Logo

Lemmy de perto

WhatsAppFacebookLinkedInX
01.11.2011 - 11:23:25

Na última sexta-feira, assisti Lemmy depois de quase um ano que foi lançado. Típico. Nunca vejo um filme logo na sequência do lançamento. Não gosto de ser influenciado pelo hype. Espero a onda baixar, os sentimentos adormecerem e o endeusamento/ódio perante o filme ficarem esquecidos para que eu tenha meu olhar. Acho que esse distanciamento deixa minha análise mais justa. Pode ser só frescura, e a probabilidade de ser isso predomina, mas é assim que eu gosto. O filme dos diretores Greg Olliver e Wes Orshoski passou no Multishow HD e, como eu estava em casa de bobeira, não vacilei.

 

Para quem não sabe do que se trata, Lemmy é um documentário biográfico sobre o líder do Motörhead, Lemmy Kilmister. Os caras acompanharam por três anos a rotina do vocalista/baixista inglês que mora há mais de 20 anos em Los Angeles. Enquanto isso, vão conversando com gente como Dave Grohl, Slash, Ozzy Osbourne, os caras do Metallica, Ice-T, entre tantos outros rockstars sobre a influência de Lemmy na imagem pública que se tem hoje do metal. Enquanto isso, vão resgatando a história desse que é um dos caras mais respeitados do rock mundial.

 

Fora as hipérboles clássicas que o envolvem e são retratadas à exaustão no filme (tipo, “Lemmy é Deus”, “Lemmy é o rock”, “Lemmy é o cara”), o mais interessante é a perspectiva humana do frontman do Motörhead que a obra consegue retratar. Na verdade, Lemmy é um cara extremamente solitário, que passa seus dias de folga em um minúsculo apartamento, cercado de artefatos de guerra que coleciona e jogando videogame. Quando se cansa, vai ao mesmo bar jogar caça-níquel e beber Jack Daniel's com Coca-Cola a noite inteira. Ou então arruma algumas anfetaminas (sua droga preferida) e vai a um clube de strippers. Uma vida que ele próprio não demonstra muita empolgação ou orgulho de levar.

 

A parte mais sensível é quando ele diz que a coisa mais importante da vida dele é seu filho, fruto de um relacionamento com uma groupie que perdeu a virgindade com John Lennon. Ali a figura de pai cuidadoso vem à tona. Mas é preciso lembrar que o significado de cuidado na cabeça de Lemmy é bem diferente do que está na cabeça de uma pessoa usual. Quando seu filho tinha 17 anos, Lemmy, pai zeloso, o aconselhou a nunca mexer com cocaína – afinal, as anfetaminas eram bem mais interessantes. Além disso, Lemmy conta do swing que fez com o filho, onde eles trocaram de namoradas e foram se divertir durante a noite.

 

O filme também é rico em imagens do passado de Lemmy, mostrando sua infância, a primeira banda em que tocou (The Rockin' Vickers) e detalhes de sua expulsão da Hawkind por conta de divergências narcóticas – enquanto os demais membros estavam na onda alucinógena, Lemmy engatava no speed e as viagens eram incompatíveis. Como forra pela demissão, o dono da verruga mais famosa do rock diz que pegou as mulheres de todos os membros da banda.

 

Assistir o filme é obrigatório para fãs do Motörhead e do rock em geral. E pode ser uma experiência interessante para quem não é muito ligado no assunto, já que observar de perto as nuances de alguém tão peculiar quanto Lemmy sempre é divertido. E aí, mérito dos diretores que conseguiram conquistar a confiança do biografado tradicionalmente fechado e avesso a entrevistas, captar isso na câmera e transmitir ao público.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]

Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]

Noite e Dia
21.09.2026
Jardim Potrich une Yoga, cerâmica e arte em programação especial; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich abriu suas portas para uma programação que aproxima duas práticas aparentemente distintas — Yoga e cerâmica — a partir de um território comum: a presença. No dia 12 de setembro, o jardim recebeu “Beta & Bia no Jardim”, uma manhã dedicada ao movimento, à respiração e à consciência […]

CURADORIA AFETIVA
20.09.2026
Da Tranquilidade botânica

“No entanto, o sábio não pode desprezar os maus, porque, em todos os tempos, as condições morais quase sempre são as mesmas. Se o mal é uma necessidade da vida, da qual os homens não podem subtrair, não se deve odiá-los, mas aprender a respeitá-los.” (Da tranquilidade da alma, Sêneca) A palavra mal vem do […]

Joias do Centro
18.09.2026
Praça Cívica preserva a ideia de ágora onde Goiânia encontrou sua identidade

Carolina Pessoni Goiânia – Antes de Goiânia existir como cidade, ela já existia como desenho. E, nesse desenho, havia um ponto destinado a concentrar o poder, organizar os caminhos e criar um lugar de encontro. Era a Praça Cívica, concebida pelo urbanista Attilio Corrêa Lima como o centro administrativo da nova capital. A ideia, segundo o […]

Noite e Dia
18.09.2026
Veja como foi a roda de conversa promovida pelo jornal A Redação sobre políticas para o setor artístico

Carolina Pessoni Goiânia – Representantes de diferentes áreas da cultura goiana se reuniram nesta quinta-feira (17) para discutir desafios, propostas e políticas públicas para o setor artístico em Goiás. O encontro “Arte Pensante – Roda de Conversa sobre Políticas para o Setor Artístico”, promovido pelo jornal A Redação, ocorreu na Galeria Aberta – Elysium Sociedade […]

Noite e Dia
16.09.2026
Sebrae premia profissionais da comunciação em noite dedicada ao jornalismo; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Prêmio Sebrae de Jornalismo realizou a solenidade de premiação em reconhecimento a produções jornalísticas que abordam temas ligados ao empreendedorismo e aos pequenos negócios. O Jornal A Redação conquistou o 2º lugar na etapa estadual da 13ª edição do prêmio, no evento que ocorreu na noite desta terça-feira (15/9), na […]