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Pedra Goiana que rola cria limo

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31.01.2022 - 09:48:29

 

Rolam as pedras, devem rolar. Assim falava o refrão da música do Kiko Zambianchi que se ouvia nos anos 80. Inventei de escrever sobre pedra e acabei me lembrando de rock (que também significa pedra), juventude, rebeldia e vi que estava tudo conectado. O Kiko tinha razão: algumas pedras devem rolar mesmo. Os Stones, por exemplo, rolam até hoje (agora sem Charlie Watts); outras, como disse Raul, ficam imóveis na praia. A Pedra Goiana é uma dessas que nunca deveriam ter rolado.

O P e G maiúsculos indicam que não me refiro a um pedregulho qualquer. O monólito que se assentava majestoso sobre um altar pétreo nos confins da Serra Dourada era uma entidade sagrada, um símbolo de goianidade. Restam as imagens, e como são impressionantes! O que mais intriga é o equilíbrio. Como é que um bloco daquele tamanho conseguia se estabilizar em cima de duas pedras pequenas? Surreal. Sobrenatural, talvez; alguns místicos acreditam que as mãos etéreas do índio Goyá a sustentavam. Pode ser, mas nem ele foi capaz de deter a sanha das mãos de carne e osso.

A Pedra Goiana rolou, ou melhor, rolaram-na. Consta nos autos que, em 1965, nove adolescentes da cidade de Goiás quiseram entrar pra História e resolveram derrubar a Pedra Goiana. Com o feito, os rebeldezinhos conseguiram derrubar também um pouco da honra goiana, pois o vandalismo escrachado segue acobertado até hoje. Na época, o lendário jornal Cinco de Março reportou o fato e, corajosamente, citou nome, sobrenome e apelido dos rapazotes, filhos de famílias tradicionais da Vila Boa de Goiás. Segundo a reportagem do Cinco, os nove eram arruaceiros contumazes, conhecidos na cidade como “playboys e quebradores de baile”. As ruas de pedra deviam tremer.

Há alguns meses, um site de notícias postou no Instagram que uma força-tarefa composta pelo Governo de Goiás, UFG e UEG pretendia restaurar o monumento natural. A notícia causou alvoroço: mais de dez mil curtidas, quase 600 comentários. A rede social é a liça moderna; ali, digladiam-se todas as tribos. Internautas se manifestaram de todo jeito: uns xingavam o governador, outros reclamavam do preço da gasolina, muitos defendiam que gastar dinheiro com pedra caída era um despautério, e por aí seguiam. Uma minoria (nela me incluo) aprovava a empreitada de restituir à Pedra Goiana sua majestade. Opino que, se atuarem juntos, governo, universidade e empresariado resolvem a questão. Como diz outro rock: a gente quer comida, diversão e arte; e história também.

O que me impressiona nesse assunto é como ele é tratado de forma tão dissimulada. Numa polidez ridícula, a maioria das reportagens tenta esconder ou isentar os autores da proeza. Conta-se o “milagre”, mas encobrem-se os “santos”. Há 10 anos, numa entrevista, um ex-vereador vilaboense admitiu, meio sem jeito, que “eles usaram macaco hidráulico para derrubar a pedra”, mas logo reforçou, convicto, que ela iria cair de qualquer jeito pois a base já estava comprometida antes do desmoronamento. Leia-se: os meninos não tiveram culpa. Um site da cidade de Goiás publicou recentemente um texto sobre a Pedra com uma parcialidade espantosa: “A identidade do grupo de vândalos nunca foi descoberta e continua um mistério”. Quanta hipocrisia! Quanta sabujice!

Poderão pensar os leitores: não sejamos rancorosos. Isso foi há 56 anos. Aqueles meninos (hoje, já falecidos ou com seus 70 anos) eram membros da juventude transviada dos anos 60, fãs de James Dean e dos filmes americanos do pós-guerra. Eram rebeldes e inconsequentes. Sim, é verdade. Mas eram também meninos burgueses, filhos de pais poderosos, que só praticaram a contravenção porque contavam com a impunidade. O Cinco de Março relata que os rapazes avisaram a um soldado da cidade que iriam derrubar a pedra, fizeram o serviço e depois comemoraram a façanha pelos bares da cidade. Consta que houve “rigoroso” inquérito, mas os suspeitos confessos foram eximidos. Será que se fossem filhos da arraia-miúda teriam o mesmo tratamento, ontem e hoje?

Recolocar a Pedra Goiana no seu lugar de origem é um desafio. Outras tentativas fracassaram. Tomara que funcione desta vez.  Mas só isso não é suficiente. É que, ao rolar, a Pedra Goiana mostrou o limo, a sujeira da sociedade que trata diferente quem tem dinheiro. “ Que queres tu, combativo cronista? Reabrir o inquérito? Punir os culpados?” Nada disso. Penso que não vale o stress. Porém, outros gestos podem amenizar essa vergonha histórica. Uma imprensa menos servil, omissa e conivente é crucial. Mas o melhor reparo viria dos próprios envolvidos: que eles se retratassem publicamente, dizendo: “éramos jovens, imaturos. Cometemos um erro e pedimos desculpas”. Poderiam, inclusive, ajudar na restauração. Há que reerguer a Pedra, mas também a honra goiana.
 
*Luciano Alberto de Castro é escritor e professor da Universidade Federal de Goiás

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por Luciano Alberto De Castro

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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