Logo
Um exemplar da flor do "Abricó de Macaco", árvore de origem amazônica, incorporada ao paisagismo do Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro (foto: divulgação)
Um exemplar da flor do "Abricó de Macaco", árvore de origem amazônica, incorporada ao paisagismo do Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro (foto: divulgação)

Um botânico autodidata

WhatsAppFacebookLinkedInX
08.02.2026 - 08:52:34
Sábio foi Oswald de Andrade, que publicou o antológico manifesto de 1928 e lá dizia o poeta “só a antropofagia nos une”.
Desde que o Brasil é Brasil, digo isso como um nome de batismo dado por nossos colonizadores, entendemos que tudo que vinha de ‘fora’ era o que tínhamos para copiar. Os estilos arquitetônicos, os movimentos artísticos, a culinária, a moda, o paisagismo. Tudo vinha do outro lado do oceano. Aos poucos fomos nos adaptando, ou como diziam os antigos: “fomos comendo pelas bordas”, incluindo, adicionando, colocando o dedo e o pé nas receitas europeias, o adobe para aumentar a massa e levantar paredes, o aipim para dar sustância, o tucupi para entorpecer, o cauim para celebrar, a água-ardente para sanar as feridas, todas essas matérias-primas extraídas de terra brasileira.
Devorando, comendo ou canibalizando ideias foi se digerindo, com o passar do tempo, as possibilidades de criar e valorizar o que o nosso próprio ‘brasil’ produzia.
Antes mesmo da Semana de Arte Moderna de 22, uma criatura, enviada pelos orixás e regida por Oxossi, iniciou seus famintos conhecimentos botânicos no maravilhoso universo da natureza nacional. Nasce em 1909, o paisagista Roberto Burle Marx. Em 1916, com apenas com 7 anos de idade, inicia sua primeira coleção de plantas. E foi no mesmo ano do manifesto, 1928, devido a um tratamento de visão, que ele teve de se mudar para a Alemanha, onde, literalmente, abriu os olhos para o verdadeiro tesouro de sua terra natal. Descobriu, no Jardim Botânico de Berlim, a flora brasileira.
A partir daí, se viu na missão de revelar ao mundo a diversidade infinda do poder da multiplicação das plantas e abraçou com linhas, curvas, réguas e compassos todas as forças dessa herança sagrada, o bioma amazônico.
Transformou parques, aterros, instituições públicas e privadas, sistemas acadêmicos e pedagógicos, suportes, padrões, pinturas, azulejos, esculturas, projetos, planilhas (ufa!) em formas orgânicas, canteiros curvilíneos, jardins tropicais, geometria viva em movimento de cores e som.
Sua pesquisa transcendia a arquitetura e o paisagismo, Burle Marx interagia com a cultura popular, partituras musicais, ritos e rituais. Seus projetos eram regidos pela Mônada, pela filosofia da natureza, pela metafísica do mundo.
Um botânico autodidata, que deixou um legado às futuras gerações sobre sua visão (quase perdida) de como a Arte e a Natureza podem ser um ecossistema único, porém diverso em espécies e manifestações.
Um exemplo a ser seguido, Uma inspiração para nosso Projeto Cerradim. Aguardem!
Passeio de pai e filho no Parque do Flamengo (foto: divulgação)
Passeio de pai e filho no Parque do Flamengo (foto: divulgação)
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Tatiana Potrich

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
16.09.2026
Sebrae premia profissionais da comunciação em noite dedicada ao jornalismo; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Prêmio Sebrae de Jornalismo realizou a solenidade de premiação em reconhecimento a produções jornalísticas que abordam temas ligados ao empreendedorismo e aos pequenos negócios. O Jornal A Redação conquistou o 2º lugar na etapa estadual da 13ª edição do prêmio, no evento que ocorreu na noite desta terça-feira (15/9), na […]

Meia Palavra
16.09.2026
‘The Ghost in the Shell’ finalmente dá tratamento fiel a clássico cyberpunk

Terminou na semana passada a adaptação em 10 episódios de The Ghost in the Shell, baseada no mangá de mesmo nome, publicado por Masamune Shirow nos anos 1980. A obra foi extremamente influente e ganhou uma adaptação na qual o diretor Mamoru Oshii tomou amplas liberdades, em forma de filme animado, em 1995, que, por […]

Laboratório Público — Ciência, política e meio ambiente
15.09.2026
Sem apocalipse ou redenção

A Inteligência Artificial ganhou novamente as manchetes essa semana com dois fatos em sequência: a demissão de Jacob Coxon da Anthropic, empresa responsável pelo Claude, e o texto de Dario Amodei, fundador da mesma empresa, alertando para a necessidade de diminuir o ritmo de avanço da IA. Coxon já trabalhara na OpenAI, a fundação responsável […]

Noite e Dia
14.09.2026
Gusttavo Lima reúne milhares de goianienses no ‘Buteco Para Sempre’; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Gusttavo Lima se apresentou em Goiânia no último sábado (12/9) para comandar o festival Buteco Para Sempre, no estacionamento do Estádio Serra Dourada. O evento também contou com shows de Leonardo, Diego & Victor Hugo, Calcinha Preta e João Bosco & Vinícius. No repertório, o público entoou músicas antigas e novas […]

Curadoria Afetiva
13.09.2026
Práticas terapêuticas

A imagem que ilustra meu texto deste domingo são as obras esculpidas em argila pela caprichosa arquiteta, Fernanda Ogata. Seu design e delicadeza, que descendem da ancestralidade japonesa, destacam o impecável resultado de suas peças e a exímia habilidade nipônica, do fazer artesanal. Não há como não vangloriar também, a influência da tropicalidade brasileira explícita […]

Noite e Dia
11.09.2026
Beco da Codorna: quando a arte encontrou um lugar no coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há lugares que parecem existir à margem da cidade, escondidos entre fachadas, galerias e grandes avenidas. No Centro de Goiânia, alguns deles são os becos. Espaços estreitos, muitas vezes destinados originalmente a serviços e circulação, que ao longo das décadas ganharam diferentes usos e, em alguns casos, passaram a integrar a […]

Noite e Dia
10.09.2026
Evento para convidados abre Festival da Cachaça de Goiás; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Um encontro para convidados marcou a abertura da primeira edição do Festival da Cachaça de Goiás, nesta quarta-feira (9/9). Realizado no Flamboyant Hall até domingo (13), o evento reúne uma série de programações ao longo de cinco dias, com entrada gratuita e atividades voltadas tanto para profissionais da cadeia produtiva quanto […]

Meia Palavra
09.09.2026
‘A Morte de Robin Hood’ mistura redenção com a desconstrução de um personagem clássico

Antes de ver este filme, a principal crítica que vi da audiência foi a de que era o filme “mais chato do mundo”, o que diz mais sobre o estado do público hoje do que sobre o filme em si. Em A Morte de Robin Hood, acompanhamos os momentos finais do famoso fora da lei, […]