Logo

Meu pai e o Édipo

WhatsAppFacebookLinkedInX
29.08.2023 - 07:57:35

Conhecer a história é conhecermos a nós mesmos. Afinal, como disse o crítico Harold Bloom, "somos pensados e vividos por forças maiores que nós" – a história, a cultura, a sociedade, o inconsciente. 
 
No Rio de Janeiro, visitei, neste final de semana que passou, o Museu da República. Diante da cama em que Getúlio Vargas se matou com um tiro no peito, inevitável pensar sobre meu avô e meu pai.
 
Henrique, meu avô paterno, foi um homem nascido ainda no século 19, apenas uma década após nossa tardia abolição da escravatura. Paulista até a alma, era neto de um barão do café. Seu pai torrou, entretanto, em cassinos na Europa, a fortuna e as terras herdadas, morreu cedo e deixou a empobrecida esposa, minha bisavó Francisca, sozinha para cuidar de nove filhos. Henrique foi professor escolar e político – antigetulista e, claro, grande admirador do velho Ademar de Barros.
 
Lutou por São Paulo na Revolução Constitucionalista de 1932. Acreditava piamente que as denúncias de corrupção contra Ademar de Barros, esse pai do "rouba, mas faz", eram intriga da oposição. Certo dia, como prefeito da cidade, compareceu a uma cerimônia na capital e ouviu da boca do próprio, em tom de galhofa, que o canalha do contador lhe roubara o caixa dois da última campanha e fugira para o Paraguai. Desiludido, teria então decidido abandonar a política – um homem ao mesmo tempo rígido e um tanto ingênuo em seu idealismo, talvez como meu pai, talvez como eu mesmo.
 
Não relato isso com sarcasmo ou qualquer ironia, mas como quem tenta dar substância humana a um avô que conheceu apenas pelas palavras do próprio pai, e por relatos dos tios e primos mais velhos que chegaram a vê-lo antes da morte precoce aos 66 anos – um avô que é uma dessas forças que me atravessam.
 
Henrique foi um homem do seu tempo, que formou seu caráter numa república que nascia e num meio social marcado por forte idealismo político e conservadorismo. Ele foi o homem que pôde ser, feito de contradições que ajudaram a moldar meu pai, que chegam, de diferentes maneiras, até mim, e que estão sendo passadas, em alguma medida, para meus filhos.
 
Antes de Ademar de Barros, seu grande ídolo político fora Washington Luís – prefeito da cidade de São Paulo, governador do estado e presidente derrubado por Getúlio Vargas em 1930. Tal era a fidelidade do meu avô à política paulista que, em 1934, batizou seu primeiro filho homem em homenagem a ele: Washington Luiz Rodrigues Novaes.
 
Mas a história e a psicanálise, que explica as ações humanas dentro dela, são fartas em ironias, e nós não escapamos ao poder das duas.
 
A construção de Goiânia foi um gesto político magistral do interventor Pedro Ludovico Teixeira. Líder da Revolução de 1930 em Goiás, com a mudança da capital, de um só golpe, isolou geograficamente, na cidade de Goiás, as oligarquias que havia derrotado, e materializou, na nova cidade, a ideia de um renovado espírito do tempo trazido por Getúlio Vargas e pelo 24 de outubro de 1930. 
 
Goiânia foi criada como símbolo de um Brasil em transformação e como visão do futuro desejado para o país: urbano, moderno e caminhando para ocupar seu vasto território na Marcha para Oeste, da qual a cidade seria ponta de lança. Encarnava, portanto, a antítese de tudo o que meu avô valorizava e tinha como seu.
 
Em 1982, meu pai, carregando seu nome de Washington Luiz, decidiu mudar-se para essa cidade.
 
É possível não pensar nesse movimento como um golpe edipiano contra meu avô? Como uma vingança silenciosa contra as arbitrariedades e o rigor do velho Henrique? Escolher para morar a cidade símbolo do varguismo visceralmente odiado por ele? Viver na cidade propositalmente fundada, três anos depois, no mesmo 24 de outubro em que o país testemunhara a derrubada do presidente Washington Luís que dava nome a meu pai? 
 
Será que, no fundo, em seu inconsciente, meu pai não respirava, nos ares de Goiânia ainda impregnados pelo espírito da Revolução, um sentimento de libertação do ar sufocante de sua infância e juventude no interior de São Paulo?
 
Ele mesmo gostava muito de relembrar a história de seu amigo, o grande arquiteto Sérgio Bernardes, cujo filho de mesmo nome – o já falecido cineasta Sérgio Bernardes Filho – lhe dava grande trabalho na juventude. Um dia, exausto com a última loucura do rapaz, Bernardes desabafara: "Eu entendo que a missão freudiana do filho seja matar o pai, mas o que me irrita é a lentidão! Por que não põe logo uma bomba embaixo da minha cadeira?!"
 
Dito de forma mais elegante e afetuosa, a vida do meu pai foi, como a de todos nós, em larga medida, um esforço para descobrir o que fazer com sua herança – paterna, neste caso, mas que também carrega consigo infinitos fios da história humana de diferentes origens. 
 
Antes desse gesto definitivo de se apaixonar por Goiânia, meu pai, para orgulho do velho Henrique, formara-se em Direito no Largo de São Francisco – onde Washington Luís e todos os presidentes da Primeira República, que meu avô tanto admirava, haviam se graduado. Poucos anos depois, nesse lento processo de causar desgostos a seu velho, abandonou a advocacia para ingressar na desprestigiada carreira de jornalista.
 
Deixou São Paulo, mudou-se para o Rio, divorciou-se, foi feliz como jornalista. Se não chegou a desbundar, andava cercado de hippies e nadou no caldo da contracultura dos anos 1960, em mais uma de suas afrontas ao conservadorismo do pai.
 
Como se não bastasse, num gesto final – aceno ou derradeira afronta? – decidiu morrer em um 24 de agosto, mesma data que Getúlio Vargas escolheu para se suicidar no Palácio do Catete. Haja psicanálise.
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
16.10.2026
Evento para convidados marca estreia de série documental sobre Marília Mendonça; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, na noite desta quinta-feira (15/10), a estreia de “Marília Mendonça: Sentimento Louco”, no Cine Aurum, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A série documental Original Prime estreia ao público nesta sexta-feira (16). A produção retrata a trajetória da cantora goiana, sua ascensão no sertanejo e o legado de uma […]

Joias do Centro
16.10.2026
Centro Cultural Marietta Telles Machado reúne memória, arte e novos planos para o futuro

Carolina Pessoni Goiânia – Na Praça Cívica, em meio aos edifícios que marcaram os primeiros anos da capital goiana, uma construção guarda diferentes capítulos da história de Goiânia e da vida cultural do Estado. O Centro Cultural Marietta Telles Machado foi o primeiro edifício público construído estrategicamente na praça, concebido para abrigar a Secretaria Geral […]

Noite e Dia
14.10.2026
Convidados prestigiam abertura de exposição de Kdu dos Anjos em Goiânia; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Centro Cultural UFG (CCUFG) recebeu, na terça-feira (13/10), a abertura para convidados da exposição “Memórias, Imagens e Arquiteturas da Permanência”, de Kdu dos Anjos. Na exposição apresentada em Goiânia, o artista reúne trabalhos das séries “Sentinelas — Carrancas Pinceladas”, “Nóis que Ficamo” e “Cidade de Deus”. Sua pesquisa parte de fotografias, […]

LABORATÓRIO PÚBLICO - CIÊNCIA, POLÍTICA E MEIO AMBIENTE
13.10.2026
Votemos, então

A vida me proporcionou exercer ofícios muito diferentes até aqui, ocupar portanto lugares e perspectivas distintas na sociedade. Por isso, me sinto numa responsabilidade múltipla diante do segundo turno da eleição presidencial. Primeiro, antes do trabalho, por caminhos tortuosos, a vida me tornou radicalmente democrata. Isso é, em grande medida, herança do meu pai, Washington […]

Noite e Dia
12.10.2026
Famílias aproveitam o primeiro final de semana da reabertura do Mutirama; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Após obras de recuperação e melhorias na estrutura e na segurança, o Mutirama voltou a receber o público a partir deste sábado (10/10). No domingo, famílias aproveitaram para curtir o parque e antecipar as comemorações do Dia das Crianças. Com 22 atrações recuperadas, estão disponíveis ao público a roda-gigante, telecombate, autopista, […]

CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]