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A Paris que ninguém me contou

28.10.2011 - 22:28:02
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Paris, Paris, Paris. Quando foi a primeira vez que a imagem da Torre Eiffel apareceu para mim? Desde quando a gente tenta imitar o sorriso da Monalisa? Quem me disse, pela primeira vez, que as francesas têm um charme que é só delas? Há quanto tempo assisti Amélie Poulain e desejei fazer tudo que ela faz em Paris? É isso. Sou eu e outros 59.999.999 milhões de pessoas, por ano, que viemos visitar uma das cidades mais famosas do mundo. E pelo tamanho da fama, o tamanho do meu receio. “E se eu chegar lá e disser: então é isso?”. E ainda bem que não me contaram tudo de Paris. E foi bom eu não pesquisar nada, porque a internet é incrível, mas tira graça de tudo também.

Primeiramente, não imaginava respirar história o tempo todo, a cada esquina, a cada fontezinha d’água potável, que foi coisa de Napoleão III durante a reforma urbana no século XIX. Na grandeza e beleza do palácio de Versailles, que só poderia ser coisa do abusado do Luís XIV. Além da cidade corresponder à grandeza de sua fama, há coisas que só chegando lá para se encantar. E há outras, que devo agradecer a oportunidade de ter um amigo, que cursou filosofia comigo, morando por lá, estudando artes. Nacionalizado francês, Pedro está há pouco tempo em Paris, mas já conhece a cidade e os franceses muito bem. Cheio de manhas, estórias, história, dados e cultura geral, tive um guia de luxo, modéstia a parte, que me ensinou muita coisa (que inclusive consta nesse texto).

O que ninguém me contou é que a cidade do glamour e da civilidade é também a ville da rebeldia, da mistura, do underground. Paris dos contrastes: é essa a imagem que levo dessa capital. Eu não imaginava que parisienses gostavam de atravessar faixa de pedestre quando não é permitido e que pular catraca é corriqueiro. Que a Notre Dame é linda e sua arquitetura gótica é fascinante, talvez eu já imaginasse. Mas não sabia que, quando entrasse, veria um padre negro celebrando uma missa. E que quando saísse haveria um casal japonês vestido de noivo tirando fotos enquanto, ao lado, um mendigo descansa.

E a torrezinha famosa! Talvez eu ficasse satisfeita com a vista que tive dela ali de longe, num belo pôr do sol com Sena compondo visual. Mas valeu chegar mais perto. Não pela vista mais privilegiada, mas pelo show de hip hop (ou ipóp, em francês) ali no Trocadero, próximo à Eiffel. E são eles, os artistas de rua que dão movimento e graça ao que parece parado. Foi o mesmo que os meninos bons de bola fizeram em Montmartre. Compondo o belo visual da vista ali sentado na grama da Sacré Coeur, uns ousadinhos faziam embaixadinhas e muita graça com a bola em cima de um poste.

Na minha primeira noite parisiense, um programa francês! Fomos a um piano bar. Pedro contou que lá havia um pianista que sabia tocar músicas brasileiras e que quem quisesse, poderia cantar. Quem sabe, depois de uns bons vinhos, eu não me arriscasse, né? Jamais! Chegando lá, uma pianista mandando ver nas músicas clássicas, enquanto uma mulher cantava ópera. Logo depois, um homem assume um piano e uma mademoiselle assume o vocal. Um Je ne veux pas travailler de cara, para eu babar. Com uma fineza e sutilidade impecáveis, fez a graça de uma turista em Paris, com muito Edith Piaf no repertório. Depois, um outro rapaz assume o piano com um soul, volta o pianista e outro canta Beatles. E por aí vai, sem que ninguém tirasse uma nota do lugar. Intimidei-me e me contive em minha cadeirinha de turista babona.

O que eu não sabia é que ali embaixo daquele espaço que parecia bem clássico, havia uma taverna com show de blues, com muitos dreadlocks e jovens em geral. E isso é muito comum: do nada, uma balada literalmente, underground, nada a ver com o que há em cima. E os contrastes seguem: de noite, ratos atravessando uma linda e imponente fonte numa praça. E logo embaixo, mendigos dormindo na estação do metrô, enquanto jovens negros, orientais e bem-vestidas francesas adentram o veículo apressados para uma noitada. E falando em rato, uma moça carregava um em seu pescoço, embaixo do seu cachecol, dentro do metrô. Um senhor carregava um furão e um outro dormia com seu cachorro vira-lata dentro de sua roupa, enquanto uma lindíssima francesa, de uns 40 anos, bem vestida de vermelho, carregava seu poodle branquíssimo.

Fora os passeios tradicionais e de lei: Notre-Dame, Louvre, Torre Eiffel, Versailles, Montmartre, Champs-Élysées, Pedro fugiu da rota e me levou no Marais: um bairro habitado por judeus e popular entre a comunidade gay. Curiosidade é que a região era de pântano e acabou ficando de fora da reforma urbana, então podemos ver sua estrutura diferente do centro, por exemplo. Lá há um museu que podemos entender o holocausto a partir da França. De cara, vemos as fichas de todos os judeus franceses, que como tantos outros, acabaram nos campos de concentração.  Ali me emocionei e aprendi muito. Mas, o que mais achei interessante, é que o bairro é próximo à praça da Bastilha, palco da Revolução. E, séculos depois, logo ali, mora quem almeja, ainda e somente, egalité, fraternité et liberté.

Eu ainda poderia falar da experiência com Louvre, de todas histórias que ouvi, da graça das ruas, do que visitar, mas, sinceramente, se você nunca foi a Paris, não quero estragar sua graça. Não se intimide porque é apenas mais um dos milhões de turista. Veja tudo que deve ver, visite o que tem para ser visitado, mas olhe Paris pelas entre-linhas. Descobrir uma Paris que ninguém te contou é muito mais gostoso. 

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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