Exerci o ofício de ourives entre os anos de 2002 a 2016. Sentei na bancada de ourives, fundi o metal, laminei, soldei, torci, poli, me queimei, me curei, chorei, sorri, permutei e também vendi. Permaneci na atividade como designer de joias até 2021, me despedindo da profissão com a idealização do Jardim Potrich, espaço que coloco em prática a experiência vivênciada por cerca de 40 anos, na Galeria, uma empresa familiar onde trabalhei com mercado de arte, artesanato, design e curadoria.
Sigo mantendo o prazeroso e desafiador exercício da escrita, desde 2014, quando iniciei minha Coluna Arte Etc Cetera, na extinta revista impressa DiCasa e na Coluna de Arte, da revista Inesquecível Casamento. Atualmente fomento a Coluna Curadoria Afetiva, no jornal virtual ARedação e, desde 2005, no meu blog pessoal: www.tatianadepot.blogspot.com.
Dentre todos os meus ofícios, a escrita é a que mais me beneficiou e trouxe conexão comigo mesma e com a íntima relação entre o que penso e faço. E foi levando em conta essa trajetória que recordei do artigo “Jóias Brasileiras” , cujas imagens que o ilustram são de meu Colar Cocar em penas e prata, um maxi-brinco em ouro de uma tribo africana e uma pulseira do designer de joias carioca, Antônio Bernardo. Observando as imagens e recorrendo ao texto, ficou marcado em minha percepção metafórica a célebre frase de Leonardo Da Vinci “a simplicidade é o último grau de sofistição”.
No artigo, cito algumas observações da perita jurídica Eliana Gola, cuja curiosa investigação sobre a história da joalheria se depara com um abismo temporal peculiar, se estendendo num parecer específico para cada civilização, cada lugar, cada situação.
Não foi porque os indígenas ainda não dominavam o metal, que eles deixaram de ser habilidosos naquilo que sabiam fazer. Ou ainda, trazendo para a contemporaneidade, não é só porque um motociclista profissional saiba pilotar, que um cavaleiro da fazenda perca seu valor por ainda não se beneficiar dessa tecnologia, ambos pertencem à estatística do processo civilizatório.
No livro “A Jornada da Humanidade”, do economista israelense-americano, Oded Galor, há uma tênue relação do progresso associado aos três pilares fundamentais da sociedade: economia, educação e tecnologia. Sempre que há, em algum marco histórico da humanidade, uma desproporção de um desses processos, haverá um declínio anunciado. Impérios que priorizaram a luxúria, o extremismo religioso e a estética superficial das aparências, desequilibrando os processos prioritários ao bem comum, sucumbiram à decadência e à pobreza. Ao contrário de civilizações que investiram, a longo prazo, na economia, educação e tecnologia, que vêm administrando essas estruturas primordiais para o desenvolvimento coletivo e se destacando no topo da cadeia civilizatória mundial.
A ‘simplicidade’ a que Da Vinci se referia, nada tem a ver com luxo minimalista, ostentação, algoritmo ou ouro, mas com o tempo, disciplina e dedicação. Quem toma consciência desse processo evolutivo, se mantém firme na hierarquia social, cultural e econômica com a árdua capacidade de aprendizado, adaptação e adversidade de um mundo em movimento frenético e ruidoso.
Quem estuda e revisa à fundo a História, não comete os mesmos erros do passado. A vida é cíclica, mas não gira em círculos, nem em torno de nossos umbigos.
Ela é uma constante em espiral. Em movimento contínuo, sempre em frente e avante, como um Jardim florescendo.
