A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, a manchete do Estadão de 23 de outubro revela um fenômeno inquietante: na pesquisa espontânea do instituto Quaest, o percentual de eleitores indecisos dobrou de 7% para 14% em apenas uma semana. Na pesquisa estimulada, quando os nomes dos candidatos são apresentados, esse número despenca para cerca de 2%. O contraste não é estatístico apenas, pois expõe uma fratura profunda na relação entre o cidadão e a democracia representativa brasileira.
Duas hipóteses complementares ajudam a compreender o fenômeno. A primeira é a decepção com as instituições e com a qualidade do debate público. O eleitor vem assistindo a confrontos agressivos, trocas de acusações e escassez de propostas substantivas. O espetáculo da polarização, mais do que esclarecer escolhas, produziu desalento. A política deixou de ser o espaço da deliberação sobre o bem comum para se tornar arena de disputa moral e pessoal.
Quando os debates se transformam em espetáculo de recriminação, o cidadão comum experimenta o que Hannah Arendt descreveu como a “perda do senso comum”: a esfera pública deixa de ser lugar de aparição e de julgamento compartilhado e se torna terreno de hostilidade. O resultado é o afastamento. O aumento dos indecisos na pesquisa espontânea pode ser lido, assim, como sintoma de uma crise de confiança nas instituições e na capacidade da política de oferecer horizontes de sentido.
A segunda presunção é a do “voto envergonhado”. O eleitor possui preferência, mas hesita em declará-la abertamente. A polarização ideológica e a violência moral das campanhas criaram um clima em que admitir o voto por determinado candidato pode gerar estigma social, constrangimento familiar ou exposição nas redes. O silêncio, nesse caso, não é indiferença; é estratégia de proteção. O voto, que deveria ser o exercício soberano da liberdade política, transforma-se em ato acanhado. Essa dinâmica não é inédita na história democrática — já se observou em eleições polarizadas em outros países —, mas no Brasil contemporâneo ela adquire contornos particularmente agudos. O eleitor “escondido” não é apático; é um sujeito que internalizou o custo ético e relacional de sua escolha.
A essa recusa taciturna juntar-se-á, certamente, o contingente de votos nulos, brancos e abstenções que as urnas registrarão. Forma refinada de protesto — ou de exaustão — em que o cidadão, em vez de escolher um nome, prefere declarar que nenhuma das opções merece a dignidade de uma escolha. Ironia de uma democracia que multiplica candidatos e, ao mesmo tempo, multiplica a recusa de escolhê-los. Esse gesto contundente, suscita ainda mais a insatisfação popular com a política, com os políticos e com as instituições brasileiras, lembrando-nos de que a urna também pode ser o lugar de uma repulsa em que o silêncio grita.
Ambos os fatores — desalento institucional e voto envergonhado — apontam para um mesmo diagnóstico: a fragilidade do espaço público brasileiro. A democracia não se sustenta apenas pelo ritual eleitoral. Ela depende de instituições confiáveis, de debates que elevem o nível da deliberação e de uma cultura política que permita ao cidadão declarar sua preferência sem temor de linchamento moral. Quando essas condições se deterioram, o silêncio cresce. E o silêncio, como ensina a tradição filosófica desde Sócrates, pode ser tanto prudência quanto sintoma de decadência do logos político.
A questão que se coloca, portanto, não é meramente eleitoral. Trata-se de saber se a democracia brasileira ainda consegue produzir o que Claude Lefort chamava de “espaço de indeterminação” — aquele lugar em que o poder permanece vazio e a disputa se dá por argumentos, e não por anátemas. Se o eleitor se esconde, se o debate se torna agressivo e se as instituições perdem legitimidade, o risco é que a própria ideia de representação se esvazie.
A eleição, nesse cenário, pode ser decidida não pela força das propostas, mas pelo detalhe do silêncio vergonhoso: pelos votos que não se confessam, pelos indecisos que, na verdade, já decidiram e preferem não dizer — e pelos que, simplesmente, recusam-se a dizer qualquer coisa.
De toda forma, no próximo domingo à noite teremos o resultado numérico. O significado sociopolítico desse resultado, porém, continuará (ou deveria) a nos interrogar por muito mais tempo. A democracia brasileira precisa recuperar a capacidade de conversar sem odiar e de escolher sem se envergonhar. Caso contrário, o crescimento dos indecisos e a elevação dos nulos, brancos e abstenções não serão episódios esporádicos de campanha, mas o prenúncio de um distanciamento mais profundo entre o povo e a política; entre o povo e as instituições. E isto é horrível para a democracia e para a sociedade como um todo.
* Edemundo Dias de Oliveira Filho: Especialista e Mestre em Segurança Pública, Políticas Públicas e Direito Público
