Em artigos recentes, tentei mostrar como precisamos renovar a forma pela qual a ciência se coloca em sociedade de forma a fortalecer tanto a própria ciência como a democracia. Neles, falo de como as ideias de neutralidade e objetividade da ciência são usadas como cortina de fumaça para decisões pouco transparentes na esfera pública que alimentam a desconfiança em relação à tecnocracia e à própria ciência.
Quando a ciência se aproxima dos cidadãos, e da sociedade em geral, abrindo-se para o debate político, ela não se contamina ou enfraquece. Ao contrário, ganha força e se protege dos que a querem colocar no mesmo nível de discursos sem compromisso com a razão ou com o rigor metodológico.
A percepção de que a legitimidade pública é parte constituinte da solidez do conhecimento abre nossos olhos para a inteligência política necessária para conectar conhecimentos a instituições e galvanizar a energia necessária para grandes mudanças.
Existe, nesse sentido, conhecimento para mover as engrenagens de transformações vitais para o desenvolvimento do Brasil, com a possibilidade de conciliar ganhos econômicos, redução de desigualdades e sustentabilidade ambiental. Falta-nos precisamente a inteligência política para usar esses conhecimentos na construção de redes que começem a dar nova forma e cara ao Brasil — mais justas em termos sociais, menos violentas e mais cuidadosas com nossa biodiversidade.
Nesse sentido, ganhou notoriedade e relevância no debate público de alguns anos para cá a ideia de que a modernização e intensificação da produção agropecuária poderia, no limite, permitir o fim do desmatamento no Brasil. Aproveitando melhor as áreas já abertas, sobretudo uma pecuária mais produtiva possibilitaria incrementar a oferta de carne e cederia áreas para a expansão da produção de grãos, evitando novos desmatamentos.
Um conhecido trabalho de 2014, liderado por Bernardo Strassburg, da PUC-RJ, estimou, por exemplo, que a produtividade das pastagens cultivadas no Brasil fica entre 32% e 34% de seu potencial máximo, e que um aumento para algo entre 49% e 52% seria suficiente para atender à demanda de crescimento de carne, madeira, grãos e biocombustíveis até 2040.
Outro estudo, conduzido por Rafael Feltran-Barbieri, do World Resources Institute — este de 2021 —, sugere que a recuperação de 12 milhões de hectares de pastagens degradadas poderia gerar 17,7 milhões de bovinos adicionais, reduzindo imensamente a necessidade de abertura de novas áreas. Aponta também que mais de 77% das fazendas pecuárias brasileiras não têm assistência técnica — cerca de 131 milhões de hectares sem orientação profissional. O gargalo seria institucional, não territorial.
Outros estudos, entretanto, problematizam essa ideia de uma relação linear entre produtividade e diminuição do desmatamento. Mais de um trabalho — entre eles, a recente pesquisa coordenada por Fernando Figueiredo Goulart, da UFMG — mostra que aumentos de rendimento na atividade agropecuária não poupam terra. Ao contrário, podem levar a maiores taxas de desmatamento.
Na verdade, é preciso compreender, como mostra o trabalho de Ludivine Eloy, da Universidade de Montpellier, que a agricultura brasileira se assenta justamente na interdependência entre uma atividade moderna e tecnificada e outra, que ocorre nas chamadas fronteiras, muito mais agressiva do ponto de vista ambiental. Não é possível separá-las porque esta abre novas áreas para ocupação futura pela outra.
Em direção semelhante, outros estudos, como aquele liderado por Rachel Garrett, da Universidade de Cambridge, mostram que, sem mecanismos de governança especificamente destinados a coibir o desmatamento, a intensificação por si só não leva à preservação da vegetação. Ao contrário, tende a acentuá-la em uma espécie de “efeito rebote”.
Apesar de aparentemente contraditórios, os estudos se complementam. Tomados em conjunto, oferecem uma visão complexa à altura do problema. A evidência científica aponta os caminhos da inteligência territorial e política necessárias para atingir a meta do desmatamento zero.
O potencial biofísico para dar suporte ao aumento da produção existe de fato nas áreas já abertas. O baixo nível de tecnificação expresso pela ausência de assistência técnica demonstra que há um vazio institucional importante a ser preenchido. Mas o fato de que haja uma dinâmica que conecta, via mercado, o faroeste das fronteiras às regiões mais produtivas, evidencia o imperativo de que não adianta simplesmente intensificar sem mecanismos de governança que ajudem a “fechar as fronteiras”.
Mas o problema pode potencialmente ser resolvido apenas com peças que já estão no tabuleiro. Não é preciso inventá-las. Todavia, ao contrário daquilo em que acreditam os “tecno-otimistas”, não é possível contornar os complexos caminhos políticos e institucionais que se encontram na raiz dessas questões.
A política precisa se somar à tecnologia. A solução reside exatamente na mobilização da inteligência política necessária para usar esse conhecimento territorial para criar pontes entre atores — pessoas e instituições — que potencializem as mudanças que o conhecimento mostra serem possíveis.
Nessa semana que passou, durante o FICA, o Festival Internacional de Cinema Ambiental, promovido pela Secretaria de Cultura de Goiás e pela Universidade Federal de Goiás, realizamos um painel em torno da construção do Instituto Nacional do Cerrado, instituição criada no final de 2025 que pretende exatamente integrar o conhecimento científico e pautar as políticas públicas para nosso bioma central onde se definirá o futuro do Brasil. É a inteligência territorial se unindo à inteligência política.
