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Abraçar a dúvida

26.12.2023 - 11:27:24
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Viver é em essência o exercício cotidiano da construção de sentido. Tautologicamente. Vivemos para encontrar sentido e encontramos sentido para seguir vivendo. Quando essa roda falha, adoecemos. 
 
Primeiro, na infância, aceitamos os sentidos que nos são dados. Jovens, afirmamos um significado que julgamos ter descoberto para, pouco depois, perdê-lo. 
 
"Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma", disse o psicanalista Hélio Pellegrino.
 
A possibilidade então de tornarmo-nos adultos requer abraçar a dúvida e adotar a pergunta como estilo de vida. É preciso baixar as expectativas, desidealizar o mundo e o futuro, ao outro e a si mesmo, sentir-se confortável com o mistério, achar graça no próprio enigma e seguir sempre perguntando, mesmo sabendo que nunca haverá resposta.
 
Há, entretanto, aqueles que não suportam o peso do mistério e tentam retornar à infância. Agarram-se a religiões, a ideologias, a ídolos, a líderes populistas, a gurus ou a qualquer ideia que possibilite seguir negando a própria impotência e se acreditando onipotente.
 
Há também os que, diante da constatação da impossibilidade de afirmar, optam pela ironia perene e se recolhem, amargos, para ruminar uma misantropia cada vez mais profunda. Sua impotência é preferível à ilusão da onipotência. Todavia, à medida em que seu ressentimento se acumula não é raro darem um passo atrás e regressarem à autossuficiência afirmativa da juventude, mas agora sem qualquer vestígio de esperança, numa febril e desesperada afirmação apenas de si mesmos.
 
Sem dúvida, não convém idolatrar o ser humano, nem projetá-lo em utopias. Somos apenas o resultado provisório de um experimento muito maior que nós e que nunca chegaremos a compreender. Como apontava o crítico literário Harold Bloom, "somos vividos por forças muito maiores que nós".
 
Amadurecer e fazer a dura opção de se tornar adulto depende de uma difícil travessia, pois sentimos que, sem poder afirmar, caímos no vazio da falta de sentido. Surge à nossa frente um caudaloso e feroz rio de lava, um potente círculo de fogo que ameaça nos queimar, um profundo precipício cujas bordas ameaçam desabar sob nossos pés. 
 
É compreensível que recuemos ou que nos encolhamos enquanto o fogo consome todo o oxigênio e as labaredas crescem. Todavia, se por um instante formos capazes de suspender a descrença e nos lançarmos, num elegante mergulho, magma adentro, em um estalo, o rio desaparece, as chamas se desfazem. 
 
O sentido não está dado do lado de fora, não é algo a ser descoberto ou revelado. Ele é refeito e redescoberto a cada dia, pois é possibilidade somente humana, um duro dom que nos é concedido – por Deus ou pelo acaso, tanto faz – e do qual precisamos nos mostrar à altura. É necessária alguma coragem, muita humildade, bastante curiosidade – a curiosidade da criança, o ímpeto do jovem, a humildade de quem se viu no escuro, sozinho e amedrontado. Humildade de quem entendeu que, no fundo, não é nada – um nada, porém, a quem, no meio do infinito do espaço e do tempo, foi concedida a graça da consciência e o pequeno poder de olhar para o universo e perguntar: o que é isso e quem sou eu?
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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