Logo

Desonestidade intelectual

WhatsAppFacebookLinkedInX
12.10.2015 - 11:02:32

Goiânia – Não quero falar sobre desonestidade política. Tampouco quero discutir ocultação e maquiagem de fatos para até depois das eleições. Essa prática é infelizmente antiga e comum, adotada por políticos de todos os matizes ideológicos. Quero falar sobre outro tipo de desonestidade.´

 
Sem dúvida é da natureza da política ocultar fatos, sofismar, elaborar silogismos, simular, iludir, elaborar ardis. Todas estratégias também comuns ao pôquer. Mas a ciência não é pôquer nem política, é o contrário de tudo isso. Ela só pode existir e só consegue avançar com transparência e compartilhamento de informação, formação de quadros, conceituação precisa e formulação clara de questões. E a pobreza do debate político hoje no Brasil está tentando contaminar até mesmo a ciência nesses seus pilares fundamentais. Falo da inflamada discussão sobre uma espécie de desafio lançado pela Presidência da República numa conferência da ONU, "estocar vento".
 
Qualquer discussão com base nas boas práticas da ciência deve partir da precisão das definições e das questões. Sobre o estoque de vento, portanto é isso que se deve fazer inicialmente. O que é vento portanto? É simplesmente ar em movimento. Estocar ar é fácil, já o fazemos. Nosso problema é portanto estocar o movimento. Mesmo no senso comum essa frase já evidencia um absurdo: estocar o movimento. Mas convém ver o que a tecnologia tem a dizer.
 
A fugacidade do movimento é um problema. Estocar coisas estáticas é tarefa simples: 1.000 litros d´água, 20 barris de petróleo, 50 quilos de arroz. Conseguimos até mesmo manter esse volume estocado ao longo do tempo. Já estocar algo dinâmico traz um limitador, pois o movimento se perde ao longo do tempo, como nos lembram as Leis da Termodinâmica. Mesmo assim, conseguimos armazenar energia cinética já há algum tempo. Convém lembrar dois marcos desse processo.
 
O último desenvolvimento desse tipo de tecnologia foram as maquininhas dos carros de Fórmula 1, famosas na temporada de 2009. O dispositivo Sistema de Recuperação de Energia Cinética (mais conhecido na sigla Kers, por seu nome em inglês) transforma justamente o excedente no movimento do automóvel em algum tipo de energia que possa ser guardada para aproveitamento futuro. Mas há também um dispositivo conhecido desde o Neolítico, o princípio do Volante de Inércia, aplicado na roda de fiar ou na roda dos oleiros. Não custa lembrar que esse tipo de equipamento permite o armazenamento por curtos períodos, poucos minutos apenas.
 
De volta ao chamamento presidencial, temos dois caminhos para "estocar o movimento do ar". Nossa primeira alternativa, o Kers, não consegue estocar o vento sem antes transformar sua energia em eletricidade. Já, pelo segundo caminho, nosso vento poderia colocar em movimento um volante de inércia, que em outro momento seria usado para devolver sua energia cinética acumulada. Pronto, estocamos "o vento".
 
Ou melhor, estocamos a energia cinética para aproveitamento futuro. Pelo menos parte dela. O problema é que nosso volante deveria girar portanto até o momento em que não mais haja vento. Como venta mais à noite que de dia, estamos falando de umas boas horas.
 
O sonho da energia contínua ocupa nossas mentes desde épocas medievais. O Moto Perpétuo seria a máquina ideal, uma vez colocada em movimento, teria a capacidade de executar esse mesmo movimento eternamente. Sem perda de energia. Para nossa tristeza, a primeira lei da termodinâmica mostra a impossibilidade física desse equipamento. Pelo menos nas condições físicas de nosso planeta, e muito provavelmente também em Marte.
 
Sonhar e imaginar equipamentos impossíveis faz parte do desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Mas a Presidência da República reduz o debate científico à parolagem política no momento em que usa metáforas impróprias ("estocar vento"), no momento em que dá uma responsabilidade para a comunidade científica ("ainda não conseguimos") e no momento em que embaralha conceitos e questões de pesquisa ("como é que eu faria para estocar? Hoje usamos as linhas de transmissão"). 
 
A turma de apoiadores da Presidência vai atrás do chamamento e torce o debate: a internet se encheu subitamente de defensores e atacantes. Defensores citam exemplos que nada têm em comum com o problema proposto; atacantes seguem o caminho fácil de desqualificação do interlocutor. É uma turma que só parece querer transformar ciência em política. Acho perigoso: já vimos o que essa mistura pode provocar.
 

Wolney Unes
é professor da Universidade Federal de Goiás (UFG). 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Wolney Unes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Ricardo Menegatto
15.09.2026
Novas regras mudam a relação entre consumidor e plataformas de ingressos

Comprar ingresso para um show, festival ou espetáculo deixou há algum tempo de ser uma operação simples. Filas virtuais pouco transparentes, preços que mudam em questão de minutos, taxas reveladas apenas na etapa final da compra e ingressos rapidamente esgotados por sistemas automatizados transformaram a aquisição de uma entrada em uma experiência muitas vezes frustrante […]

Fernando Schüler
13.09.2026
O dia ‘D’ da democracia brasileira

Fernando Schüler São Paulo – “Apagar dados do celular indica consciência sobre a ilegalidade dos atos praticados”, escreveu o ministro Alexandre de Moraes, em um dos argumentos para condenar a cabeleireira Débora dos Santos a 14 anos de prisão. E explicou: “se o indivíduo tivesse convicção de sua inocência, não teria motivo para eliminar registros que […]

Tia Dag
12.09.2026
A escolha de um jovem começa muito antes do vestibular

Para falar sobre o futuro de um jovem, é necessário falar também sobre as oportunidades que ele encontrou ao longo do caminho. Nenhuma escolha começa apenas no momento da inscrição em uma faculdade. Ela é construída desde os primeiros anos de escola, a partir da qualidade do ensino, do acesso à cultura, das referências profissionais, […]

Ketllyn Fernandes
10.09.2026
Comunicar é uma arte

Setembro costuma ser um mês de muitas campanhas, estatísticas e alertas sobre saúde mental. Por isso, senti de abordar o tema por outro caminho: a partir da arte. Recentemente, a artista japonesa Yayoi Kusama, um dos maiores nomes da arte contemporânea, nos deixou aos 97 anos. Durante décadas, ela falou abertamente sobre seu sofrimento psíquico […]

Ives Gandra da Silva Martins
09.09.2026
Mandato de 12 anos para os ministros do STF

A OAB de São Paulo, o Instituto dos Advogados de São Paulo e a Associação dos Advogados — três entidades representativas da advocacia paulista — têm apontado que a perda de credibilidade do Supremo Tribunal Federal decorre do fato de a Corte ter deixado de ser apenas um legislador negativo e um tribunal imparcial para […]

José Maria Franco de Godoi Neto
09.09.2026
O custo invisível das decisões empresariais

Toda decisão empresarial envolve risco. A abertura de uma nova unidade, a aquisição de outra empresa, o lançamento de um produto ou a entrada em um novo mercado exigem projeções financeiras, análises de viabilidade e estudos de mercado. No entanto, ainda é comum que um componente decisivo fique em segundo plano: o risco jurídico. Essa […]

Juliano Fagundes
09.09.2026
Inteligência Artificial analisa “A Sublime Maria de Nazaré” e identifica fundamentos históricos e profundo simbolismo na obra de Mércia Aguiar

A obra “A Sublime Maria de Nazaré”, recebida mediunicamente por Mércia Aguiar, vem despertando atenção não apenas por sua dimensão espiritual, mas também pela riqueza de elementos históricos, culturais e simbólicos presentes em sua narrativa. Com o objetivo de investigar até que ponto os acontecimentos, costumes e ambientes descritos no livro encontram correspondência com o […]

José Expedito da Silva
07.09.2026
Eleição: a festa da cidadania

Será necessária muita sabedoria para que a eleição seja, de fato, a festa da cidadania — um momento livre de hostilidades e polarizações ideológicas. Dessa forma, todos os convidados, que são os eleitores e as eleitoras, não sairão decepcionados. A Igreja Católica não apresenta nem indica candidatos e partidos políticos. Sua verdadeira missão é colaborar […]