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Comida na horta da escola no Negrão de Lima

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25.10.2011 - 14:06:09

Muitas notícias recentes dão conta de que a qualidade da alimentação no Brasil não anda muito boa. Mais gente tem acesso à comida, mas mais gente ainda tem deixado o arroz com feijão de lado para se entupir de bolachas, refrigerantes e hambúrgueres. As crianças, consequentemente, estão com excesso de peso e doenças, como hipertensão.

Sempre fico chocada quando me lembro de uma jovem pesquisadora de São Paulo, chamada Marina Vianna Ferreira, que em um trabalho com uma comunidade de pescadores em Cananéia (SP) notou que eles não comiam mais peixes. No lugar, macarrão com molho pronto de tomate. Observou que a pesca se tornara uma atividade econômica, e não mais de subsistência. E que as mulheres haviam largado a roça no quintal para dedicar-se a trabalhos urbanos, como domésticas ou vendedoras em lojas.

Outro dia, eu estava numa escola municipal no bairro Negrão de Lima, região nordeste de Goiânia. Por acaso, era hora do almoço, e percebi nos pratos das crianças de seis anos que não havia nenhum vegetal cru ou verde, ingredientes essenciais para uma dieta saudável. Comer bem na infância é importantíssimo, considerando que aí se formarão hábitos a serem levados para a vida inteira, e que a boa nutrição garante o desenvolvimento pleno desse organismo em crescimento.

Nas escolas particulares, faz muito tempo, é comum que as crianças lanchem esfirra, enroladinho de salsicha e coxinha com Coca-Cola ou guaraná. Mas, hoje, a situação é incrivelmente pior! Onde já se viu, o lugar que deveria servir de exemplo e cuidar da criança e do adolescente, deixar que redes de fast food façam propaganda dentro de uma escola?

Neide Rigo, uma nutricionista paulista cujo blog (Come-se) contribui muito para o mundo ser um lugar melhor, escreveu um dia sobre como é possível que a gente dê aos nossos filhos, no café da manhã, sucrilhos com leite de caixinha, a exemplo dos filmes americanos? A justificativa para enchermos a despensa com pacotes, embalagens plásticas e caixas tetrapak geralmente é a “correria”. Mas de vez em quando eu paro e me pergunto: o que será mais importante do que comer bem?

Nesse dia, vou à feira.

Vou também à escola do Negrão de Lima, onde começamos uma pequena horta com os alunos da minha amiga Ellen. Levou algumas semanas até que organizássemos tudo. Conseguimos que um pessoal da Prefeitura de Goiânia, que está trabalhando com hortas nas escolas, nos fornecesse quatro pneus de caminhão para servir de canteiro; que uma empresa em um bairro vizinho nos cedesse a terra, retirada da fundação de uma obra; que a diretora da escola, Ismênia, emprestasse um pouco de calcário e mudas de cebolinha; que o Rodrigo, da Fazenda Mata do Algodão, em Senador Canedo, nos levasse o esterco bovino e nos ajudasse a misturá-lo com a terra (a bem da verdade, nós é que o ajudamos). E que o Paulo Marçal, engenheiro agrônomo e professor da UFG, conseguisse um tempinho para nos dar sua preciosa orientação. Comprei sementes, pazinhas, ancinhos e uma pequena enxada.

De cara, algumas crianças, meninos e meninas, se enojaram com o esterco, urgh, é cocô de vaca? Eu não vou pegar em cocô de vaca!, mas em questão de minutos ficou difícil fazê-las largar os canteiros. Era o preparo do “berço” para as sementes, como ensinou o Paulo. Imagine, mesmo antes de plantar qualquer coisa ali, durante o recreio vários deles iam visitar o cantinho da futura horta, querendo oferecer seus cuidados.

Durante duas semanas, as 30 e poucas crianças prepararam a terra. Misturaram bem com o esterco e molharam, todos os dias. O solo ganhou um novo aspecto, ficou fofo e até minhocas apareceram. Minhocas, para quem não sabe, dão um auxílio nobilíssimo para garantir um solo saudável. Transformam matéria orgânica em húmus e sua movimentação areja a terra e permite a passagem de água, oxigênio e nutrientes.

Na última terça-feira (18/10), finalmente o solo estava pronto. Não sei quem era mais ansioso, se as crianças, ou eu e a Ellen. O Paulo foi lá, chamou-as pelo nome do canteiro – Maria Alface, Diogo Rúcula, Lívia Cenoura – fez os sulcos, mostrou como se plantava e deu as sementes nas mãos de cada uma. Ensinou que tinham que tampar a terra cuidadosamente, cobrir com serragem (doada por uma marcenaria próxima), molhar e pronto. Pensa numas crianças animadas! Agora é cuidar e esperar.

Conheci o Fúlvio Iermano, do Slow Food, recentemente. Ele vem fazendo hortas e outras atividades com crianças em Batatais (SP), onde vive, e também nos deu várias dicas. Achei uma delas preciosa. Manifestei que me preocupava com as sementes que iríamos utilizar na escola, pois às vezes acontece de elas não vingarem. Nisso, as sementes industrializadas (mantidas com conservante) são mais “eficientes”, em comparação às crioulas (aquelas guardadas pelo agricultor a cada safra, para o plantio seguinte) – que eu, leiga, temia que acabassem gerando frustração nas crianças, caso não se desenvolvessem. Sabe o que o Fúlvio falou? Que seria apenas mais um aprendizado para a vida delas.

No ano passado, ouvi outra pessoa de Batatais ligada ao Slow Food, a professora Joyce Bergamo Raymundo, lembrando que as crianças aprendem a gostar do que os adultos as ensinam. Podemos oferecer mais do que salgadinhos fritos empacotados, não podemos?

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por Elisa A. França

*Jornalista formada pela UFG, especializada em comunicação ambiental, com passagem pelo Greenpeace e pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

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