Logo

A participação da sociedade civil na gestão pública brasileira

WhatsAppFacebookLinkedInX
08.12.2015 - 10:12:39

Por Marcelo Safadi*
 
A participação da sociedade na gestão de serviços sociais e serviços essenciais nunca foi consenso, e nem sempre as afirmações e objeções foram as mesmas. Num primeiro momento, nos anos 1990, são realizadas as concessões, terceirizações e privatizações de serviços e infraestrutura por grandes empresas. Ao mesmo tempo surgiram as OSCIPs, que atuaram brilhantemente nos programas de combate a Aids e no atendimento a comunidades com o Programa Comunidade Solidária, operada em grande parte por ONGs.
 
As ações realizadas pelas OSCIPs e ONGs como fundações, associações e institutos, foram ganhando corpo nos anos de 2000, até surgirem vários escândalos envolvendo ONGs. A mídia então se encarregou de colocar todas as ONGs no mesmo saco, tornando estas entidades sinônimo de corrupção e de má gestão.
 
As Organizações Não Governamentais foram os primeiros modelos de participação da sociedade civil nas atividades e serviços públicos, assim como na realização de parcerias e convênios como Governos Federal e Estadual.
 
A lei das ONGs obriga a uma atuação "voluntária" dos seus dirigentes e aqueles que se dedicavam em tempo integral tinham que fazer artifícios para poder receber remuneração. É claro que no meio de milhares de entidades bem intencionadas e bem geridas surgiram os picaretas que jogaram a imagem das ONGs no lixo.
 
Neste contexto surgiram as OSCIPs e OSs, entidades pequenas, vinculadas objetivamente a um grupo de pessoas responsáveis diretos por elas. O quadro técnico é parte do acervo das Organizações Sociais. E a remuneração pelas atividades pode ocorrer de forma clara e transparente. Houve a profissionalização das ONGs. O fim da hipocrisia.
 
Mas, se as ONGs, OSs e OSCIPs são a forma da sociedade civil organizada atuar na gestão do País, por que as próprias ONGs sindicais e grupos políticos de esquerda são contra sua atuação na saúde e educação? 

Atualmente a gestão compartilhada de eventos, infraestrutura, gestão administrativa de serviços socais e mesmo a operação dos serviços sociais são uma realidade no Brasil. No caso da saúde o resultado tem sido objetivamente positivo.
 
Grupos de médicos constituíram OSs e assumiram as gestões de Unidades de Saúde. O Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo) já se tornou referência de residência na área de Traumatologia e Urgência. O Crer fez história no Brasil, no caminho criado pela rede Sarah, em Brasília, também gerida por um grupo de pessoas do setor privado. As Santa Casas no Brasil inteiro sempre foram um exemplo de OSs na Saúde e agora podem atuar com mais transparência e segurança jurídica com a evolução do Marco Regulatório das OSs na Saúde.
 
Na educação tenho convicções semelhantes, que um processo compreendido e encaminhado pela sociedade sem o conservadorismo e atitudes reacionárias será possível avançar.
 
Associando o fato de termos no Brasil uma das aposentadorias mais precoces do mundo, perdemos todos os anos um enorme grupo de profissionais e os condenamos ao ostracismo. Na educação e em especial nas universidades públicas perdemos milhares de professores por ano, ainda em idade competitiva. Por que estes professores não se unem com amigos gestores e montam suas OSs?
Por que os sindicatos de professores, doutores, ex-professores universitários não se organizam em pequenas OSs? Por que as instituições sindicais querem as Organizações de Trabalhadores nos Conselhos Federais e nãos as querem no comando de ações e atividades públicas?
 
O debate se tornou partidário e não mais ideológico, pois, se assim fosse, as entidades de trabalhadores da educação estariam vendo uma grande oportunidade para ocupar um espaço na educação brasileira, mostrando sob a ótica do professor como a educação pode ser feita.
 
Quem era revolucionário se tornou conservador, quem queria estabilidade hoje quer revolução, uma nova ótica sobre o Estado e o papel dos governos e da sociedade. Viva quem tem coragem de ir em frente. Viva aqueles que debatem conteúdo e ideias e não se deixam influenciar por cores partidárias na hora de pensar o futuro do País.
 
*Marcelo Safadi é diretor da Articum Comunicação e Marketing
 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Marcelo Safadi

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Ricardo Menegatto
15.09.2026
Novas regras mudam a relação entre consumidor e plataformas de ingressos

Comprar ingresso para um show, festival ou espetáculo deixou há algum tempo de ser uma operação simples. Filas virtuais pouco transparentes, preços que mudam em questão de minutos, taxas reveladas apenas na etapa final da compra e ingressos rapidamente esgotados por sistemas automatizados transformaram a aquisição de uma entrada em uma experiência muitas vezes frustrante […]

Fernando Schüler
13.09.2026
O dia ‘D’ da democracia brasileira

Fernando Schüler São Paulo – “Apagar dados do celular indica consciência sobre a ilegalidade dos atos praticados”, escreveu o ministro Alexandre de Moraes, em um dos argumentos para condenar a cabeleireira Débora dos Santos a 14 anos de prisão. E explicou: “se o indivíduo tivesse convicção de sua inocência, não teria motivo para eliminar registros que […]

Tia Dag
12.09.2026
A escolha de um jovem começa muito antes do vestibular

Para falar sobre o futuro de um jovem, é necessário falar também sobre as oportunidades que ele encontrou ao longo do caminho. Nenhuma escolha começa apenas no momento da inscrição em uma faculdade. Ela é construída desde os primeiros anos de escola, a partir da qualidade do ensino, do acesso à cultura, das referências profissionais, […]

Ketllyn Fernandes
10.09.2026
Comunicar é uma arte

Setembro costuma ser um mês de muitas campanhas, estatísticas e alertas sobre saúde mental. Por isso, senti de abordar o tema por outro caminho: a partir da arte. Recentemente, a artista japonesa Yayoi Kusama, um dos maiores nomes da arte contemporânea, nos deixou aos 97 anos. Durante décadas, ela falou abertamente sobre seu sofrimento psíquico […]

Ives Gandra da Silva Martins
09.09.2026
Mandato de 12 anos para os ministros do STF

A OAB de São Paulo, o Instituto dos Advogados de São Paulo e a Associação dos Advogados — três entidades representativas da advocacia paulista — têm apontado que a perda de credibilidade do Supremo Tribunal Federal decorre do fato de a Corte ter deixado de ser apenas um legislador negativo e um tribunal imparcial para […]

José Maria Franco de Godoi Neto
09.09.2026
O custo invisível das decisões empresariais

Toda decisão empresarial envolve risco. A abertura de uma nova unidade, a aquisição de outra empresa, o lançamento de um produto ou a entrada em um novo mercado exigem projeções financeiras, análises de viabilidade e estudos de mercado. No entanto, ainda é comum que um componente decisivo fique em segundo plano: o risco jurídico. Essa […]

Juliano Fagundes
09.09.2026
Inteligência Artificial analisa “A Sublime Maria de Nazaré” e identifica fundamentos históricos e profundo simbolismo na obra de Mércia Aguiar

A obra “A Sublime Maria de Nazaré”, recebida mediunicamente por Mércia Aguiar, vem despertando atenção não apenas por sua dimensão espiritual, mas também pela riqueza de elementos históricos, culturais e simbólicos presentes em sua narrativa. Com o objetivo de investigar até que ponto os acontecimentos, costumes e ambientes descritos no livro encontram correspondência com o […]

José Expedito da Silva
07.09.2026
Eleição: a festa da cidadania

Será necessária muita sabedoria para que a eleição seja, de fato, a festa da cidadania — um momento livre de hostilidades e polarizações ideológicas. Dessa forma, todos os convidados, que são os eleitores e as eleitoras, não sairão decepcionados. A Igreja Católica não apresenta nem indica candidatos e partidos políticos. Sua verdadeira missão é colaborar […]