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Goiânia, a esfinge da fronteira

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24.10.2023 - 08:21:43
Amor verdadeiro não é um mar tedioso de calmaria. O amor, quando existe, é ruidoso e turbulento, morre sempre para germinar, como já explicou Gilberto Gil. Por isso, nas datas comemorativas, me dão certa preguiça as louvações e panegíricos, os discursos edulcorados, os retratos limpinhos do ser ou objeto amado e da própria relação como uma espécie de idílio. Amor tem sempre dúvida e briga no meio.
 
Nesse sentido, isso aqui é sim uma declaração de amor a Goiânia em seus 90 anos.
 
Helena Valero é uma personagem fascinante e importante para a etnografia. Filha de ribeirinhos na região do alto Rio Negro, no Amazonas, ela tinha sete anos quando foi raptada por indígenas yanomami e passou a viver entre eles. Aprendeu a língua, casou-se por duas vezes ali, teve filhos. Já idosa, entretanto, decidiu retornar para a cidade. Sua história foi registrada pelo antropólogo italiano Ettore Biocca no livro Yanoáma, publicado pela primeira vez em 1970.
 
Sua história fascinou vários etnógrafos, entre eles o francês Pierre Clastres, um dos grandes mestres da antropologia. Clastres viu no relato de Helena uma janela única para o universo indígena. Sua captura se dera em uma idade quando ainda era possível tornar-se de fato indígena, em termos culturais e espirituais, mas ainda reter também sua estrutura não-indígena. Ela se tornou uma espécie de híbrido, capaz de falar sobre o mundo indígena ao mesmo tempo por dentro e por fora.
 
Guardadas as devidas proporções e com boa dose de ironia, penso que sou um pouco como Helena Valero, um ser híbrido em minha naturalidade, e que, por isso, posso falar sobre Goiânia e sua alma de uma posição diferente.
 
Nasci no Rio de Janeiro e me mudei para Goiânia aos oito anos, em 1982. Considero-me goiano e goianiense – até porque tenho direitos hereditários de mãe goiana e pai agraciado com título de cidadania. Ainda assim, não sou de fato goianiense porque guardo algo de carioca – no encantamento pelas grandes paisagens e pelos espaços abertos, na saudade do mar, nos afetos desmedidos e na paixão pelo Flamengo.
 
Confesso que, em larga medida, Goiânia permanece uma espécie de esfinge, eterno enigma, que me devora todos os dias. Algo aqui permanece indecifrável. Acho, entretanto, que isso não é exclusividade minha – é angústia que afeta mesmo muitos goianienses do pé rachado, para usar essa expressão tão nossa -, e ouso sugerir aqui uma explicação para essa questão.
 
Goiânia não surgiu espontaneamente, como a maioria das cidades brasileiras, não germinou de uma peculiaridade econômica que atraiu pessoas e uniu vontades para a construção de um espaço de convivência. Foi planejada e construída como parte de um projeto de país nascido da Revolução de 1930. É sobretudo, nesse sentido, um símbolo desse novo tempo, contrapondo-se, como elemento fundamental da narrativa da República Nova, àquilo que se entendia como o país atrasado das oligarquias da República Velha.
 
A cidade foi concebida, portanto, como exemplo da modernidade que se queria para Goiás e para o Brasil, e como ponta de lança da ocupação e incorporação do vasto território a oeste e norte na celebrada "Marcha para Oeste".
 
Goiânia tem em sua alma, por isso, a marca da fronteira, e é minha hipótese que isso segue determinando as inescapáveis ambiguidades e contradições que caracterizam nossa cidade.
 
O sociólogo José de Souza Martins, professor aposentado da Universidade de São Paulo, é talvez a principal referência brasileira no estudo das fronteiras econômicas. Para ele, em primeiro lugar, a fronteira é muito mais que seu aspecto meramente econômico. "Ela é fronteira de muitas e diferentes coisas: fronteira da civilização (demarcada pela barbárie que nela se oculta), fronteira espacial, fronteira de culturas e visões de mundo, fronteira de etnias, fronteira da história e da historicidade do homem. E, sobretudo, fronteira do humano".
 
A fronteira é encontro e choque entre tempos históricos diferentes – entre indígenas e invasores, entre tradição e modernidade, rural e urbano, natureza e sociedade.
 
Por isso, para o professor José de Souza Martins, "é na fronteira que nasce o brasileiro, mas é aí também que ele se devora nos impasses de uma história sem rumo".
 
Ainda que, nesses 90 anos, a fronteira econômica obviamente tenha se deslocado e a cidade já não se situe nela, em termos simbólicos e culturais, o espírito da fronteira parece nunca ter deixado Goiânia e segue como parte inseparável da cidade e dos seus.
 
Ademais, situada exatamente em seu centro, a cidade é uma espécie de umbigo e centro nevrálgico do Brasil, sintetizando-o – por mais que o Sudeste deseje negá-lo e se considere a essência do país.
 
Por isso tudo, a cidade, mesmo tendo se incorporado ao dito "Brasil moderno", conserva um lado da realidade "pré-moderna" sobre a qual foi fundada.
 
Só esse status de fronteira permanente explica o que Goiânia tem de novo e, ao mesmo tempo, conservador, de acolhedora e, ao mesmo tempo, desconfiada, de violenta e afetuosa, de tradicional e cosmopolita, de provinciana e metropolitana, de rural e urbana, de feiura e beleza, capital do sertanejo e do rock independente.
 
Por isso, no aniversário da nossa cidade, cabe lembrar que a fronteira é um espaço de criação, onde as identidades seguem em constante reelaboração, mas uma criação que é também muitas vezes violenta, que se dá sobre a destruição, física ou simbólica, de grupos e identidades. 
 
Não nos esqueçamos, pois, que o brasão da cidade exibe as figuras do bandeirante e do garimpeiro, duas encarnações do espírito da fronteira e da violência que é uma de suas marcas.
 
Há algo de conflituoso no coração dessa cidade, em seu jogo de luzes e sombras, que é o que a torna mais interessante, atraente e difícil de compreender. Não se deixe enganar pelos preconceitos e visões de relance. 
 
Obrigado, Goiânia, por ter me dado quase tudo o que sou. É amor.
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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