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Meu avôs

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23.01.2024 - 10:04:43
Em O que é Meu?, livro lançado em 2023 e já mencionado neste espaço, José Henrique Bortoluci logra um feito: sem soar pretensioso, consegue fazer uma profunda reflexão sobre o Brasil a partir da história de um cidadão anônimo. Das lembranças de Didi, seu pai, um caminhoneiro que percorreu o Brasil de norte a sul nos anos 1970, faz emergir várias das contradições fundantes do país – o populismo, a desigualdade, o autoritarismo, os conflitos de classe, o crescimento enraizado na predação dos recursos naturais, o rentismo e o patrimonialismo das elites.
 
Com sensibilidade, essa costura entretanto não ganha ares de lição ou proselitismo político. A intenção parece ser outra: entender o que o constitui – que teia é essa, de cultura e natureza, de relações sociais e políticas, que se projeta para o passado e resulta naquilo que cada um é. Há de fato, nesse sentido, algo propriamente nosso?
 
No que pode ser meu, tento entender a árvore genealógica da minha família. Sintomaticamente, alguns ramos se abrem e estendem mais facilmente, enquanto em outros a identificação dos antepassados empaca e se perde na névoa do passado. 
 
No ramo do meu avô paterno, Henrique, já é possível chegar até o século XV, 14 gerações atrás, no norte de Portugal e da Espanha. Desses migrantes que cruzaram o Atlântico, resultaram inúmeros donos de sesmarias, bandeirantes paulistas – como Fernão de Camargo, o "Tigre", e Fernão Ortiz de Camargo, "o Moço" – e cafeicultores na região da Mogiana paulista. Por ser essa uma ascendência  que compõe, em larga medida, a elite da colônia e do Império – e ademais paulista -, a documentação é relativamente farta e disponível.
 
O mesmo não se dá com a linhagem do meu avô materno, João Leonel. Mineiro da região de Frutal, foi expulso de casa pelo padrasto aos 13 anos. Naquele tempo não tão distante – nasceu em 1910 -, era virtualmente impossível a uma jovem viúva não tornar a se casar – pela impossibilidade de criar os filhos sozinha, pelos riscos de uma vida no campo sem um marido e pelos preconceitos enfrentados por mulheres solteiras. 
 
Sem lar, restou a João juntar-se às comitivas de gado e tornar-se peão de boiada, trabalho que o traria a Goiás, onde acabou conhecendo minha avó. Mesmo depois de juntar dinheiro, comprar sua pequena terra e constituir família, não deve ter sido uma vida fácil – em um sudoeste de Goiás ainda remoto, virtualmente sem a presença do Estado e num tempo onde a ameaça de violência dava o tom de quase todas as relações sociais.
 
Nesse ramo pobre, a árvore para no meu avô. Não consegui ainda saber sequer os nomes completos dos seus pais. Fazem parte da massa anônima, muitas vezes sem registro e documentação, cuja força de trabalho era explorada por aqueles com nome e documento – ao menos até que decidissem se embrenhar um pouco mais no território em busca do sonho de alguma autonomia e liberdade.
 
Nascido em 1900, meu avô Henrique, em sua ascendência masculina, é bisneto de Manoel, um português que, no século XVIII, migrou para o Paraná e foi agraciado, na Vila de Castro, com uma sesmaria e a patente de alferes. É neto de Joaquim, cafeicultor, grande fazendeiro, certamente senhor de escravizados, e vereador em Mogi-Mirim, já no estado de São Paulo. Seu pai, entretanto, outro Joaquim, ironia do destino, decidiu torrar a gorda herança nos cassinos e bordéis europeus até morrer sifilítico, aos 42 anos, deixando viúva minha bisavó Francisca sem dinheiro e com nove filhos para criar.
 
Dessa guinada radical, resultou Henrique, que se tornaria um rigoroso professor escolar e político na pequena Vargem Grande do Sul, nas franjas da Serra da Mantiqueira paulista. Fã de Washington Luís, último presidente da República Velha, e depois de Ademar de Barros, esse pai do populismo corrupto brasileiro, era, como se percebe, um paulista de quatro costados. Viu seu primeiro ídolo ser derrubado pela Revolução de 1930 e lutou, por isso, na Revolução Constitucionalista de 1932.
 
Quando prefeito, foi convidado, certa vez, para uma cerimônia no Palácio dos Campos Elíseos, então sede do governo, para a assinatura de convênios entre estado e prefeituras. Estava radiante. Iria conhecer pessoalmente seu adorado Ademar de Barros. Após as formalidades, havia um coquetel. À vontade, Ademar circulava entre as rodinhas de prefeitos e políticos confabulando e contando anedotas. Numa dessas, num misto de piada e lamento, confirmou que o diretor financeiro de sua campanha a governador tinha de fato fugido para o Paraguai com as sobras do caixa dois, história que circulava a boca miúda e na imprensa oposicionista e que meu avô tomava como calúnia dos inimigos. Profundamente decepcionado, Henrique teria voltado a Vargem Grande e dito à minha avó que abandonaria a política.
 
Como com o caminhoneiro Didi Bortoluci, em O que é Meu, também nas histórias do professor Henrique ou do peão João Leonel, deixa-se entrever o Brasil em suas contradições. Mortos relativamente jovens, não conheci nenhum dos dois, o que contribui para mistificá-los.
 
Tangidos pela pobreza, os Costa e sua ascendência, devem ter vindo de Portugal em algum momento e foram adentrando o Brasil em busca de oportunidades e autonomia. Do contexto de faroeste do Triângulo Mineiro do início do século XX, surgiu João.
 
Do privilégio de quem recebeu uma sesmaria da rainha Dona Maria I – aquela que depois seria tomada como louca -, do enriquecimento com a mão-de-obra escrava, da aristocracia paulista e de um pai que pouco ou nada lhe legou, surgiu Henrique. 
 
Isso tudo, de alguma forma, é hoje meu: há violência, desigualdade, racismo, misoginia. De um lado e outro, entretanto, há também afeto, valores humanos, a importância da educação, o ideal democrático e grandes sacrifícios, a cada geração, para assegurar uma vida melhor para os filhos.
 
Somos todos assim, feitos de luz e sombras. Essa teia do tempo, de certa forma, nos aprisiona, mas também nos dá aquilo que cada um tem de seu e único – e que podemos usar para, pelo menos em parte, escrever nosso caminho.
 
P.S.: este texto e o texto anterior desta coluna se complementam. Se você não o leu, sugiro que o faça.
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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