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Motoko Kusanagi em 'The Ghost in the Shell' (Imagem: divulgação)

‘The Ghost in the Shell’ finalmente dá tratamento fiel a clássico cyberpunk

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16.09.2026 - 08:30:05

Terminou na semana passada a adaptação em 10 episódios de The Ghost in the Shell, baseada no mangá de mesmo nome, publicado por Masamune Shirow nos anos 1980. A obra foi extremamente influente e ganhou uma adaptação na qual o diretor Mamoru Oshii tomou amplas liberdades, em forma de filme animado, em 1995, que, por sua vez, foi ainda mais influente, em particular entre as audiências ocidentais.

Desde então, a história ganhou sequências, prequências e spin-offs, geralmente no formato de anime, sempre com tons, estilos de animação e cores diferentes, mas sempre muito sérias e dramáticas, inclusive uma péssima versão hollywoodiana estrelada por Scarlett Johansson. Agora, tantos e tantos anos depois, o estúdio Science Saru, responsável também por Dandadan, decidiu fazer esta primeira adaptação devidamente fiel ao mangá original.

A jornada tem seus altos e baixos na aventura da major Motoko Kusanagi e da Seção 9, uma das equipes secretas da Segurança Pública no então longínquo ano de 2030. Nesta realidade, o mundo é dominado por megacorporações e interesses escusos (quase igual ao mundo real, mas mais descarado), com guerras, espiões e terroristas em todo canto.

A tecnologia e o ciberespaço fazem parte do cotidiano de um jeito natural, mas desconcertante: as ruas estão cheias de robôs e androides, e todo mundo é pelo menos meio ciborgue. Cérebros eletrônicos que podem se conectar diretamente com a rede mundial de computadores são a norma.

Enquanto o filme de 1995 chamou atenção por sua abordagem mais existencial e filosófica, com longas tomadas contemplativas e tendo como questão central se Motoko estava ou não perdendo sua humanidade, tornando-se inteiramente máquina, esse não é o caso na nova adaptação (nem no mangá original).

A major está muito tranquila no seu corpo quase 100% sintético e faz amplo e irrestrito uso dele, sem se importar quando chega a perder um braço ou quando precisa transferir sua consciência para outro corpo ou até mesmo para um cérebro eletrônico desprovido de corpo.

Tudo isso é feito com muita naturalidade e um tom de factualidade que gera grande estranhamento, mas que também forma o principal atrativo da série: essa é a vida como ela é nesta realidade, na qual ciberterroristas explodem bombas em mercados lotados, empresas controlam todos os aspectos da esfera pública e pessoas se comunicam “telepaticamente” e podem trocar de corpos se tiverem dinheiro para isso.

A Seção 9 investiga (e comete) crimes em prol do interesse público e do bem maior, sem se enredar em grandes questões filosóficas, morais e existenciais: terrorista, político corrupto e espião levam bala e fim de papo.

Outro fator que pode gerar estranhamento, mas que é totalmente fiel ao mangá, é o humor. Os temas sérios e conflitos em larga escala da trama são filtrados por um excelente elenco de personagens mercenários que zombam, brincam e cometem gafes constantemente. A própria major, nesta encarnação, tem tanta personalidade que chega a ser estranho para quem só conhece as versões muito sisudas e sérias das adaptações anteriores.

Soma-se a isso que a série é um espetáculo visual, com um traço mais cartunesco, aproximando-se do mangá dos anos 1980, com cores muito vivas e um ritmo totalmente frenético, o que também a afasta drasticamente do estilo mais realista e dos tons de cinza das versões anteriores.

Enfim, se você, como eu, esperava uma adaptação fiel ou, no mínimo, uma releitura mais fresca de uma história já recontada algumas vezes, certamente vai ficar satisfeito com essa versão. Mas, se você não conseguir se desapegar das adaptações passadas e, em particular, do filme de 1995, provavelmente essa série não é para você.

The Ghost in the Shell está disponível na Prime Video.

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por José Abrão

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

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