, que dirá nossos avós -, enfrentaram.
 
Anastácio, um de meus bisavôs paternos, por exemplo, deixou o trabalho brutal como minerador na Galícia espanhola do início do século XX para tentar uma vida menos dura para a família nas plantações de café da Mogiana paulista. Atravessou o Atlântico por duas vezes – a primeira sozinho, a segunda com a esposa Ramona e os filhos. A despeito de sobreviverem às condições provavelmente insalubres da travessia, seis deles não venceriam a pandemia da Gripe Espanhola que varreu o mundo entre 1917 e 1918. Minha avó Arlinda, que cruzara o mar com apenas dois anos de idade, foi uma das sobreviventes.
 
Minha mãe, de outro lado, nascida na zona rural de Jataí, sudoeste de Goiás, em 1948, é uma filha da fronteira. Cresceu em uma época onde a garantia de direitos, em muitas situações, dependia da capacidade das pessoas se defenderem – ou atacarem -, pois o Estado ainda era algo praticamente ausente. Pior ainda, quando presente, representava, de forma descarada, interesses econômicos bastante específicos.
 
Grande parte da família, por exemplo, morava, na década de 1920, na região da Serra do Cafezal, hoje parte do município de Serranópolis. Nessa época, viveram as agruras da chegada a Jataí do delegado Erkonwald Barros, famoso por sua brutalidade. Fora enviado pelas elites dominantes da capital – à época ainda a Cidade de Goiás -, para conter a crescente força oposicionista no sudoeste do estado liderada pelo Senador Antônio Martins Borges e seu genro Pedro Ludovico Teixeira, que em 1930 sairia vitorioso da Revolução e seria nomeado interventor no estado de Goiás. 
 
Como se não bastasse pagarem o preço do oposicionismo, em 1926, foi a vez de se aterrorizarem com a passagem da Coluna Prestes pela região. Promovendo a ideia da revolução, os rebelados, por onde passavam, amedrontavam os moradores, tomavam mantimentos e animais, e desconfiavam de todos que suspeitavam partidários do status quo da República Velha. Como relata a recém falecida escritora Maria Eloá de Souza Lima, muitas famílias abandonaram suas casas e passaram meses escondidas no mato esperando a partida de Siqueira Campos e seus seguidores.
 
Há um personagem em especial que me fascina pelo que conta dessa história ainda recente do Brasil, do Centro-Oeste e da minha família. 
 
João, meu avô materno, cresceu como peão de boiada. Ainda aos 13 anos, foi expulso de casa pelo padrasto e teve que se criar sozinho. Levando e trazendo gado do Triângulo Mineiro para Goiás, conheceu Napoleão, meu bisavô, e acabou se casando com Maria, uma de suas filhas. Casado, comprou uma pequena fazenda e se fixou em Jataí. 
 
Foi ali, certo dia, que apareceu um preto alto pedindo trabalho. Seu nome era Moisés. Meu avô se afeiçoou ao sujeito, sério e trabalhador, e ele foi ficando. Logo, construiu um rancho para si, tornou-se agregado e, ao longo do tempo, um verdadeiro membro da família, a quem minha mãe e seus irmãos se referiam como tio Moisés.
 
Virgínia, minha mãe, tem viva memória de se divertir carregada em seus ombros. Lembra-se também de como Moisés abria parcialmente as cascas de dois amendoins e os prendia aos lóbulos das suas pequenas orelhas de menina como brincos. São recordações de profundo afeto.
 
Meu avô morreu cedo, vitimado pelo alcoolismo e por um derrame. Para criar os filhos, minha avó decidiu vender a fazenda. Tio Moisés foi então morar com José, um de meus tios-avôs, de quem nunca mais se separou.
 
Já velho e doente, tio Moisés tinha muitas dores e era cuidado pela família. Não suportando mais o sofrimento, chamou meu tio-avô: "José, eu acho que Deus não me leva porque eu carrego muitos pecados. Preciso confessar".
 
E passou a relatar a tio José sua vida anterior à chegada à fazenda de meu avô. Ninguém até então sabia, mas Moisés fora, durante muitos anos, um jagunço a mando de coronéis do interior de Goiás. Contou, um por um, os mais escabrosos crimes – assaltos a fazendas, assassinatos, estupros, mortes de crianças, torturas, guerras. A chegada à nossa família representara a busca de paz e mudança de vida.
 
Ainda assim, mesmo relatando sua história, tio Moisés não conseguia morrer como desejava e seguia sofrendo.
 
"Acho que Deus não me leva porque tenho um último pecado que não contei", disse ele a tio José. "Mas esse, eu não tenho coragem", arrematou.
 
Poucos dias depois, tio Moisés faleceu sem relatá-lo.
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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