A imagem que ilustra o texto integra a coleção “Frágil Fera”, da artista-joalheira Isabella Perillo, apresentada no MUDE, Museu do Design de Lisboa e catalogada na coleção particular da renomada professora de joalheria Teresa Seabra.
A produção fotográfica da artista enriquece ainda mais o contexto do acessório contemporâneo, expandindo seu conceito por meio do contraste entre luz e sombra no contorno delicado do corpo feminino e no modo inconvencional de usar as siamesas luvas, cujo um dos pares está gravado, repetidamente, o próprio título da obra: Frágil Fera.
A composição evoca também a ideia do trava-língua, do verso sem rima e do controverso que persegue a impermanência. A impermanência da vida, das relações, das cidades e das políticas.
A história por trás das alvas luvas de Bella, como é carinhosamente, conhecida Isabella Perillo, revela um encontro casual, em meio à grande metrópole de Lisboa, com um homem em situação de rua que lhe confidenciou relatos pessoais e experiências de vida com os quais a artista se identificou.
Diante dos perigos e das inseguranças aos quais uma jovem mulher se expõe ao se aproximar voluntariamente de desconhecidos, essa pesquisa de campo, esse episódio metropolitano e essa coragem impulsiva de correr riscos constituíram a principal inspiração para uma epifania artística. O encontro deu origem a uma ligação inconvencional, mas inseparável: um momento de escuta solidária, no qual a empatia pela sombra foi acolhida pela lucidez.
A fragilidade do corpo que se expõe publicamente é confrontada pela força interior de uma consciência feroz, que habita a mente de uma mulher que pensa, sente e ama incondicionalmente.
As luvas, adquiridas de segunda mão, representam mais do que um acessório contemporâneo: simbolizam a força, a fúria e a coragem de uma bela e pequena mulher, aparentemente frágil, mas que sabe manifestar-se com propriedade.
