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A alegria, a tristeza, o Iphan e a rua 10

11.11.2011 - 00:42:16
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Uma das minhas maiores surpresas foi quando, ao chegar à porta do Iphan, percebi que aquela linda casa fica ao lado de onde minha avó mora há mais de trinta anos. Não que eu nunca a tivesse visto, mas tampouco havia prestado muita atenção, ao sempre passar de carro. É um oásis para os olhos, no meio da avenida feiosa que se tornou a 84. Fui lá justamente para saber se outra via de importância histórica para a cidade, a rua 10, está ou não sendo levada para o mesmo caminho.

Nesta semana, a Prefeitura finalmente divulgou para a imprensa qual é, afinal, seu projeto para a 10. Na sexta da semana passada, também havia finalmente se comunicado com o Iphan, que agora é mantido a par de tudo. E, afora alguns questionamentos – como sobre a dimensão da cobertura dos pit dogs, esse patrimônio da cultura goianiense aparentemente inconteste, que serão construídos para substituir e padronizar os que já estavam lá – não viu nenhum problema.

Para o Iphan, diante do que a rua 10 representa no tombamento do traçado urbano do Centro de Goiânia, o importante é que o desenho da avenida não seja alterado, e que não haja nenhuma construção com volume desproporcional ao conjunto. E, segundo o projeto apresentado pela CMTC, órgão da Prefeitura responsável por ele, parece que nada disso acontecerá.

É um alívio, claro. Desde que também sigam a sugestão do Iphan de decorar os pit dogs com paineis em motivos art déco – e não com a arte figurativa bizarra que aparece em uma das imagens da divulgação. Deveria haver teste de bom gosto para trabalhar na Prefeitura – vide a Câmara dos Vereadores e esses vasos vermelhos horripilantes com que estão tomando nossas praças e ex-praças. Sem falar no violão da bossa nova (tudo a ver) que meteram na av. 85. Ou no Pedro Ludovico super dimensionado que enfiaram ao lado do Centro Administrativo – por sua vez, outra feiúra de grande porte. E os espetos, então?

Mas o Iphan, ah, o Iphan…

Lá dentro, um pergolado de madeira atenua a luz natural que entra da imensa claraboia e inunda praticamente a casa toda, que também tem janelas, sacadas e portas avantajadas para o quintal e o jardim lateral. Muxarabis circundam escadas e vãos, e a mesa de reunião fica na parte de fora, ao lado da piscina. O projeto de 1961, um dos poucos exemplares modernos de Goiânia, é do arquiteto David Libeskind, que assinou mais duas casas na capital.

E se achei que ia passar ali uns 10 ou 15 minutos, ledo engano. A arquiteta Beatriz Santana me recebeu, me levou para a sala da superintendente Salma Saddi e ali conversamos por duas horas, não só sobre a rua 10, como também sobre o patrimônio art déco, a avenida Anhanguera, a rua 85-A e o setor Sul, a Vila Cultural do Teatro Goiânia, o Ateneu Dom Bosco, o colégio Santa Clara. Pautas diversas para futuras colunas.

Mas um ponto central da conversa saiu na pergunta: por que não nos procuraram antes? Eu: por medo de o Iphan barrar a obra? Salma: mas não barramos, o que fazemos é procurar soluções em conjunto, quando preciso. “Estamos de portas abertas todos os dias”.

Quanto à rua 10, sou só tristeza. Torço de verdade para que o projeto seja bem sucedido na proposta de mobilidade, que com ele mais pessoas viajem de ônibus e se locomovam de bicicleta. E que plantem mesmo árvores de grande porte – é o que a Prefeitura está dizendo que fará, embora a obra-piloto na primeira ilha da avenida apresente uma raquítica fileira de palmeirinhas (muito embora a ilha tenha fartos oito metros de largura). Ainda mais agora que terminou de retirar praticamente todas as árvores, para realizar a alegada troca de manilhas da drenagem pluvial. Talvez seja realmente necessário. Mas como a arborização antiga e frondosa não tem estado entre as prioridades da Prefeitura, tendo a acreditar que haveria outras soluções.

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por Elisa A. França

*Jornalista formada pela UFG, especializada em comunicação ambiental, com passagem pelo Greenpeace e pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

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