O criador e responsável pela adaptação de The Boys para uma série de TV, Eric Kripke, disse nas redes sociais e em entrevistas recentes que o maior desafio nas duas últimas temporadas do programa foi manter o seu tom satírico conforme a realidade sistematicamente superava a zombaria que ele e seus roteiristas tentavam inventar. Nesta quinta e última temporada, isso ficou bem perceptível conforme as pataquadas do presidente americano Donald Trump pareciam quase emular, detalhe por detalhe, as presepadas do vilão Capitão Pátria e seus asseclas.
O resultado foi uma sequência de altos e baixos, mas um bom seriado no geral, apesar de uma última temporada inconsistente e um final morno após pelo menos três temporadas de escalada da expectativa que não alcançaram a catarse prometida. Se você mora embaixo de uma pedra, aqui está o resumão: The Boys é baseada nas HQs de Garth Ennis e é uma paródia dos filmes de super-heróis. Ao contrário da sua contraparte em quadrinhos, que era muito mais uma crítica mordaz à cultura das subcelebridades, a versão audiovisual de Kripke foi migrando gradualmente para uma sátira política, movendo seu olhar das práticas sociais da audiência para a dos bilionários e poderosos empresários e políticos, principalmente Donald Trump.
Ser sutil nunca foi o forte da série: a graça sempre esteve na sua capacidade hiperbólica de ir ao extremo. Felizmente, por um lado, a última temporada consegue manter até que mais ou menos o grau de acidez e de ridicularização nível South Park a que submete seus personagens, mas se perdeu um pouco com uma retomada forte do humor quinta série mais típico das primeiras temporadas do seriado e becos sem saída narrativos que se amontoaram até virar um problemão.
Este acaba sendo, enfim, o gargalo que impede essa paródia de supers a simplesmente voar: preocupada em fazer um comentário relevante, a peteca acaba caindo nos elementos mais básicos da estrutura narrativa. Acontecimentos irrelevantes, continuidade bagunçada, McGuffins e reviravoltas mal-explicadas se multiplicam conforme os personagens atrapalhadamente tropeçam em direção à linha de chegada. A série se perde dentro da própria mitologia e em pontas soltas, deixando crateras no roteiro.
Ainda assim, o final consegue ser melhor que o do material original, sem a virulência de Ennis, e toda a parte satírica ainda é legal, mesmo que um pouco cansativa. Fora isso, o que se mantém mais forte são algumas atuações: Antony Starr ainda brilha como o vilão Capitão Pátria, 100% dedicado, mesmo quando o roteiro não contribui. Karl Urban ainda é um deleite como Billy Bruto e Chace Crawford ainda é o idiota perfeito como Profundo.
No fim das contas, se The Boys não era do seu agrado quando começou, certamente isso não mudou na temporada final. Sua despedida não surpreende nem exatamente desagrada, mas deixa certa decepção por não alcançar todo seu potencial prometido, perdindo fôlego nos episódios finais.
