Uma trágica avalanche no Broad Peak, a 12a montanha mais alta do mundo com 8.051 metros, no Himalaia paquistanês, matou 10 pessoas no último domingo. Entre elas, morreu Nirmal Purja, montanhista nepalês que era, até anteontem, uma das maiores lendas vivas da escalada.
A façanha que o tornou famoso era considerada praticamente impossível: Nims, como era conhecido, escalou os 14 picos com mais de 8 mil metros de altitude em apenas seis meses e seis dias, entre abril e outubro de 2019.
O recorde anterior pertencia ao sul-coreano Kim Chang-ho, que levou quase 8 anos (7 anos, 10 meses e 6 dias). Nims reduziu esse tempo para uma fração — algo que especialistas diziam ser fisiologicamente inviável, já que o corpo humano não teria tempo de se recuperar entre expedições em altitudes extremas.
Além das 14 “oito-mil” em tempo recorde, Nims, mais recentemente, em 2021, tinha participado da primeira ascensão invernal do K2, a segunda montanha mais alta do mundo, reconhecidamente muito mais perigosa que o Everest. O K2 era a última delas que ainda resistia à conquista durante os rigores do inverno himalaiano. Para se ter ideia, o Everest foi escalado durante o inverno ainda em 1980.
Um acidente como esse é evidentemente triste e chocante. Ao mesmo tempo, entretanto, cada uma dessas dez pessoas sabia os riscos que corria — e os aceitava em troca do que obtinha: dias em que a vida fazia plenamente sentido.
Pensar nas montanhas e olhar para elas com a ajuda da ciência é dar-se conta do tamanho infinitamente diminuto da vida e da própria espécie humana.
O Himalaia, como todas as cordilheiras do planeta, é bastante jovem para os 4,5 bilhões de anos da Terra. Começou a se soerguer somente há cerca de 50 milhões de anos.
Originalmente, a Índia fazia parte do supercontinente Gondwana, junto com África, Antártida, Austrália e América do Sul. Entre a Índia e a Ásia, havia um vasto oceano chamado Tethys. Há cerca de 150 milhões de anos, Gondwana começou a se fragmentar, a chamada “Placa Indiana” se separou e iniciou uma deriva extraordinariamente rápida para o norte. Estima-se que tenha se movido a uma velocidade de até 20 centímetros por ano, algo excepcionalmente rápido em termos geológicos.
Nos Andes, aqui do nosso lado, temos a colisão entre uma placa continental, a sulamericana — menos densa, mas mais espessa — e a Placa de Nazca, oceânica — mais densa e fina. Em função disso, ocorre um fenômeno chamado “subducção”, em que a placa oceânica “mergulha” sob a placa continental e é progressivamente absorvida por ela.
Quando, há 50 milhões de anos, a Placa Indiana se chocou com a Placa Eurasiana tivemos, diferentemente, o encontro de duas placas continentais. Como ambas têm crosta mais leve e “flutuante”, não ocorre subducção. A crosta foi comprimida, dobrada e empilhada criando as primeiras elevações do que viria a ser o Himalaia.
A colisão prossegue. A Índia segue avançando contra a Ásia a cerca de 4 a 5 centímetros anualmente. Esse empuxo constante continua elevando alguns milímetros por ano o Himalaia, formou o planalto tibetano, o maior e mais alto platô do mundo, e gera a intensa atividade sísmica característica da região, com terremotos frequentes no Nepal, Índia, Paquistão e outros países vizinhos.
A diferença entre as duas cordilheiras explica também a ausência, no Himalaia, dos vulcões, tão comuns nos Andes. Eles são fruto exatamente da placa oceânica sendo consumida e produzindo magma, o que não ocorre na cadeia asiática.
Um dos indícios mais fascinantes dessa história é que fósseis marinhos de organismos que viviam no antigo oceano Tethys são encontrados hoje perto do cume do Everest, a quase 8.850 metros de altitude, uma prova direta de que essas rochas já estiveram no fundo do mar.
No curso de uma vida humana média, as partes mais ativas do Himalaia crescerão algo entre 30 e 80 centímetros — sem descontar as taxas de erosão. E o Himalaia ainda seguirá se elevando por dezenas de milhões de anos, para depois desaparecer em mais algumas centenas de milhões de anos, enquanto outras cadeias terão surgido no planeta.
Ir às grandes montanhas abre uma janela para esse tipo de olhar, que permite nos vermos e sentirmos como parte de uma dança cósmica cujo sentido permanece sempre oculto em meio à névoa do mistério. Paradoxalmente, vermo-nos assim, tão diminutos, pode ser um caminho para recuperar o sentido perdido em meio a nossos delírios de grandeza.
Descanse em paz, Nims.

