Algo surpreendente aconteceu e, como não existem coincidências, estou inclinada a acreditar que o universo, o cosmos ou o plano de Deus conspiraram a favor. Por força das circunstâncias, combinei uma viagem com mamãe, seguindo um protocolo familiar básico de economia, conhecimento e entretenimento. Decidimos uma data que postergasse o feriado de Tiradentes e se encaixasse na visita a uma antiga amiga mineira para um abraço atrasado de aniversário. Em nosso itinerário, a passagem obrigatória a Inhotim foi unânime e, pela primeira vez, estive no Instituto com a dona Marina Potrich, a percursora do mercado de arte contemporâneo em Goiás, na década de 80. De fato, foi uma viagem curiosa, porque, por coincidência, o Instituto Inhotim completava 20 anos, inaugurando três galerias, consecutivamente. Dentre as galerias inauguradas, uma delas, em particular, muito me encantou. Contraplano (2026), é uma obra arquitetônica da artista belohorizontina, Lais Myrrha, que replica o icônico prédio de Oscar Niemeyer, da Praça da Liberdade, para um deleite paisagístico e panorâmico. Com localização privilegiada, a grandiosidade engenhosa da obra me chamou ainda mais a atenção pelo fato de uma artista mulher estar numa posição equalitária entre os homens, no museu a céu aberto, tanto na localidade, quanto na imponência visual, tal como a Galeria de Adriana Varejão. A obra de Myrrha ressalta uma firmeza feminina que se sobressai à força masculina, autentificando uma característica nobre, virtuosa e inclusiva. Uma obra que não levanta bandeiras políticas, sociais, raciais ou de gênero, no entanto, interage harmoniosamente com o espaço, com a transformação da natureza em seu entorno e com o design contemporâneo, atemporal e inspirador de Niemeyer.
Myrrha é emblemática até no nome, como a planta que foi oferecida de presente ao nascimento de Jesus Cristo pelo Rei Mago, Baltazar. Mais uma coincidência, que não foi só por força das circunstâncias, todavia, a sinergia etimológica, da alcunha de seu sobrenome. Um termo que, no ‘amargo’, no âmago místico, ou metafísico, simboliza a imortalidade (embalsamento), o sacrifício, a humanidade e a cura espiritual (antisséptica e anti-inflamatória) características equivalentes à pulsão materna e à sobrevivência humana.
Um simbolismo magnânimo que intercambia a vida material à espiritual gerando graça, esperança e a continuidade da vida.
Obrigada, mamãe, por essa viagem tão favorável. Graças ao seu ventre, seus cuidados e atenção eu estou viva e posso desfrutar de muitas outras viagens, planos, sentimentos e conhecimentos.
Feliz Dia das Mães adiantado. Te amo!
