Carolina Pessoni
Goiânia – Antes dos edifícios consolidados e das instituições que hoje desenham o Centro de Goiânia, a cidade ainda era um território em construção física e simbólica. Foi nesse cenário que, em 31 de julho de 1946, em um barracão simples no número 28 da Rua 16 nasceu a primeira loja maçônica vinculada ao sistema das Grandes Lojas no Estado: a Adonhiram Primeira nº 11.
A origem remonta a encontros informais no tradicional Café Santa Cruz, em Campinas, onde três nomes — Manoel Guilhermino dos Santos, João Paz Esteves e Albano Dias — começaram a articular a criação de uma oficina regular em Goiânia. A ideia amadureceu em reuniões realizadas na antiga Casa Comercial Nativa, na Avenida Araguaia, até se concretizar na sessão magna de fundação, às 20 horas daquele 31 de julho.
O contexto ajuda a dimensionar o feito. “O tempo passa rápido, mas naquela época era complexo fazer o que foi feito”, resume o secretário da loja, Mauro Coimbra. Segundo ele, a construção da sede definitiva ocorreu praticamente no mesmo período em que outros marcos da capital também ganhavam forma, como a própria Catedral Metropolitana, que passou a ser “vizinha” da loja anos depois.

Vista aérea da Loja Maçônica Adonhiram nº 11 (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Desde o início, a Adonhiram ocupou uma posição central na organização da maçonaria em Goiás. Foi a partir dela que surgiram outras lojas e que se estruturou a própria Grande Loja do Estado, fundada em 1951, em reuniões realizadas dentro do seu templo. “Para nós, essa é a loja-mater”, afirma Mauro Coimbra, ao destacar o caráter fundacional da instituição.
A trajetória também acompanha o crescimento da cidade. Ainda nos anos 1940, a loja deixou o espaço inicial e passou a funcionar na Rua 6, antes de adquirir, em 1950, o terreno na Rua 10, onde permanece até hoje. A construção da sede própria mobilizou esforços coletivos, incluindo rifas e contribuições dos membros, evidenciando um traço que atravessa décadas: a lógica de organização interna baseada na colaboração.
Ao longo do tempo, o perfil dos integrantes também revela aspectos sociais da Goiânia em formação. A loja chegou a reunir cerca de 150 membros e foi marcada pela presença de figuras influentes da sociedade local. Hoje, conta com cerca de 50 integrantes, com média de idade mais elevada. “Era uma loja muito elitizada, com nomes notórios. Ainda hoje temos irmãos com mais de 80, 90 anos”, relata o secretário.

Salão onde são realizadas as reuniões semanais (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
Apesar do caráter reservado das reuniões, que realizadas semanalmente e restritas aos membros, a atuação da loja extrapola seus muros. Entre as ações desenvolvidas está o projeto Colmeia, que realiza ações sociais e distribui regularmente marmitas e kits de higiene para pessoas em situação de rua, além da entrega de materiais escolares e cestas básicas. As iniciativas envolvem familiares dos integrantes e reforçam o viés assistencial da instituição.
Internamente, a proposta permanece alinhada a princípios históricos da maçonaria: reflexão, aperfeiçoamento individual e debate sobre questões sociais. “Nosso propósito é promover o bem da pátria e da humanidade, combater a ignorância e o preconceito. É um trabalho de melhoria do próprio indivíduo”, resume Mauro Coimbra.
Quase oito décadas depois, a Adonhiram nº 11 segue no mesmo endereço, resistindo a propostas de mudança e reafirmando sua permanência no Centro como parte da memória da cidade. Em meio ao fluxo cotidiano e às mudanças da região, o edifício permanece e carrega, em suas paredes, uma das histórias fundadoras da organização institucional de Goiânia.
Parabéns a matéria ficou excelente e ilustra uma trajetória realista.