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As fichinhas do general

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08.08.2023 - 07:50:32

O sol amazônico atravessava as janelas de vidro e refletia no piso claro do salão, tornando inútil todo o esforço do potente aparelho de ar condicionado. Do lado de fora, entre as empenas dos edifícios e os telhados das casas, eu via uma fatia do Rio Negro e a faixa densa de floresta que o contornava do outro lado. Cá dentro, meus colegas, suados, tentavam se manter acordados na modorra do início da tarde manauara enquanto esperávamos nosso convidado de honra.
 
Pontualmente, às 14 horas, ele chegou, imune ao calor equatorial, com farda camuflada e os cabelos impecavelmente penteados de lado. Seguia-o, um ajudante de ordens, de aparência igualmente impoluta, que carregava uma gorda pasta sanfonada. Acompanhava-o ainda, um senhor, em traje civil, de cabelos brancos e aparência bonachona.
 
Afável, o convidado principal nos cumprimentou, um por um, sorriso amável, aparentemente não fazendo conta dos trajes e aparências descuidados – Havaianas, camisetas, bermudas, tatuagens, brincos, barbas e cabelos desgrenhados. Não que fôssemos os Novos Baianos, mas, comparados ao rigor de sua aparência e da de seu subordinado, parecíamos  efetivamente recém saídos de Woodstock.
 
“Muito boa tarde”, saudou,”é um prazer estar com vocês. Sou o general Eduardo Villas Bôas, Chefe do Estado Maior do Comando Militar da Amazônia”. Em seguida, apresentou-nos seu ajudante de ordens e seu acompanhante, “um amigo pertencente a um dos clãs mais prestigiosos do estado do Amazonas, a família Daou”.
 
Vão-se praticamente 18 anos desse outubro de 2005. Num seminário para formação de lideranças, promovido pelo programa LEAD, criado na década de 1990 pela Fundação Rockfeller, discutíamos os rumos da Amazônia com nomes importantes de diferentes setores do governo e da sociedade. Naquela tarde, o programa incluía uma conversa com o General Villas Bôas que, dez anos depois, se tornaria Comandante do Exército e uma das figuras-chave do bolsonarismo.
 
Foi um bate-papo franco e amistoso a despeito do choque de visões. O general fundamentava seus pontos de vista solicitando, a toda hora, a seu ajudante de ordens que pescasse fichas de papel na pasta inchada que carregava – aparentemente um arquivo de inteligência; delas, o militar citava informações ou passagens que confirmavam ou ilustravam as ideias que defendia: números ou frases ditas por este ou aquele político ou ambientalista em determinado dia e em certo lugar.
 
As opiniões do general eram francamente conspiratórias, o já conhecido caldo que parte da paranoia a respeito da cobiça internacional para justificar a ocupação econômica e militar da Amazônia. Tudo temperado pelas críticas à presença de organizações não-governamentais e aos excessos e perigos do ambientalismo.
 
Em dado momento, o amigo do general, à vontade no ambiente de discussão aberta, coroou a opinião de nossos interlocutores com um fecho à sua altura: “Se eu encontrasse alguém do Greenpeace aqui, atirava por essa janela”. 
 
Olhei tenso para meu amigo André, na cadeira ao lado, que exercia, naquela época, a função de assessor de comunicação em Manaus da prestigiosa ONG internacional. Por via das dúvidas, e por nos encontrarmos no sexto andar, permanecemos calados, apesar de nossa fé àquela época na solidez das instituições brasileiras.
 
Descrevo esse encontro singular porque, volta e meia, ele retorna à mente quando me deparo com os renovados ataques da extrema-direita, não apenas à defesa do meio ambiente, mas aos princípios mais básicos da civilidade e da república. Entre os da semana que se passou, tivemos seu regozijo com a ação de vingança aberta e descarada da polícia paulista, com um saldo de 16 mortes, após o assassinato de um soldado por bandidos na Baixada Santista.
 
A despeito do verniz de civilidade e dos modos de salão, a visão de mundo ignorante e os impulsos bárbaros já se encontram todos nesta cena de 18 anos atrás às margens do Rio Negro. Creio poder dizer que eu e todos os meus colegas naquela sala, olhávamos, entretanto, de forma ingênua, quase com ternura, para a performance do general e seu amigo. Nós a encarávamos como um resquício folclórico do conservadorismo e da caserna, um exotismo fóssil fadado a desaparecer. Desnecessário dizer que, evidentemente, estávamos completamente equivocados.
 
O equívoco não torna, entretanto, sem sentido a pergunta: o que aconteceu de lá para cá? O que fez opiniões como a do General Villas Bôas e do velho Daou ganharem relevo na praça pública a ponto de se tornarem política de governo? O que legitimou retóricas como a do oligarca amazônico, levando-as a se desdobrarem em ação, com as mortes brutais de dezenas de defensores do meio ambiente, como Bruno Pereira e Dom Phillips? O que permitiu que o mesmo Villas Bôas, já Comandante do Exército, se sentisse à vontade para ameaçar o Supremo Tribunal Federal, em 2018?
 
Socorre-nos a psicanálise. Na base de todas as opiniões extremistas – à direita ou à esquerda -, reside um desejo de supressão do outro. A floresta a ser derrubada, o indígena a ser “civilizado”, a mulher violentada, são apenas faces diversas de uma mesma diferença que o extremista não tolera por obrigá-lo a relativizar seu próprio ser, seus valores e suas crenças. O modo de viver ou a opinião moral diferentes questionam suas convicções de forma insuportável e o empurram para navegar em um mundo complexo e sem absolutos, onde é muito mais difícil atribuir sentido à própria vida.
 
Mais que na luta darwiniana pela sobrevivência, é no território moral que se assenta a barbárie contra a qual erigimos as ideias da República e do Estado democrático de direito. Não é, portanto, que as falas do general, com suas fichas, indicassem o ressurgimento de algo que lográramos extinguir. O fato de que um alto representante das instituições do Estado já se sentisse ali à vontade para expressá-las com naturalidade apenas mostrava que nossa democracia não estava tão sólida quanto ingenuamente imaginávamos. 
 
As instituições democráticas são, em essência, um neutralizador da barbárie e da incivilidade que, não obstante, estão sempre entre nós e nunca nos abandonam. Essas instituições demandam todavia combustível permanente, na forma de cidadania sempre renovada e ampliada. Quando a cidadania se enfraquece, o antídoto democrático à barbárie perde sua eficácia e a incivilidade e o autoritarismo saem do armário, onde apenas dormiam guardados no escuro.
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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