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Tia Dag (Foto: reprodução)

A escolha de um jovem começa muito antes do vestibular

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12.09.2026 - 16:12:43

Para falar sobre o futuro de um jovem, é necessário falar também sobre as oportunidades que ele encontrou ao longo do caminho. Nenhuma escolha começa apenas no momento da inscrição em uma faculdade. Ela é construída desde os primeiros anos de escola, a partir da qualidade do ensino, do acesso à cultura, das referências profissionais, do apoio da família e da possibilidade de dedicar tempo aos estudos.

Nas periferias, esse percurso costuma exigir mais persistência, pois existem jovens que enfrentam escolas com poucos recursos, longos deslocamentos, falta de acesso e necessidade de conciliar os estudos com o trabalho e as responsabilidades em casa. Nada disso reduz sua capacidade ou seu potencial. Mas são condições que influenciam diretamente as oportunidades que estarão disponíveis no futuro.

É por isso que a pergunta “faculdade ainda vale a pena?” não pode ser respondida da mesma forma para todos. Para alguns jovens, fazer ou não uma graduação é uma decisão tomada entre diferentes possibilidades. Para outros, a faculdade permanece distante não por falta de interesse ou de talento, mas porque o caminho até ela ainda é marcado por obstáculos que começam muito antes do vestibular. E reconhecer essa desigualdade não significa afirmar que a universidade é o único caminho possível. Então, sim, a faculdade ainda vale a pena. Mas ela precisa ser uma escolha verdadeira, e não um privilégio reservado a quem teve mais oportunidades desde a infância. Há trajetórias transformadoras construídas por meio do ensino técnico, da formação profissionalizante, do empreendedorismo, da arte, da cultura e dos conhecimentos adquiridos dentro e fora da escola. O que não podemos aceitar é que a origem de um jovem determine quais dessas possibilidades estarão ou não ao seu alcance.

Os dados reforçam ainda mais essa distância. Segundo o IBGE, em 2025, o Brasil tinha 46,6 milhões de jovens entre 15 e 29 anos e desse total, 17,5%, o equivalente a 8,2 milhões de pessoas, não trabalhavam, não estudavam no ensino regular e não frequentavam cursos de qualificação profissional. Embora o percentual tenha caído em relação a 2019, quando chegava a 22,4%, o número ainda revela a quantidade de jovens que permanecem afastados de oportunidades de formação e de inserção profissional.

Esses números não falam sobre a capacidade dos jovens. Falam sobre as condições oferecidas a cada um deles. Quando a preparação, os recursos e as oportunidades são diferentes, a liberdade de escolha também é. Por isso, a educação não deve ser vista apenas como um meio de conquistar um diploma ou conseguir um emprego. Ela amplia repertórios, aproxima o jovem da ciência, da arte e da cultura, fortalece sua autonomia e permite que ele reconheça possibilidades que talvez ainda não soubesse que existiam. Educar é mostrar caminhos e oferecer ferramentas para cada pessoa poder decidir qual deles deseja seguir.

Talvez a pergunta não deva ser apenas se a faculdade ainda vale a pena. A pergunta mais importante é: o que estamos fazendo para que cada jovem tenha informação, preparação e condições reais de decidir o próprio futuro? Enquanto houver um jovem cujo futuro é decidido pela falta de oportunidade, e não pela própria vontade, ainda teremos trabalhos a fazer. A resposta não está em cobrar escolhas de quem nunca teve todas as opções à mesa. Está em garantir que cada jovem chegue ao momento de decidir com informação, preparo e caminhos reais diante de si. Esse é o compromisso que precisa ser de todos nós, pois como sempre digo: Educar é um ato de amor.

*Tia Dag é fundadora da Casa do Zezinho

 

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