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A violência no mundo e nas páginas

02.01.2024 - 09:59:57
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2023, mostram as estatísticas, foi um ano particularmente violento. Segundo a Pesquisa de Conflitos Armados do IISS, o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, houve 14% mais pessoas mortas em 2023 em relação a 2022: 267,7 mil perderam a vida em função de conflitos armados. Esse número só é superado, depois da Segunda Guerra, pelos anos de 1950, quando eclodiu a Guerra da Coreia, e de 1994, em que ocorreu o genocídio em Ruanda.
 
O Brasil ocupa lugar de destaque em função do recrudescimento da violência associada ao narcotráfico e ao crime organizado. Ocupamos o terceiro lugar no mundo em eventos violentos (10,6 mil) e o sexto, em mortes (8,3 mil).
 
Para além da violência física, que resulta em sangue e mortes, vivemos um clima permanente de violência no ambiente de polarização que tomou conta do mundo e do país, com a intolerância e o sectarismo dividindo famílias e fomentando o ódio entre as pessoas.
 
Talvez por isso, várias das leituras que marcaram esse ano que se encerrou contem histórias de violência ou analisem esse fenômeno, a começar por um dos últimos livros lidos em dezembro, o fundamental Biografia do Abismo, um dos mais relevantes lançados em 2023 e absolutamente necessário para pensarmos 2024 e o Brasil nos próximos anos.
 
Biografia do Abismo, de Felipe Nunes e Thomas Traumann
 
A decisão de voto, mostram os autores, não tem mais a ver unicamente com as questões da esfera pública, como alternativas de políticas públicas, propostas econômicas, papel e tamanho do Estado. O voto hoje se tornou uma questão de identidade e valores morais.
 
Com isso, a política transbordou para a esfera privada e contaminou todos os aspectos da vida. Vivemos, desta forma, um clima eleitoral contínuo em que as opiniões políticas afetam inclusive escolhas em outros aspectos da vida, como relações afetivas e escolhas de consumo.
 
O resultado é uma sociedade rachada. Cada metade do país habita, em larga medida, universos que não se comunicam e não têm praticamente nada em comum. Pior ainda, nessa estrutura polar, quem está do outro lado é visto como verdadeiro obstáculo a minhas aspirações pessoais e de mundo. Preocupante.
 
Chapadão do Bugre, de Mário Palmério
 
Dessa leitura de fim de ano, pulo para o primeiro livro lido em 2023, que não por acaso escorre sangue. Releitura, na verdade, o fantástico Chapadão do Bugre, de Mário Palmério, é um clássico do regionalismo brasileiro que anda um pouco esquecido, mas que merece lugar de destaque na literatura nacional, junto com Vila dos Confins, do mesmo autor, que narra os detalhes de uma campanha política nos rincões de Minas Gerais em meados do século 20. 
 
Em ambas as histórias, a violência dá a tônica das relações cotidianas, orientadas pelo coronelismo, pelo compadrio e pela vingança. Quem conhece as engrenagens da disputa pelo voto, sabe que, mesmo um século depois, a estrutura do poder não mudou tanto assim – a combinação entre desigualdade social, patrimonialismo e violência continua ditando a política.
 
Escute as Feras, de Nastassja Martin
 
Embora lançado no Brasil em 2022, essa foi uma leitura – e das mais perturbadoras – de 2023. Antropóloga, a autora parte para uma expedição etnográfica junto aos Even, povo indígena das florestas siberianas. A pesquisa entretanto toma um rumo inusitado após um encontro inesperado e violento com um urso que a ataca e fere seriamente. Essa experiência radical de alteridade suscita então uma reflexão única sobre a fronteira entre o humano e o natural, o mito e a história, sobre identidade. É também uma narrativa que nubla as fronteiras entre etnografia e ficção, mito e ciência, relato pessoal e análise.
 
Arrabalde, de João Moreira Salles
 
Fruto de uma extensa expedição à Amazônia, Arrabalde: Em Busca da Amazônia é uma profunda reflexão sobre a relação do Brasil com essa região e bioma que compõe a maior parte de nosso território e que é um elemento de disputa essencial para o futuro do país e da humanidade. João Moreira Salles mostra como nosso desconhecimento da Amazônia é, de certa forma, uma opção política, pois o conhecimento impõe algum nível de compromisso ético. Na ausência desse tipo de laço, a ocupação do bioma a qualquer preço pode continuar sendo vista como verdadeira obrigação humanista e civilizatória. A consequente ausência do Estado é também uma opção, com o caos fundiário e a inação das instituições servindo aos interesses do crime e do patrimonialismo, que lucram com a violência e a apropriação do patrimônio público.
 
O Que é Meu, de José Henrique Bortoluci
 
O que mais chama a atenção do livro de Bortoluci é a ausência de qualquer traço de pretensiosidade. Este é um livro simples, fundado unicamente no compromisso afetivo do autor com seu pai, seu Didi, caminhoneiro que percorreu o Brasil todo, desde  os anos 1960 e acompanhou, portanto, o processo de transformação social radical que nos trouxe a este país que conhecemos. É o Brasil visto a partir de suas fronteiras econômicas e pela lente dos excluídos do butim das suas riquezas. 
 
Por essa via, o livro é também um relato sobre a violência cotidiana que segue fundando e refundando o país, e é igualmente um belo contraexemplo do mal que quase sempre o engajamento político faz às narrativas. Em O que é Meu, a partir dos relatos de seu Didi e do diálogo de Bortoluci com suas histórias, emergem todo o Brasil, sua desigualdade e suas injustiças, sem que para isso seja necessário erguer bandeiras ou assumir uma postura de denúncia. Por isso mesmo, o livro é muito mais impactante que qualquer panfleto.
 
Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves
 
Lançado em 2006, Um Defeito de Cor é resultado de um monumental trabalho de pesquisa sobre a história da escravidão na África e no Brasil. Inspirada na história de Luísa Mahin, personagem de existência controversa, possível mãe do advogado e líder abolicionista Luís Gama, a narrativa conta a vida de uma africana trazida escravizada do Reino de Daomé para o Brasil no século 19. É sobretudo um retrato rico, em sua brutalidade, da escravidão como elemento central da construção do Brasil. 
 
Vento de Queimada, de André de Leones
 
Fechei o ano com o último livro desse autor, que recebeu o Prêmio SESC de Literatura por Hoje está um dia morto. Ambientado entre Goiânia, Brasília e o sudeste de Goiás, Vento de Queimada conta a história de Isabel, uma jovem matadora de aluguel, nos estertores da Ditadura Militar, imersa em uma trama de vinganças que vai revelando os estreitos laços entre a política e o crime. É um testemunho da maneira pela qual a violência nos constitui a todos. O estilo telegráfico de Leones, em que o fluxo de pensamento dos personagens dita a narração, suga o leitor e o carrega numa correnteza de ações, emoções e reflexões que nos fazem sentir no estômago a jornada de violência.
 
Se não deixará de existir, por ser parte do humano, que em 2024 a violência se limite mais às páginas dos livros, onde pode ser ressignificada e nos ensinar algo.
 

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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