Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. O planeta enfrenta um contraste ético e econômico: enquanto centenas de milhões de pessoas vivem em situação de fome e insegurança alimentar, grandes quantidades de comida própria para o consumo são descartadas diariamente. Para garantir a sustentabilidade do planeta e o abastecimento de uma população em crescimento, combater a perda e o desperdício de alimentos deve ser prioridade da transformação dos sistemas agroalimentares globais.
De acordo com o relatório Food Waste Index Report 2024, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cerca de 19% de todos os alimentos disponíveis para os consumidores no mundo são desperdiçados no varejo, nos serviços de alimentação e nos domicílios. Em números absolutos, isso equivale a 1,05 bilhão de toneladas de comida descartadas por ano, no mesmo período em que quase 800 milhões de pessoas enfrentam a fome.
Quando descartamos um alimento, descartamos também a água, a terra, o combustível e os fertilizantes empregados na sua produção. Além disso, o desperdício de alimentos responde por 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE). Se o desperdício de alimentos fosse um país, ele seria o terceiro maior emissor do planeta, atrás apenas da China e dos Estados Unidos. No Brasil, país de dimensão continental e protagonista na produção agrícola, a perda ocorre ao longo de toda a cadeia, afetando alimentos básicos como arroz, feijão e proteína de frango, o que gera prejuízos econômicos bilionários e agrava as desigualdades sociais.
Diante desse cenário complexo, a resposta passa necessariamente pela inovação tecnológica, pela eficiência na colheita e pela inteligência de dados aplicada ao campo. A modernização do campo é uma das primeiras linhas de defesa contra a perda de alimentos. Soluções como colheitadeiras com regulagem remota e sensores inteligentes evitam o esmagamento de grãos no campo; tecnologias de automação na semeadura garantem o desenvolvimento saudável das plantas; e sistemas de telemetria otimizam o tempo de transporte e logística das safras, impedindo que os alimentos se deteriorem antes do processamento.
Contudo, a tecnologia no campo precisa estar conectada a uma mudança profunda de hábitos na sociedade. As orientações oficiais da FAO destacam que a transição para sistemas alimentares sustentáveis depende também de ações individuais conscientes. Reduzir o desperdício dentro de casa, escolher alimentos locais e sazonais, diversificar a dieta com grãos integrais, leguminosas e nozes, e priorizar cadeias curtas de suprimento são decisões diárias que fortalecem o produtor rural e protegem os ecossistemas.
O compromisso do agronegócio moderno não se limita a produzir mais, mas a produzir melhor, com sustentabilidade e com inteligência operacional. O combate ao desperdício e à perda de alimentos une a responsabilidade ambiental, o rigor econômico e a justiça social. Inovar hoje significa investir em conectividade, máquinas eficientes e infraestrutura logística que colham cada grão da lavoura e preservem cada grão colhido. Somente por meio da união entre a tecnologia no campo, a colaboração entre os diferentes elos da cadeia produtiva e a conscientização do consumidor seremos capazes de nutrir o amanhã e construir um futuro sustentável.
*Marcelo Traldi é vice-presidente Fendt & Valtra e Gerente Geral AGCO América Latina
