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Niall e Ruben (Foto: divulgação)

‘Pela Metade’ é tão envolvente quanto perturbadora

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03.06.2026 - 09:07:24

Richard Gadd já havia se provado um grande roteirista com a minissérie vencedora do Emmy Bebê Rena, da Netflix, de teor autobiográfico. Ficou a ansiedade para saber se o autor conseguiria emplacar uma nova produção 100% de ficção. Pela Metade, desta vez pela HBO, não apenas fica à altura da produção anterior: é melhor.

Espalhada ao longo de três décadas e indo e vindo entre o presente e o passado, a trama acompanha o relacionamento extremamente tóxico, complicado e envolvente de Niall (vivido na vida adulta por Jamie Bell, excelente) e Ruben (vivido na vida adulta pelo próprio Gadd, magnético). Os dois são irmãos de consideração: a mãe de cada um passa a morar junta em um relacionamento sáfico, e eles precisam morar com elas na adolescência.

Começa aí a tensão inicial com o choque das personalidades: Niall é um nerd esquisitão e antissocial, com vários sentimentos negativos reprimidos, além de ser um covarde. Ruben, por sua vez, é uma tempestade de carisma, mas também transpira agressão e intimidação, sempre a um piscar de olhos da violência, tendo acabado de sair do reformatório por arrancar o nariz de outro garoto a dentadas.

O choque inicial entre os dois rapidamente se transforma em um turbilhão autodestrutivo de amor e ódio; afeição e rancor; lealdade e dependência. Conforme os anos passam, ambos se tornam versões ainda piores de si mesmos, machucando um ao outro de forma profunda, deixando marcas terríveis que, mais cedo ou mais tarde, vão culminar com um deles (ou os dois) em um caixão.

Aos poucos, a minissérie se abre e explora as falhas de caráter e as características psicológicas dos dois, assim como as poucas características redentoras de ambos. Conforme os episódios passam, a audiência fica cada vez mais tensa: a trama se retesa como a corda de um arco, e fica a expectativa de que algo vai explodir, para o bem ou para o mal.

O enredo é implacável e brutal. Para alguns, este pode ser um ponto fraco: quanta desgraça cabe em seis episódios? Ao mesmo tempo, em nenhum momento esses personagens deixam de parecer dolorosamente reais e palpáveis, inclusive em suas espirais de destruição.

No campo da análise crítica do texto e do subtexto, a minissérie tem sido elogiada como um estudo sobre formas diferentes de masculinidade tóxica: em Ruben, por meio de seu comportamento violento e de traumas não resolvidos; e em Niall, por sua covardia, inveja e, principalmente, ódio contra si mesmo. Não sou psicólogo para poder dar um parecer sobre o tema, mas me parece um aspecto rico para uma análise mais aprofundada.

Porém, posso dizer que há muitas camadas e temas para destrinchar aqui. Sexualidade, identidade, aceitação, homofobia, angústia e desespero se revezam e se misturam, tudo dentro da extremamente complexa vida desses personagens. É raro ver uma minissérie tão envolvente, com um roteiro tão poderoso, ao mesmo tempo em que é tão perturbadora, como um trem descarrilando. E igualmente hipnótica, um acidente do qual não se pode desviar o olhar.

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por José Abrão

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

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