Peço licença para me apropriar do título do podcast da destemida, Fernanda Lima que tem como principal objetivo falar de assuntos sem tabus ou constrangimentos e que, no meu caso e nesse texto específico, serviu como uma luva.
Para início de conversa indicarei a série alemã, “Assassino Zen” (2024), disponível na Netflix, cuja segunda temporada chegou neste ano e a terceira já foi confirmada. A história acompanha a narrativa, em primeira pessoa do protagonista, um advogado criminalista, em meio a uma crise existencial que procura, a pedido da esposa, um terapeuta de mindfulness para equilibrar suas tensões e decisões. Salpicado pelo humor ácido, característico dos alemães e, regado a muita originalidade, a série nos conduz à confrontos éticos e à um obscuro livramento de culpa, à medida que concluímos que, para se combater o mal é necessário ser mau, mas com pitadas de humor.
A imagem do símbolo universal de forças complementares: Yin-Yang, simbolizaria bem o plano de ideias e ações do personagem, que parece sempre ter ótimas alternativas, em péssimas situações e atitudes coerentes, em meio ao caos.
Também em cartaz na Netflix, a nova adaptação do clássico “Nosferatu” (2024) vem calhar com as datas que se aproximam: a que precede o Dia das Bruxas e a que antecede o Dia de Finados. Num estilo bem mais mórbido com uma atmosfera de horror e terror quase inebriante, a história se passa no século XIX. A donzela prometida para o protagonista, quando ainda criança, suplica uma companhia para sua melancólica solidão, atrai para si uma misteriosa sensação sombria, deixando-se levar pelo desejo e prazer, até entrelaçar vínculos com uma força terrivelmente desconhecida. Vulnerável, numa época em que a mediunidade ainda era vista com desprezo, frequentemente diagnosticada como histeria ou delírio, a criança cresce à mercê do mal e da falta de informação, desprotegida e alienada em seu próprio mundo. (Contém spoiler)
O curioso nessa história é que a mesma fonte de desejo e prazer que atraiu a criança-donzela ao Drácula é a mesma que conduz o mal à própria morte.
E serve também como uma luva, neste contexto, a canção de Chico Science & Nação Zumbi: “Dentro do porta-luvas, tem a luva, tem a luva/ Que alguém de unhas negras e tão afiadas esqueceu de pôr”.
Devo dizer, zen vergonha de ser feliz, que somos todos vulneráveis à maldade alheia, mas, antes de tudo, à maldade que nós mesmos atraímos. E, se assim é, talvez seja porque nos assemelhamos a ela. Ou não?
Portanto, leitores, caberia à nós e somente à nós mesmos, a responsabilidade em não nos esquecermos de colocar as luvas para cobrir nossas tão afiadas unhas.
Ou então assumirmos de vez o desejo de mostrá-las em público e aguardarmos os próximos capítulos das consequências físicas, mentais e morais cabíveis aos nossos impulsos zenistros.
E que o Zenhor nos ajude!
