Setembro costuma ser um mês de muitas campanhas, estatísticas e alertas sobre saúde mental. Por isso, senti de abordar o tema por outro caminho: a partir da arte.
Recentemente, a artista japonesa Yayoi Kusama, um dos maiores nomes da arte contemporânea, nos deixou aos 97 anos. Durante décadas, ela falou abertamente sobre seu sofrimento psíquico e sobre como a criação artística a ajudava a lidar com ele. Sua obra, marcada por repetições, cores vibrantes e universos quase hipnóticos, nunca esteve separada de sua experiência humana. Pelo contrário: a arte foi uma das formas que Yayoi encontrou para permanecer viva e em diálogo com o mundo.
A psiquiatra brasileira Nise da Silveira revolucionou o tratamento em saúde mental ao defender a expressão artística como instrumento de cuidado, escuta e reconstrução de subjetividades. Em uma época em que predominavam práticas agressivas na psiquiatria, uma médica enxergou na arte a possibilidade de comunicação capaz de revelar aquilo que nem sempre se consegue colocar em palavras.
Convivo com fragilidades emocionais desde a infância. Perdi minha mãe aos cinco anos, cresci no interior, em um contexto financeiro que buscar apoio psicológico não seria fácil. Havia tristeza, ansiedade, exaustão mental e física, mas quase nunca nome para o que eu sentia. Talvez, culpa por sentir “demais”. Foi apenas por volta dos 24 anos, após enfrentar um burnout severo em meu primeiro emprego depois de formada, que comecei a compreender que algo dentro de mim precisava de atenção.
Naquele momento da vida, eu já não pintava havia anos. Como tantas pessoas, estava ocupada demais tentando construir um futuro, recém-casada, apartamento para pagar. Trabalhava sem parar, acumulava responsabilidades e acreditava que seguir produzindo era sinônimo de seguir bem.
Até que deixei de funcionar. Busquei, ou melhor, tive acesso ao acompanhamento psicológico. Recebi uma sugestão aparentemente simples: voltar a desenhar.
Comprei alguns lápis aquareláveis, folhas e recomecei. Meio desajeitada, como quando ficamos sem andar de bicicleta. Mas o punho tem memória parecida com a das pernas. Fui pegando o ritmo.
O que aconteceu a partir dali eu jamais teria planejado. Pouco tempo depois, estava vendendo meus primeiros desenhos. Vieram os quadros, as encomendas, as feiras, o contato com outras mulheres artistas, clientes e alunas. Sem perceber, entrei no que costumo chamar de empreendedorismo artístico.
Mas a maior transformação não foi profissional. A aquarela me salvou. A água, as nuances, os imprevistos, a aceitação do suposto erro, que lá na frente se mostra detalhe de destaque.
Não porque substituiu terapia, acompanhamento médico ou qualquer tratamento. Não substituiu. Mas porque me ofereceu algo igualmente necessário: um espaço de presença. Entre água, pigmentos, erros, camadas e silêncios, comecei a me compreender melhor. E, junto com isso, passei a compreender melhor as outras pessoas.
Ao longo dos anos, houve recaídas, mudanças de medicação, tentativas de interromper tratamentos antes da hora e longos períodos de dúvida. Em 2019, com acompanhamento profissional, deixei os medicamentos. Continuei seguindo entre altos e baixos até este ano. Após um puerpério que talvez pudesse ter sido mais leve, percebi novamente que precisava de ajuda. Busquei atendimento médico, revi rotinas, fiz ajustes e retomei cuidados que havia deixado pelo caminho.
Hoje, alguns meses depois, tenho a sensação de estar me conhecendo pela segunda vez. Descobri que não preciso ser melancólica para produzir arte sensível. Que sofrimento não é requisito para profundidade. Que gosto de gente, que fazer planos é gostoso, ter ambições nos levam a dar passos e que desejar felicidade é direito humano.
Continuo chorando de vez em quando. Às vezes por TPM. Às vezes porque a vida realmente é difícil. Tem o mundo, as notícias, o trânsito… E tem também encantamento, ipês florindo, crianças nascendo, vida acontecendo fora das telas. Ainda existem livros que quero ler e gostaria de ter mais tempo de reler, materiais de arte que quero experimentar, lugares que quero conhecer e pessoas raras que tenho guardado nos potinhos simbólicos.
A Organização Mundial da Saúde tem destacado, nos últimos anos, evidências de que as atividades artísticas podem contribuir para o bem-estar, para a promoção da saúde e para processos de recuperação e enfrentamento de diferentes condições de saúde. Uma revisão com milhares de estudos identificou benefícios da arte em múltiplas dimensões da vida humana.
Criar manualidades nos lembra que somos mais do que nossos diagnósticos.
Escrevo este artigo com a esperança de que outras pessoas deixem de sentir culpa por precisar de ajuda. Saúde mental não é falta de força, nem defeito de caráter. Não precisamos suportar tudo sozinhos. A arte é uma amiga de todas as horas e fases, assim como olhar para dentro, aceitar apoio e recomeçar, quantas vezes forem preciso!
Vamos colorir os dias cinzas?!
Ketllyn Fernandes é artista plástica, jornalista, pós-graduada em Jornalismo Digital e pós-graduanda em Gestão Cultural pela Universidade Estadual de Goiás
