Logo

Na fronteira do oceano, a refundação do Brasil?

05.09.2023 - 07:48:47
WhatsAppFacebookLinkedInX

"O verdadeiro ponto de vista na história desta nação não é o da Costa Atlântica, e sim o do grande Oeste", afirmou, ainda no fim do século 19, a respeito dos Estados Unidos, o historiador Joseph Turner. Foi ele quem primeiro entendeu, apesar de seu entusiasmo pela conquista do Oeste, que, para analisarmos a história e a sociedade dos países do Novo Mundo, temos que olhar para aqueles lugares no interior em processo de incorporação à dinâmica econômica capitalista. É na fronteira econômica que não apenas o destino, mas a própria identidade do país se forja. Na fronteira, estão sempre em jogo diferentes projetos civilizatórios.
 
"É na fronteira que nasce o brasileiro", disse, nessa mesma direção, o sociólogo José de Souza Martins, "mas é aí também que ele se devora nos impasses de uma história sem rumo".
 
Testemunhamos hoje mais um deslocamento da fronteira econômica na Amazônia. Desta vez, entretanto, não é a floresta equatorial que se coloca no caminho daquilo que uma parte do país enxerga como desenvolvimento. O obstáculo agora é, de modo mais direto, os desconhecidos recifes de corais da foz do Rio Amazonas e, de maneira indireta, todo o planeta, ameaçado pelas mudanças climáticas.
 
A fronteira avança em direção ao oceano, com a disputa sobre a exploração de petróleo na chamada Margem Equatorial, a plataforma continental norte do Brasil, que inclui a região da foz do Rio Amazonas.
 
O indeferimento em maio pelo Ibama da licença ambiental solicitada pela Petrobras para exploração de petróleo em um bloco localizado nessa região, deu início a uma imensa polêmica que já envolveu manifestações da ministra Marina Silva, do ministro Alexandre Silveira, de Minas e Energia, do presidente Lula, e de outras lideranças políticas, em especial do Amapá, além de ambientalistas e cientistas.
 
O próprio presidente sugeriu que, por encontrar-se a centenas de quilômetros da floresta, a sondagem pretendida talvez não devesse gerar tanta preocupação. Por trás da disputa em torno da exploração dessa área, vislumbram-se, entretanto, dois projetos diferentes de Brasil. 
 
Esses projetos são, no fundo, os mesmos desde sempre colocados quando falamos de Amazônia – entre a exploração predatória de seus recursos naturais, sempre aliada à geração de brutais desigualdades, e a proposta de um uso estratégico – e mais democrático e inclusivo – dessa imensa riqueza sob nossa responsabilidade.
 
É a mesma disputa que leva à opção pelo desmatamento e que beneficia grileiros e especuladores, com o ônus já conhecido sobre populações indígenas e ribeirinhas e sobre a biodiversidade. É a mesma batalha perdida durante o governo Dilma em torno do insano e anacrônico projeto de implantação da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, mesmo depois de testemunharmos Balbina e Tucuruí, com todos os seus impactos ambientais e sociais negativos. O projeto vitorioso é o mesmo que agora se desdobra também fora da Amazônia, na invisibilidade do Matopiba, onde o Cerrado vem sendo devastado e as terras de pequenos produtores e populações tradicionais, invadidas e griladas.
 
Na Margem Equatorial, entretanto, pela urgência da questão climática e pela visibilidade da Amazônia, estamos diante de um conflito talvez mais definidor do futuro do Brasil e da humanidade, e também de uma oportunidade única.
 
Ao abrir mão de queimar esse petróleo, aponta Caetano Scannavino, fundador do prestigioso projeto Saúde e Alegria, "o Brasil de Lula e Marina Silva teria cacife para cobrar das outras nações que façam o mesmo. E liderar um movimento também a partir do Sul mundial por uma governança global do clima mais justa, que equacione as devidas compensações – não só ambientais, mas também sociais".
 
Faz sentido falarmos em abrir uma nova frente de exploração de petróleo, numa região altamente sensível e desconhecida, quando a própria Agência Internacional de Energia afirma que a demanda global por combustíveis fósseis deve começar a declinar a partir de 2028? Faz sentido investir nessa matriz energética quando acabamos de passar pelo mês de julho mais quente da história, segundo a Organização Meteorológica Mundial, e quando já sentimos todos na pele os efeitos das mudanças climáticas trazidas pelo aquecimento global? 
 
Faz sentido certamente para aqueles que sabem que, no curto prazo, se beneficiarão desse avanço da fronteira sobre o Oceano Atlântico. Não só eles se apropriarão do butim econômico e político, como não sentirão na pele e no bolso, de forma direta, os impactos negativos da iniciativa.
 
Não faz qualquer sentido, todavia, como projeto de país. 
 
Na década de 1970, nos enxergamos no Brasil grande dos militares e acreditamos na conversa de "terra sem homens para homens sem terra". Na década de 1980, engolimos os impactos de Tucuruí, como preço necessário para garantir energia para o país. Nos anos 2000, o Pré-Sal foi a miragem vendida que resolveria todos os nossos problemas. Nos 2010, foi a vez de Belo Monte empobrecer para sempre a Volta Grande do Xingu. Nos últimos quatro anos, assistimos paralisados à explosão do desmatamento e ao genocídio Yanomami. Em todos esses momentos e desde sempre, forjou-se e se reafirmou um Brasil que é mero desdobramento e sofisticação do projeto colonial, um país construído segundo a lógica do garimpo – expropriação da terra na base da violência, exploração da natureza até sua exaustão e geração de brutal concentração de renda.
 
Estamos, talvez pela primeira vez, diante de circunstâncias políticas, sociais e ambientais, que podem nos permitir romper com essa lógica e, em larga medida, refundar o Brasil. Não é tarefa fácil e as chances de sucesso são diminutas. Como costuma dizer Marina Silva, entretanto, não nos cabe ser otimistas – nem tampouco pessimistas -, mas sim persistentes.
 
A população do vizinho Equador, em recente plebiscito, decidiu pela interrupção da exploração de petróleo no interior de um parque nacional na Amazônia. Os ventos parecem estar mudando. Quem sabe possamos finalmente impedir que o Brasil se devore nos impasses de sua história sem rumo, como constata José de Souza Martins. A fronteira está sempre em disputa.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Joias do Centro
24.04.2026
Vinillândia transforma o Martim Cererê em ponto de encontro da cultura do vinil

Carolina Pessoni Goiânia – Na contramão da lógica do streaming, um movimento silencioso — e cada vez mais barulhento — vem ocupando o Centro de Goiânia. A Vinillândia, feira dedicada aos discos de vinil, encontrou no Centro Cultural Martim Cererê um endereço fixo para reunir colecionadores, curiosos e novas gerações que redescobrem a música em […]

Joias do Centro
24.04.2026
Balé “Giselle” abre temporada 2026 da Cia Jovem Basileu França; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cia Jovem Basileu França abriu, nesta quinta-feira (23/4), a temporada 2026 com a apresentação de um dos balés mais emblemáticos do repertório romântico: “Giselle”. A montagem contou com a participação da Orquestra Filarmônica de Goiás e foi apresentada no Teatro Escola Basileu França. Considerada um dos maiores clássicos do balé […]

Noite e Dia
22.04.2026
Exposição de arte contemporânea apresenta novos artistas do segmento em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A galeria da FAV – Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás – em Goiânia, abriu, nesta terça-feira (21/4), a exposição “Mapas em brasa”. Com a curadoria de Lucas Dilacerda, a mostra apresenta quase 40 artistas que discutem temas como território e ficção, entre eles Dalton Paula, Lucélia Maciel […]

Meia Palavra
22.04.2026
Documentário “Meus Amigos Indesejáveis” revela a face sutil do autoritarismo na era digital

“Na Alemanha nazista, as pessoas também sentaram e esperaram que as coisas fossem melhorar”, diz casualmente uma das mulheres que protagonizam o documentário “Meus Amigos Indesejáveis: Parte 1 – O Último Ar em Moscou”, primeiro capítulo de uma trilogia da cineasta russo-americana Julia Loktev sobre a perseguição a jornalistas e o crescente autoritarismo na Rússia […]

Noite e Dia
20.04.2026
No Pelo 360 anima público em tarde de sertanejo em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O festival No Pelo 360 briu oficialmente a turnê nacional 2026 no último sábado (18/4), em Goiânia. O evento foi realizado no Estádio Serra Dourada, e repetiu o sucesso das edições anteriores, marcadas por grande público e ingressos esgotados. Idealizado por Hugo & Guilherme, o projeto se consolidou como uma das […]

CURADORIA AFETIVA
19.04.2026
Alguns andam entre estrelas

O balanço do primeiro trimestre do ano está como a conjunção em Áries, alinhado aos sete planetas em pleno elemento fogo que é, ao que tudo indica, a deixa para a ação, o fazer e acontecer. Direito ou esquerdo, escuro ou claro, seco ou molhado, todos os lados estão dando os seus pulos. Héteros, viados, […]

Noite e Dia
17.04.2026
Grupos sinfônicos da EFG Basileu França fazem concerto gratuito com obras clássicas; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Os grupos sinfônicos da Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França realizam nesta semana uma sequência de apresentações abertas ao público no Teatro Escola, no setor Leste Universitário, em Goiânia. Na terça-feira (14/4), foi a vez das crianças e jovens das Orquestras Mozart e Pedro Ludovico Teixeira encantar […]

Noite e Dia
15.04.2026
Oficina reúne arte, filosofia e prática criativa no Jardim Potrich; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich realizou, no último sábado (11/4), a exposição e oficina “Moldando Expressões”, uma proposta que misturou arte, filosofia e prática criativa em uma experiência sensorial. A programação reuniu exposição artística e vivência prática com máscaras em cerâmica. A exposição apresenta cerca de dez obras produzidas pelos artistas José Luiz […]